Vila Verde

Ooze Nanotech, a empresa de Vila Verde que pensa fora da caixa

Filipa Fernandes nasceu há 36 anos em Guimarães e vive em Braga. Fez o mestrado integrado em Engenharia de Materiais na UMinho, na qual investigou desde 2010 em projetos do Centro de Física, do Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil, do Centro de Território, Ambiente e Construção e do Centro de Engenharia Biológica.

Com este último está a conceber uma farda de proteção hospitalar, em parceria com o Instituto Nacional de Saúde (INSA). Está também presente no meio empresarial: é diretora científica da Ooze Nanotech (Vila Verde) e investiga na Ribeiro & Matos (Guimarães).

Tem duas patentes em aprovação. Centra a pesquisa em funcionalização de superfícies, como pavimentos, cerâmicas, vidros e têxteis; possui trabalhos pioneiros sobre áreas autolimpantes e rodovias que mudam de cor com a temperatura. Pela UMinho, foi ainda capitã da equipa de futsal, que se sagrou campeã nacional e vice-campeã europeia universitária

Como é que se desenvolveu este trabalho de investigação que atualmente está a fazer?
Eu entrei no curso de Engenharia de Materiais porque sempre fui uma pessoa muito curiosa, muito ‘artística’, como se costuma dizer, entrei na parte de Engenharia vinda das Artes e houve um dia, no secundário, em que fui conhecer à UMinho uma série de cursos e descobri aquele que seria o meu curso. Não sabia o que queria, sempre tive apetência para o desporto, para a área humana, mas aquele curso, dependendo da área que seguisse, me permitiria trabalhar com a saúde e outras aplicações.
Eu entrei em Engenharia de Materiais em 2006 e no meu quarto ano existe uma disciplina, Projeto Individual, que é uma preparação para a dissertação, onde fiz um trabalho com a Revigrés na área dos azulejos auto limpantes e viemos a descobrir que, se calhar, eu tinha ali uma veia para a investigação. Muitos podem ter considerado sorte porque eu não era uma aluna de grandes notas, mas veio-se a descobrir que havia ali qualquer coisa.

Estava criado o chamado ‘bichinho’…
Sim, até porque no ano seguinte, com o mesmo grupo de investigação parti para pavimentos auto limpantes, pavimentos betuminosos, comecei a trabalhar com Engenharia Civil, a minha tese chegou a ser acompanhada pelas Estradas de Portugal que culminou com um projeto, muito falado, os pavimentos que mudavam com a temperatura.
Desde aí, o professor que estava responsável pelo departamento de investigação, nesse ano da minha dissertação, lançou um projeto para a FCT, acrescendo caraterísticas aquele que estava a desenvolver. Só que 95% do trabalho estava finalizado no fim da minha dissertação e nem eu própria sabia. Aproveitamos o resto do trabalho para o desenvolver, através de uma bolsa, e comecei a dar formação a alunos de mestrado de engenharia civil e de doutoramento que vinham para a área da física.
As coisas foram andando surgindo curiosidades na área dos têxteis, dos auto limpantes e vinha parar tudo às minhas mãos. Eu gosto tanto do que faço que passava horas enfiada a trabalhar naquilo. Foi aí que tudo começou. Transferi-me para a Ooze Nanotech em Vila Verde, em 2017 com um repto ou um pedido específico para a questão dos mosquitos. Há uma problemática mundial causada pela transferência de doenças pela picada de mosquitos e foi aí que desenvolvi o projeto da pulseira que já está no mercado e foi o pontapé de saída.

Qual é a área de intervenção da Ooze Nanotech?
Nós temos vários projetos. A partir da altura em que as notícias começaram a sair, várias empresas vieram ter connosco para trabalhos em parceria. Posso-lhe dizer uma entidade, da qual a astronauta Ana Pires faz parte, com a qual temos uma colaboração. Temos empresas, que são confidenciais, mas são multinacionais com as quais estamos a trabalhar, não para uma área da saúde especifica, mas a funcionalização de serviços.

