No sábado passado, fui a casa que é como quem diz, ao Gerês. Depois de um ligeiro jantar no centro da Vila, nos petiscos da Bó Gusta (recomendo) dirigi-me para o auditório onde iria decorrer a apresentação do livro – FUT360L da Pereira à Pedreira – que teve a sua génese, também, no Campo da Pereira.
Pelas 21 horas, horário aprazado para iniciar a apresentação, chuva forte, devidamente acompanhada de relâmpagos que faziam da noite, dia, e trovões que até eu ouvia, tudo se conjugava para me recordar tempos de infância vividos numa terra, também conhecida por ser o “penico do céu”. Senti-me em casa também ao não precisar explicar o porquê de no título do livro aparecer o “Da Pereira…” pois todos os presentes conheciam o campo, a maioria de quando ele começou a ser construído e alguns, ainda hoje, quem sabe, com marcas do areão, do pelado, nas pernas (há lembranças que ficam para a eternidade)
Depois da apresentação a cargo do António Cunha culminada com referência merecida ao colega que partiu precocemente – Fernando Santos Silva – também ele com créditos neste livro, por ter sido o seu revisor, coube-me a vez de falar.
Relembrei os nossos entretimentos possíveis à época: brincar aos cowboys, jogar à concha ou…tentar jogar futebol sem espaços próprios. Falei dos 1ºs dérbis em que participei na Escola Primária, Gerês – Assureira. Lembrei as bolas de plástico ou borracha pois as de capão só saíam se completássemos caderneta de cromos de futebolistas, que envolviam rebuçados que custavam meio tostão (com 1 ct de hoje, compravam-se 40 rebuçados, à época).
Lembrei que o nosso primeiro campo (de futebol) era o de ténis (sem rede ao meio) do Hotel e que os jogos só terminavam quando escurecesse ou alguém gritasse que vinha aí o sr. Agostinho (responsável do Hotel) com os cães. Aí, o desporto coletivo passava a individual e fugíamos, cada um para seu lado.
Recordei as primeiras reuniões em meados da década de setenta para filiar o clube e construir o campo. À memória veio também a época de 81.82 – a da minha estreia no GERÊS – em que subimos de divisão. Tive depois um período de interregno de jogador federado pelo Gerês, quando fui estudar para o Porto, interrompido, às vezes, quando vinha a casa ao fim de semana e me convidavam a jogar com cartão de outro jogador (espero que já tenham prescrito esses crimes, hoje confessados). Findo o curso voltei, como treinador/jogador, até assentar arraiais em Braga (jogando ainda no Vilaverdense e Palmeiras) iniciando o meu percurso como treinador no futebol de formação do SCB.
Foi aí que o livro voltou a ganhar força quando passei a lidar de perto com muitas situações impensáveis num espaço que se queria lúdico e de formação. Anos depois, noutras funções – prospetor – assistia a imensos jogos todos os fins de semana, essencialmente de benjamins e infantis, que me deixavam verdadeiramente incomodado, quer com resultados impensáveis, quer com comportamentos deploráveis de agentes que se queriam e diziam formadores (treinadores, dirigentes, pais). Dessas experiências, saíam crónicas de revolta que depois, juntei, transformando-as neste livro.
Fiz os agradecimentos justos e merecidos a quem me proporcionou este regresso a casa e lembrei também, como não podia deixar de ser, um AMIGO de sempre que mesmo não estando já entre nós, nunca será possível sair das nossas memórias, também pelas imensas histórias vividas conjuntamente.
Carlos Mangas [Professor de Educação Física]
