Secreto e lucrativo, o mercado de venda de ‘fezes de cachalote’ pode também ser violento

O âmbar cinza é altamente raro, mas também altamente valioso. Usada na indústria dos perfumes, o mercado deste material pode ser muito perigoso.

Deixa na pele uma resina oleosa e tem um cheiro a tabaco, madeira, folhas húmidas, mar e… excrementos. Chamam-lhe âmbar cinza.

Estes pedaços endurecidos de fluido corporal foram erroneamente identificados ao longo dos séculos como tudo: meteoritos, cogumelos, cuspe de dragão e fígado de peixe. Agora, sabe-se que é um produto natural produzido por cachalotes.

Tem grande valor como fixante para a indústria dos perfumes, atingindo elevados preços. Hoje é muito menos utilizado, por ter sido substituído por um sucedâneo sintético e pelo seu uso poder configurar uma violação à Convenção CITES.

A verdade é que continua a haver mercado para este subproduto digestivo de um dos maiores animais da Terra — e é bem mais perigoso do que pode pensar, com tudo desde tiroteios e atropelamentos a ameaças de morte.

Para o comprador certo — alguém que conhece as pessoas certas na indústria dos perfumes de luxo — eles ainda valem uma pequena fortuna, escreve a VICE.

Embora seja conhecido como “vómito” ou “fezes” de cachalote, o âmbar cinza não é nenhum deles. Aliás, até os cientistas estão céticos quanto à sua origem. A teoria mais popular está relacionada com a dieta dos cachalotes.

Lulas são a principal iguaria do cardápio dos cachalotes. Apesar do seu corpo ser maioritariamente mole, os seus bicos são mais duros do que todos os metais e polímeros conhecidos.

O que, regra geral, acontece é que o bico é expelido de volta para o oceano. No entanto, haverá umas vezes em que isso não acontece e o bico desce até ao sistema digestivo do cachalote.

Lá, os bicos cortam as laterais do intestino e são revestidos por uma substância protetora secretada. Esta nova massa segue até ao ânus da baleia, onde, desde que não cause um bloqueio fatal, é expelida. Ela flutua até a superfície, salga na água, endurece ao sol e eventualmente, chega a alguma costa longínqua.

“É raro”, explica Lloyd Esler, um veterano coletor de âmbar cinza e professor de história natural. “Provavelmente há 18 a 20 quilos por ano a chegar às praias”.

O preço atual do âmbar cinza varia de 10 a 30 dólares por grama, dependendo da sua qualidade.

Em fevereiro de 2021, um grupo de pescadores no Iémene encontrou uma pedra de 127 quilos de âmbar cinza dentro da carcaça de um cachalote e vendeu-a a um empresário dos Emirados Árabes Unidos por mais de 1,5 milhões de dólares.

Esler anda à procura de âmbar cinza, mas não para vender. Os pequenos bocados que encontra guarda-os como alguém que coleciona moedas ou selos. Para este professor de história, o seu valor é ornamental. Ocasionalmente, até derrete um pouco para juntar ao seu café, conferindo-lhe um sabor único.

Há centenas de anos que o âmbar cinza é usado como ingrediente em perfumes e até mesmo afrodisíacos. Foi usado por Maria Antonieta, Rainha Vitória e Isabel I de Inglaterra. Nos dias de hoje, ainda é usado em perfumes como o Amarige, da Givenchy, e no Chanel N.º 5.

O mercado negro de âmbar cinza está inundado de vigaristas, mentirosos e charlatões que ganham dinheiro vendendo âmbar cinza falso.

“Algumas pessoas, muito poucas pessoas, tornam-se territoriais nas praias. Acontece. É uma coisa real. Isto pode ser bastante perigoso”, disse Adrienne Beuse, dona de uma empresa neozelandesa que testa e compra âmbar cinza, em declarações ao The Spinoff.

“Se um pedaço no valor de 50 mil dólares der à costa, eles não querem que ninguém mais o encontre”, continuou. A própria diz já ter sido perseguida por dois carros que tentavam roubar-lhe o âmbar cinza encontrado.

Daniel Costa, ZAP //

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