RVN e o (adepto travestido de) comentador

Num ano pandémico particularmente difícil, em termos escolares e desportivos, fui convidado por uma rádio local, Rádio Voz do Neiva (RVN), para comentar jogos do Sporting de Braga no estádio e em algumas deslocações próximas. A primeira alteração visível e sentida, enquanto comentador, foi sentir-me regressar aos tempos de treinador, estudando as equipas. Quem joga no SCB? Quem joga nos adversários? Qual o sistema de jogo habitual? Houve alterações específicas para este jogo? Aqui, devo um agradecimento especial ao Carvalhal que me poupou imenso trabalho pois o fio condutor do SCB, independentemente dos jogadores em campo e dos adversários, era similar, logo, a partir da 3ª ou 4ª jornada bastou-me estudar os adversários.

A principal preocupação na bancada de imprensa, conseguir que a razão se sobreponha, sempre, à emoção com que vivia os jogos na minha cadeira anual. Como reagiria o comentador a decisões incorretas do árbitro, se, contra o SCB? E quando houvesse golos decisivos do SCB, conseguiria conter os festejos e mantê-los… interiores? De entre tantos jogos, alguns houve que me ficaram na memória.

As maiores azias aconteceram com SLB e SCP na Liga. As maiores alegrias, na Liga Europa e com FCP e SLB na Taça de Portugal. Custou-me a derrota com SLB em Braga (2-0) que nos deixou logo em desvantagem em caso de igualdade pontual (vitória por 3-2 na Luz); não gostei, também, da derrota com o SCP que acabou com as esperanças na luta pelo 3º lugar. Nestes momentos menos bons do SCB tive sempre a preocupação de valorizar o que de bom foi sendo feito ao longo da época.

Momentos altos, houve muitos. Logo na Liga Europa, com uma fase de grupos de excelência. Depois, adorei estar no Dragão na 2ª meia final da taça de Portugal onde o comentador foi sendo progressivamente substituído pelo adepto esfusiante, festejando os golos com punho cerrado debaixo da mesa – convinha ser comedido – e em sofrimento a partir do momento que ficamos reduzidos a 10 que levou inclusive o relator de serviço, Daniel Lourenço, a perguntar-me algumas vezes, olhando para a minha palidez: o professor sente-se bem? E depois, brincando, ou talvez não – quer que chame o INEM?

A época acabou com a cereja no topo do bolo, em Coimbra na final da Taça de Portugal com SLB. Aí, uma inovação de que me esqueci ao longo do jogo – filmados em direto enquanto se relatava e comentava o jogo – levou a que no momento do 2º golo do SCB o comentador fosse incapaz de se conter e lhe “saltasse completamente a tampa” festejando o golo na bancada de imprensa como se estivesse no setor B1, fila 17, Lugar 3, da Pedreira. Depois, ao ver as imagens gravadas, caiu em si e percebeu que há momentos em que a razão por muito que o comentador se esforce, não consegue sobrepor-se à emoção do adepto.

Termino o artigo e a época com um agradecimento especial à Ariana Azevedo pelo convite e aos amigos e companheiros de jornadas da RVN pela experiência proporcionada. Por fim, OBRIGADO a todos – ouvintes incluídos – pela paciência com o comentador, algumas vezes travestido de adepto.

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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