Documentos secretos revelam a verdade sobre o estranho naufrágio do USS Thresher

Uma coleção de documentos recentemente divulgados sobre o trágico naufrágio do submarino de ataque nuclear USS Thresher em 1963 confirma que a Marinha dos Estados Unidos não encobriu o misterioso acidente e que não houve um único evento ou erro que o tenha causado.

No ano passado, um comandante de submarino reformado venceu uma ação judicial que obrigava a Marinha a divulgar o relatório sobre o que aconteceu ao USS Thresher, que naufragou durante os testes de mergulho em abril de 1963, matando toda a tripulação de 129 pessoas. Desde então, a Marinha divulgou vários documentos que contam a história do naufrágio.

O USS Thresher foi o primeiro submarino de ataque com propulsão nuclear. A classe Thresher foi apenas a segunda a usar o novo casco em forma de lágrima projetado para maximizar a velocidade debaixo de água.

Ao contrário dos submarinos com propulsão convencional, os submarinos com propulsão nuclear conseguiam permanecer submersos indefinidamente e não exigiam um casco eficiente para navegar na superfície.

Os Threshers também foram os primeiros a usar a liga de aço HY-80, mais recente e mais forte. Os submarinos tinham 84 metros de comprimento, 4.369 toneladas debaixo de água e conseguiam fazer submersos durante mais de 30 nós.

Em 9 de abril de 1963, o USS Thresher estava a realizar testes de mergulho a 354 quilómetros a leste de Cape Cod. O submarino notificou os navios na superfície que monitorizavam os testes de que estava a encontrar “pequenas dificuldades” e que ia explodir os seus tanques de lastro para regressar à superfície.

Os técnicos de sonar relataram ter ouvido ruídos misteriosos de “ar a correr”, mas o submarino não conseguiu emergir.

O USS Thresher nunca voltou à superfície e, mais tarde, a Marinha encontrou o submarino em seis pedaços no fundo do Oceano Atlântico. Todos os 129 funcionários a bordo, incluindo 112 membros da tripulação e 17 contratados civis, morreram.

Muito foi especulado e muitas teorias foram propostas. Houve quem, por exemplo, culpasse as soldas defeituosas que falharam durante os testes, causando um curto-circuito nos sistemas elétricos críticos do submarino e minando a sua energia.

O que aconteceu realmente ao USS Thresher?
A investigação da Marinha sobre o naufrágio permaneceu secreta durante décadas até que James Bryant, um comandante de submarino aposentado dos Estados Unidos que comandou três submarinos da classe Thresher, processou a Força em 2019.

Em 2020, um juiz concordou com Bryant, ordenando a desclassificação de 3.600 páginas de arquivos, que foram agora divulgadas pelo U.S. Naval Institute News.

Enquanto a investigação da Marinha culpou o naufrágio num cano de água do mar que falhou, Bryant e outros especialistas navais acreditam que os arquivos desclassificados mostram que houve vários fatores que criaram o acidente fatal.

De acordo com o painel de especialistas, citados pelo Popular Mechanics, a Marinha dos Estados Unidos estava com pressa para colocar o USS Thresher na frota para combater uma nova classe de submarinos nucleares soviéticos.

Uma expansão da frota de submarinos criou uma procura por mais tripulações subtreinadas e há quem sugira que as tripulações foram para o mar sem o treino adequado. As próprias tripulações confiavam excessivamente nos sistemas, acreditando que era impossível que os submarinos com propulsão nuclear perdessem energia.

A Marinha disse oficialmente que um cano soldado incorretamente colapsou a bordo do navio, causando uma fuga de água do mar que acabou por causar um curto-circuito no sistema elétrico do navio. As tripulações não conseguiram alcançar o equipamento para impedir a inundação a tempo e os tanques de lastro não funcionaram corretamente.

O historiador naval Normal Friedman acredita que o treino inadequado exacerbou esses problemas, sendo que a tripulação foi incapaz de responder com rapidez suficiente para salvar o navio.

A perda do USS Thresher, bem como do USS Scorpion em 1968, levou a uma reformulação das práticas de treino e engenharia a bordo de submarinos nucleares da Marinha dos Estados Unidos.

A Marinha criou também uma agência especializada, o SUBSAFE, para supervisionar o projeto e a construção de submarinos para garantir que os submarinos pudessem emergir mesmo nas circunstâncias mais terríveis. Graças ao SUBSAFE, a Marinha não perdeu um submarino em 52 anos.

Bryant considera que a divulgação dos documentos é positiva para a Marinha. Durante várias décadas, os críticos acusaram a Força de encobrir o acidente ao manter os arquivos da investigação em segredo.

O conteúdo dos arquivos deixa claro que não houve encobrimento e que a Marinha apenas manteve o segredo para evitar que detalhes operacionais de submarinos nucleares dos Estados Unidos fossem público e beneficiassem os adversários.

Maria Campos, ZAP //

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