Pelo que percebo, o seu interesse é multidisciplinar, não está focado só numa área.
Eu sou um bocado seletiva, não pelo que pode gerar a nível económico, mas aquilo que pode gerar para as pessoas. Se lhe falar dos pavimentos betuminosos anti gelo ou auto limpantes, se calhar, as pessoas à primeira vista não veem nada de especial nisso, mas se eu lhe disser que 95% do óleo à superfície na altura do Inverno, nas primeiras chuvas, que causam imensos acidentes é complementarmente composto, pode passar a fazer sentido. Vamos fazer uma marcação rodoviária que muda de cor com a temperatura utilizando uma tecnologia diferente da existente, as pessoas, se calhar, não se despistam, ou utilizando cores, sabem preto no branco, que ali tem gelo e se calhar, têm mais cuidado, estamos a impactar diretamente com a sinistralidade. No caso da menopausa, se soubesse a quantidade de senhoras que vieram ter connosco com o feedback a dizer que arranjaram uma solução para a qual os tratamentos que existem não respondem, é qualquer coisa de fenomenal.
O que é que me cativa, é o facto de poder ajudar. O que é que um t-shirt tem a ver com a menopausa? É feita de maneira completamente distinta, garante às senhoras qualidade de vida.

Como surgem essas ideias todas?
No caso da t-shirt da menopausa o repto foi lançado pelo meu sócio porque a mãe dele, já no período da menopausa desmaiava imenso porque a temperatura disparava. A única restrição foi: ‘eu sou da área têxtil, eu quero um têxtil que tente resolver este problema’ e a partir dai nasceu a t-shirt com um revestimento. Aquilo que me diferencia de tudo o que existe é a forma como eu faço. Eu posso ter um carro, mas se não colocar a roda num sítio correto não vai funcionar. É o conhecimento dos materiais que eu tenho e a inspiração que muitas vezes faço com analogias à natureza que me permitem fazer as coisas. Estas partículas existem desde os anos 90, mas a forma como eu as colooa, as aprisiono, faz com que o tecido tenha muita durabilidade e as pessoas têm resultados ao longo do tempo e isto é uma grande diferença.

É isso que falta à investigação?
Eu acredito que está tudo inventado. A forma como apresentamos as coisas é que é diferente. Tantas coisas corriqueiras do nosso dia a dia, como as tampinhas da cerveja, por exemplo, que têm agora uma abertura mais fácil, aquilo foi uma invenção que simplificou muito a forma como se trabalha. No ramo da saúde, uma pequena invenção, como as pulseiras, pode significar a eliminação de doenças que não se conseguiam eliminar. E há trabalhos a serem feitos na área da investigação, na alteração genética de mosquitos, de milhões de euros, a tentar resolver um problema que será de todos por causa das alterações climáticas. Quando me fizeram o pedido das pulseiras, desde a ideia até à conceção, demoramos cinco anos porque tudo foi um desafio.

Como assim?
Eu tenho que encontrar uma forma de não alterar o ecossistema, sabendo que a fêmea ao picar pode transmitir a doença, sem matar mosquitos, evitar os repelentes, evitar tudo o que possa adulterar a forma como eles trabalham e foi por aí. Eu criei um dispositivo para se colocar em t-shirts que ainda não avançou por uma questão de custos. A questão das pulseiras, têm um dispositivo com um raio de ação em que se confunde o mosquito. Se ele se aproximar de uma planta não a vai picar, se eu o confundir, ele vai continuar a conviver no ecossistema, mas não nos vai atacar. É uma forma fora da caixa de ser uma possível solução que se vai integrar nas muitas outras que estão a ser desenvolvidas.

