Diário de uma boa vizinha

“Quis demonstrar (…) que nada tem sucesso como o sucesso” disse, a propósito deste livro, a autora, galardoada com o prémio Nobel, e falecida em 2013. Doris Lessing escreveu no início dos anos 80 do século passado um romance chamado Diário de uma boa vizinha. Interessada em comprovar as dificuldades que encontram os escritores desconhecidos para publicar, enviou o manuscrito a várias editoras com o pseudónimo de Jane Somers. O livro foi recusado por várias delas, incluindo a que habitualmente publicava a autora no Reino Unido e, quando finalmente saiu para a rua, não vendeu mais de 1.500 exemplares naquele país, e cerca de 3.000 nos EUA, facto notável quando sabemos que outras obras de Doris Lessing, como o fabuloso Caderno Dourado, ou a série em 5 volumes de Os filhos da violência haviam vendido cerca de um milhão de exemplares cada. Por sua vez, a crítica, paternalista, apontava fragilidades literárias à autora. Editoras, críticos e público, em uníssono, comprovavam a tese de Doris Lessing, de que o sucesso é o motor do sucesso, e demonstravam a desonestidade intelectual do meio literário pois, não tendo mudado o estilo, nem a sua própria editora foi capaz de o reconhecer, nem os críticos ousaram atribuir-lhe as qualidades com que, por norma, exaltavam cada novo livro da aclamada escritora.
E de que trata afinal este livro, intitulado Diário de uma boa vizinha (Europa-América, 1989)? Pois conta-nos a história do encontro de uma mulher de meia idade, profissional ambiciosa e individualista, em crise depois da morte do marido e da mãe, com uma sua vizinha, velha de 80 anos, só e orgulhosa, mas dependente do apoio dos serviços sociais. É uma história de redenção pessoal e um libelo contra a indiferença. Toda a história do livro, do que contém e de como foi feito o é. Em tempos de pandemia e de tanta dor e sofrimento, e quando tentamos retomar um pouco daquilo que consideramos ser a “vida normal”, paremos um pouco e, lendo, olhemos em volta para os nossos semelhantes. Na nossa pressa de viver tem que haver um tempo para eles.

 

Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]

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