Terras de Bouro

João Luís Dias, o poeta romântico atento ao mundo que o rodeia (com vídeo)

João Luís Dias é poeta, escritor e trabalha nos registos e notariado. Natural de terras de Bouro, é lá que escreve, se inspira e edita livros através da Calidum. Escolheu o rio e a nova ecovia para falar da sua vida de artista, que, desde novo, vem desenvolvendo. Um poeta romântico atento ao mundo que o rodeia e espera, lançar, em breve o seu primeiro romance, ‘O Piar da Coruja’.

Quem é o João Luis Dias?
Sou um natural de Terras de Bouro, com muito gosto, que nasceu há 58 anos, que estudou em Terras de Bouro e em Braga, que gostou sempre de escrever desde pequenino e porque gosta de escrever continua a fazê-lo, independentemente, de não fazer disso uma atividade profissional. Porque a nível profissional trabalho nos Registos e Notariado.

Esse gosto de escrever foi incutido por alguém? Como é que isso surgiu?
Eu lembro-me que tinha um tio, cantador ao desafio que andava pelas romarias e versejava muito bem. Talvez venha desse lado da minha mãe, ele era irmão dela, o gosto por escrever e versejar porque ele fazia-o muito bem. Era muito apreciado nessa altura, há bastante anos. Só se for daí porque de outra forma, eu não tenho outra escola que me tenha incutido o gosto pela escrita. É um dom natural que eu desenvolvi e talvez por causa dessa descendência familiar.

Quando era mais novo, escrevia o quê?
Escrevia versos porque sempre gostei de escrever versos, umas quadras. Lembro-me de num teste de português, que nada tinha a ver com poesia, pela primeira vez arrisquei e respondi ao teste em poesia e o professor ficou surpreso, curioso e depois agradado, disse ‘João Luís olha que tu és um poeta’.

Tem alguns desses primeiros poemas?
Eu publiquei o primeiro livro em 1988, nesse livro está com certeza poesia simples, primária, pueril, reflete aquilo que eu escrevi nos anos anteriores. Como já tem muito tempo, tem lá essa primeira poesia e da primeira poesia que escrevi.

O João Luís de 1988 é muito diferente do João Luis de 2021?
Não, sou igual. Mais velho, mais maduro com sentido critico diferente porque o tempo ajuda-nos a cultivar esse sentido crítico, nesses aspetos sou diferente, mas no sentido romântico, de gostar das palavras e as transformar em poesia e fazer delas rendilhados bonitos, aí sou igual aquando escrevi os primeiros versos. O coração é o mesmo, o gosto pelas palavras é o mesmo, a forma de as transformar em texto ou em poesia, naturalmente, é diferente porque eu cresci e a vida cultivou-me para que o possa fazer. As palavras não podem servir só para falar do amor, mas, também, das questões sociais, da nossa vida, de tudo, até da política. Sou diferente porque abordo com as palavras outros temas que o romantismo me obriga.

E a relação com a prosa?
Gosto. Tenho publicado textos em prosa. Tenho um livro que é uma recolha de crónicas que eu escrevia de forma periódica no jornal ‘O Geresão’. Escrevia sobre vários temas, nada sobre romantismo, era sobre a visão do dia a dia, a minha opinião, ainda que temporal, a notícia do momento, e escrevi durante vários anos, um dia recolhi e publiquei esse conjunto de crónicas.

Nunca se aventurou num romance?
Já. Eu tenho um romance quase finalizado e tenho um que iniciei e estou no primeiro capítulo. O que está quase concluído, entendi que ainda não era a altura ideal para o publicar até porque tem uma história curiosa. Quando eu tinha o romance quase pronto, faltava finalizar o último capítulo, eu imprimi em papel e entreguei a um pastor que mora na encosta da serra de Vila Verde. Ele gostava muito de ler, pedia-me sempre muitos livros e falava-me de diversos autores com muita qualidade. Era e é um bom leitor, um bom conhecedor das palavras. Entendi que lhe deveria dar aquele livro que queria publicar a ler. Não o entreguei a mais ninguém a não ser a ele. Ficou muito enternecido e leu-o muito rápido. Passado uns dias vem ter comigo e diz: ‘João Luís, eu li o livro, gostei muito da história, está bem conseguida, mas escreveste com muita ansiedade, com muita pressa de escrever, de acabar, de dizeres tudo e tu não podes ter a velocidade assim quando escreves’. Entendi aquilo como um excelente elogio e uma boa tónica para refletir. E percebi que havia muita velocidade e ansiedade nas palavras. Tinha muita imagem, muita metáfora e ele tinha razão, tem que ser filtrado, com tempo e maturidade e parei-o a até hoje e, ainda, não voltei a ele. No entanto, quando o tempo me o permitir vou pegar nele, filtrar o que tenho de filtrar e depois publicar.

Um tema inevitável é a inspiração. Como é com o João Luis? É um regrado ou mais espontâneo?
Eu nunca demorei mais de 10 minutos a escrever um poema nem a rasgar nada do que escrevi, a nível de texto dificilmente uma página A4 demora mais de 20 minutos. Não me sento à espera da inspiração da lua ou das estrelas. A minha inspiração do momento é uma esferográfica e um papel ou um teclado e um monitor. Naturalmente, a inspiração deve estar cá dentro e quando preciso dela, sobe aos dedos e à alma.