Como está a ser a recetividade às pulseiras?
Demorou cinco anos porque causa da tecnologia associada, já que teve que ser tudo desenhado, moldes, etc. Os investimentos acabam por ser sempre pagos por quem compra os dispositivos. Eu também me diferencio nisso do custo final. Sou uma pessoa que vem de um meio pobre e então essa experiência de vida, o olhar par o lado e tentar posicionar-me no lugar do outro, faz-me pensar que que poderia ir para um segmento de mercado onde só os ricos poderiam ter poder de compra, eu evitei isso. Prefiro diminuir às margens, demorar muito mais tempo a pagar o investimento, mas assegurar que a maior parte das pessoas têm acesso e engane-se quem pense que a pulseira vai ficar por aqui. Esta pulseira foi desenvolvida, está apta para duas espécies especificas de mosquitos, chamadas de assassinas, mas há mais espécies e este tipo de tecnologia aplicada aos seres humanos vai evoluir para encontrarmos mais odores para nos camuflarmos para mais espécies de mosquitos. Está em fase industrial uma proteção para cães e gatos para pulga, carraça, mosquito da Leishmaniose, mosca, abelha e já temos alguns odores que vão iludir. No futuro, queremos criar uma economia circular. Imagine que está no Brasil, compra uma pulseira com uma durabilidade de 30 dias, para se proteger, imagine que a embalagem da pulseira é própria para a guardar, ao fim daquele tempo põe dentro da embalagem e entrega num sítio, ela é nos devolvida, deixamos de ter lixo, incentivamos as pessoas a protegerem-se e a comprarem mais e isto pode ser transformado noutra coisa mais, um resíduo que pode ser aproveitado para a natureza. A nossa ideia é transformá-la num adubo, num processo que vamos estudar. Paralelamente, sei qual vai ser o impactoo de uma doença e o número de mortes através dos dados oficiais, se, daqui a 10 anos lhe perguntar qual é o impacto a pulseira a nível mundial, a única forma de o sabermos é seguindo as pessoas que a utilizaram e essa é a nossa grande meta.

A pulseira funciona como?
Algumas regras: se é uma libertação de odor para enganar um mosquito, a pulseira tem que estar junto à nossa pele porque é a nossa temperatura corporal que vai libertar esse odor. Em seguida, a nossa temperatura corporal, durante 30 dias, vai fazer com que haja uma libertação de odor controlado que me permite uma proteção efetiva de 98%. Tem uma cera, é esse o segredo, que nos permite aprisionar o odor durante 30 dias e libertá-la de uma forma gradual. A pulseira está disponível em 27 farmácias de Norte a Sul do país a vender porque quem vive perto do campo tem essa problemática dos mosquitos. Tem funcionado muito bem cá, mas esse não é o nosso foco. A venda ao público custa 5,50 euros.

E a t-shirt como funciona?
As t-shirts têm um estampado na zona do peito e da cervical que é onde 96% da população mundial feminina se queixa de sentir os calores. A qualidade do tecido é determinada pelo meu sócio e tanto pode servir como roupa de dormir ou de andar. Regula a temperatura, isto é, a senhora sabe que a temperatura vai disparar, mas este estampado absorve como se fosse um escudo. Portanto, não se sente o calor e isso aumenta o conforto e o feedback tem sido fabuloso. Está à venda on-line numa empresa em Guimarães e temos uma empresa do distrito de Aveiro que faz a distribuição. O seu custo é de 39,90.

E a durabilidade é para sempre?
Sim, para sempre. Na empresa do meu sócio, onde isto começou, tem uma funcionária que testou e anda sempre com as t-shirts., algumas já com pequenos buraquinhos das lavagens porque ela não consegue se livrar daquilo.

Há ideias para homens?
Temos uns boxeurs que não são para a andropausa onde na zona frontal há umas bolinhas, e esse revestimento usa o mesmo pressuposto da t-shirt. Dão para a prática desportiva, para homens que sofrem imenso com assaduras e na altura do verão, com forte transpiração andam sempre com a sensação de fresco. Há em três cores e em três formatos.

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