Terras de Bouro

“Com vontade de todos”, teleférico no Gerês é possível em quatro anos

“Terras de Bouro só pode viver do turismo”, de preferência todo o ano. A convicção do presidente da câmara de Terras de Bouro sustenta um dos projetos ‘mais falados’ das últimas semanas: a instalação de um teleférico no Gerês.

A ideia tem mais de seis meses, mas a polémica é de agora, muito à boleia de notícias desfasadas do tempo e redes sociais inflamadas de comentários injustificados. O autarca espera que seja uma realidade daqui a quatro anos.

Manuel Tibo explica ao ‘Terras do Homem’ que, em setembro de 2020, aquando da visita da Secretária de Estado do Turismo foi-lhe apresentado “o que de melhor temos no concelho e as necessidades atuais para que possamos receber mais e melhor”. A albufeira da Caniçada, o estacionamento desordenado na zona que precisa ser minimizado, a água e o saneamento e o teleférico foram assuntos discutidos na altura.

“Nós só podemos viver de turismo e a massificação que existe no Gerês precisa de ser ordenada e até minimizada”, por isso, “precisamos de um turismo ao longo de todo o ano e não concentrado, apenas, em meia dúzia de meses”.

Para combater esta ideia da sazonalidade, estão na forja dois projetos: a criação de banhos termais quentes e o teleférico.

Banhos quentes
As termas funcionam entre maio e outubro e no inverno fecham as portas levando centenas de pessoas para desemprego. “As empresas andam a fazer investimento na formação das pessoas e o retorno disso é quase nada, porque só precisam delas por seis meses”, lembra o autarca.

Um novo furo deu caudal de água suficiente para se pensar num projeto diferenciador para o Gerês: a criação de um balneário termal de águas termais quentes que possa funcionar todo o ano: “um projeto sustentável ambientalmente falando, criado de raiz, virado para o bem-estar de quem nos visita e com vocação para funcionar no Inverno”.

Será um projeto inovador em Portugal, “com qualidade” e fechado, “um pouco no seguimento do que existe em Espanha”.

Teleférico
A intenção da autarquia em implementar um teleférico na zona do Gerês tem a questão da massificação como ponto de partida. “Há milhares de carros todos os anos, estacionados em zonas proibidas. O que queremos é criar várias bolsas de estacionamento e impedir a circulação, exceto para naturais e residentes, nas zonas mais sensíveis do Parque Nacional”, refere Manuel Tibo.

O teleférico pode ser uma alavanca para aliviar esta ‘tensão’ automóvel: “é um transporte sustentável, elétrico e que ligará a vila do Gerês à Pedra Bela”. Terá várias cabines, será pago e poderá funcionar todo o ano.

A autarquia quer recuperar duas casas florestais para funcionarem com partida e chegada do teleférico: “toda a gente fala na requalificação das casas florestais, mas quando se apresentam projetos já querem que tudo fique como está”, critica o autarca que estende as críticas a duas partidos políticos: “têm a sua opinião, mas gostava de os ver a ser tão pró-ativos na questão da água e do saneamento, das acessibilidades ou do emprego”.

A câmara vai avançar em breve com o estudo de impacto ambiental e o estudo técnico, “documentos essenciais para que se possa avançar com o projeto”.

Leis impedem
Manuel Tibo “tem consciência” que legalmente não é permitido criar um teleférico, “mas as leis são feitas para as pessoas”, isto é, terá que haver negociações ao mais alto nível para que o projeto se concretize. O autarca, também, garante que “por onde gostaríamos de colocar o teleférico não trará impacto para a natureza”, voltando
a reforçar que “um concelho como o nosso não poderá ir para além do turismo”.

Concordando que existe “uma boa relação com a gestão do parque”, reconhece que “não precisamos estar sempre de acordo para que se chegue a bom porto” e lança mais uma farpa aos detratores: “as pessoas precisam de viver. Façam uma sondagem junto do povo do Gerês e tirem as vossas conclusões”.

Para o autarca, “se houver vontade de fazer este caminho, daqui a quatro anos pode estar concluído, com pareceres, financiamento e concursos a poderem ser possíveis dentro deste prazo”.

“Não somos figurantes”
As críticas sobem de tom quando colocam em causa os propósitos municipais: “volto a dizer, em Terras de Bouro só podemos viver de turismo. Se derem 2500 euros a cada terrabourense, nós aceitamos o papel de figurantes”, ironiza o presidente da câmara, “mas comigo não contem”.

As opiniões sobre a construção de um teleférico inundaram as redes sociais e por exemplo, o escritor e poeta terrabourense, João Luis Dias, foi um dos que manifestou a sua posição: “o PAN e o Bloco de Esquerda, respeitadas representações político/partidárias da nossa ‘praça democrática’, numa preocupada antecipação, andam por aí a perguntar a este e àquele o que têm a dizer sobre a intenção do Município local andar a sonhar/ousar/projetar construir o tal teleférico, pondo em causa o ambiente/biodiversidade na Serra do Gerês, como se preocupados com uma questão que ainda não existe. Isto não será como temer a dor de barriga ainda de intestino vazio? Tenham calma, caramba, a procissão ainda não levantou as bandeiras e o adro ainda nem foi engalanado”.

Bloco de Esquerda
O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda questionou o Governo sobre a intenção da Câmara Municipal de Terras de Bouro de avançar com um projeto para a instalação de um teleférico que ligue a vila do Gerês, ou outro aglomerado habitacional, à antiga casa florestal localizada junto ao miradouro da Pedra Bela, em pleno Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG).

Os deputados pretendem saber “qual é o entendimento do Ministério do Ambiente e da Ação Climática e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) sobre esta matéria”, uma vez que “a área de implantação prevista para o projeto poderá estar inserida em área de ambiente rural e próxima, ou intercetando, uma área de proteção parcial de tipo II, inserida em área de ambiente natural, pelo que o projeto não seria permitido”.

No documento entregue na Assembleia da República, os deputados do Bloco de Esquerda salientam que “o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011, de 4 de fevereiro, interdita, em áreas sujeitas a regimes de proteção, “a instalação de teleféricos ou funiculares”.

1 Comment

  1. Nuno SIlva

    11/05/2021

    O projeto do teleférico não tem 6 meses, mas sim mais de 2 anos. Já tinha sido apresentado a um dos Vereadores na altura. Mas por falta de verbas ficou adiado até hoje.

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