Portanto, não é de maturar textos
De forma nenhuma. E dou-lhe um exemplo muito presente: há uns dias, alguém que eu não conhecia, escreve-me a dizer que queria concorrer com um tema ao festival da canção e pedia-me para escrever uma letra. Souberam de mim e que era a pessoa ideal para isso. E perguntei como é que fazia. Eles mandaram a composição em piano e escrever assim é difícil, e eu escrevi uma canção respeitando o andamento, a métrica, o tamanho do verso em 10 minutos. Não chegou a ser candidata ao festival, mas foi composta e está a passar na televisão. Por isso, sou rápido a escrever e não sou muito de me sentar à espera que venha a luz que me ilumine. A inspiração está em mim, no tempo em que cresci, no tempo em que eu vi e apreciei, guardo numa espécie de disco duro e quando preciso, naturalmente, sem ter que procurar muito dentro de mim vai surgindo e, raramente, faço alterações.

São só poemas de amor?
Não! Gosto de poemas de amor. Aliás, as melhores canções dos grandes músicos acabam sempre por ser sobre a tónica do amor, que é uma paisagem enormíssima que nos dá vários ângulos. Mas também há a critica e tudo aquilo que nos acontece como cidadãos do dia-a-dia. Eu trago essa necessidade de falar, um reivindicar da vida quando ela nos oferece pouco e queremos que nos ofereça mais. Trago temas atuais, que nada têm a ver com o tema do coração ou das relações humanas, o que nos aborrece, o que nos alegra.

Quantos livros já publicou até hoje?
Sete livros e há um oitavo que foi editado no Brasil. O ‘Coração de Algodão’ também tem uma edição através de uma editora de São Paulo. Devem ter conhecido o livro através da internet e naturalmente, convidaram-me para fazer uma edição brasileira.

Livros que estão a ser todos digitalizados…
Sim, foi há muito pouco tempo por iniciativa do Município de Terras de Bouro que me pediu autorização para digitalizar todos os meus livros quer de poesia, quer de crónica e acho que há uma empresa da especialidade a fazer o trabalho. Parece-me que este ano a minha obra vai ficar disponível eletronicamente para toda a gente. Não tenho qualquer contrapartida financeira e também não é isso que me interessa. Eu só agradeço que os livros não adormeçam e se limitem a ser livros de arquivo.

Estar em Terras de Bouro tem algum constrangimento?
Não, de todo. Hoje, não há constrangimento em estar em qualquer lugar do mundo porque o mundo é global, estamos em toda o lado a toda a hora e a internet ajuda. Estar em Terras de Bouro é como estar em Nova Iorque porque nós temos a mesma capacidade de andar como eles têm. E Portugal a esse nível está bem e recomenda-se. E a escrita e os escritores beneficiam dessa possibilidade de um mundo global.

O João Luis também está ligado à Calidum. Uma editora muito especifica vocacionada para editar novos autores…
A história da Calidum diz que está bem e conseguiu até hoje fazer aquilo a que se prontificou que foi dar oportunidade a jovens autores, jovens em idade e de escrita, isto é, patrocinamos, também, não jovens que nunca editaram. Tem pessoas de Vila Verde, de Braga, da Galiza, mas a sua sede formal é em Terras de Bouro e foi daqui que a Calidum patrocinou mais de 30 capas de livros, quer ao nível da poesia, do romance, da crónica e chegamos até a publicar monografias que são excelentes. Nos últimos tempos, primeiro pela crise de 2009 /10 e depois pela pandemia que se fechou aos artistas, abrandamos, mas estamos convencidos que nos próximos tempos a Calidum vai-se reabilitar e fazer aquilo a que tem se prontificou fazer, editar quem nunca editou e que anda de mão estendida às portas das editoras a receber negas.

Sente quando edita um livro que é difícil chegar às editoras?
Bastante difícil. Hoje as editoras reduzem-se a muito poucas, algumas chamam a si todo o editorial da palavra e fecham as portas. Só autores com grande nome é que chegam a essas editoras. Quem não tem nenhum livro editado não consegue chegar lá até porque elas nem o livro leem. Infelizmente, aconteceu no passado e continua a acontecer. Hoje, há quem faça negócio quase como o autor ter que pagar para ver o livro editado. Não gosto nada disso, mas ainda assim, são essas pequenas editoras com essa forma de trabalhar que ainda publicam esses primeiros livros. A Calidum veio contrariar isso, está sediada numa terra pequena e as autarquias têm ajudado.

O que tem na forja para o futuro?
Quero publicar romance, ou seja, pegar no que está escrito, terminá-lo e editá-lo, vai chamar-se ‘O Piar da Coruja’, e depois escrever uma nova história, atual. Como já posso me sentar na obra que escrevi, modéstia à parte, permite-me sentar e escrever a obra que eu queria escrever. Nunca deixarei de escrever poesia nem de publicar. Para mim, a poesia é quase como respirar, escrevo todos os dias um poema, uns mais curtos do que outros, muitos ofereço-os nas redes sociais mesmo que não estejam vocacionadas para as pessoas ler mais do que duas linhas.

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