Um conjunto de 25 obras da artista brasileira Zélia Mendonça integram a exposição “Segunda Instância: Estórias de Violência, Abandono e Perdão”, que estará patente até dia 15 de julho, no Tribunal da Relação de Guimarães. A organização está a cargo da zet gallery, com curadoria de Helena Mendes Pereira. 10% das receitas provenientes da venda dos trabalhos reverte para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que comemora este ano 35 anos de existência.
Num vaivém constantes entre Brasil e Portugal, nos últimos anos, com várias exposições e colaborações pelo meio (com destaque para trabalhos expostos na Bienal de Cerveira e colaboração com Joana Vasconcelos), a artista Zélia Mendonça procura chamar a atenção para o tema da violência contra a mulher nas mais variadas formas. Para isso, a artista explora a “versatilidade do têxtil, apropriando-se da memória do saber fazer doméstico, que socialmente pertence às mulheres, e construindo estórias e narrativas em que mescla bijuteria, elementos como alfinetes de dama, os tradicionais “fuxicos” do Brasil, pedaços de crochet e restos de tecidos e peças de vestuário, entre outros materiais que dão corpo à assemblage como técnica essencial do conjunto de obras que a artista aqui apresenta.
Cada uma das suas obras conta-nos uma estória, de uma mulher ou de uma tipologia de perfil, e há, nos últimos anos, uma centralidade para a denúncia da violência sobre as mulheres, do abuso sexual, do feminicídio”, como afirma a curadora da exposição, Helena Mendes Pereira. Para a também diretora geral da zet gallery, que se associa ao Tribunal da Relação de Guimarães e à APAV, para a criar esta exposição, “a obra de Zélia Mendonça combina tradição com as emergências do contemporâneo, dando visibilidade a uma praxis outrora castradora da plenitude de ser mulher, e, agora, original e reflexo de um tempo artístico marcado por uma imensa vontade de regresso às manualidades, afirmando-se as práticas domésticas ou artesanais como as reais novas tecnologias do século XXI”.
Para António Sobrinho, presidente do Tribunal da Relação de Guimarães, “É possível [juntar] a Justiça com Arte. No palco dos Tribunais são múltiplos os cenários de violência, abandono e perdão que emergem da tela da vida e as obras de Zélia Mendonça transportam-nos para essa intensidade/ímpeto, partida/afastamento e indulgência/absolvição tão presentes no silogismo judiciário. As suas peças irradiam, sobretudo, uma mescla de humanidade e natureza, de feminismo e coloração tão características da tropicalidade”, refere o magistrado no catálogo que acompanha a exposição.
10% das vendas das obras da exposição revertem para a APAV
A exposição que inaugura dia 2 de abril, pelas 12 horas, tem mais motivos de relevo, além da qualidade artística patente nas obras de Zélia Mendonça. “Não queríamos deixar passar esta oportunidade sem assinalar o nosso profundo reconhecimento à APAV, pelo trabalho que desenvolve com as vítimas de violência, principalmente as mulheres. Por isso, desafiámos a direção da instituição a criar uma obra numa casa-abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica que têm a sua integridade física posta em causa pelo agressor ou pela família deste. Levámos a Zélia até um destes abrigos e ela esteve um dia inteiro com estas mulheres, num momento de partilha que se revelou extraordinário”.
Se, num primeiro momento, elas estavam retraídas, rapidamente permitiram entregar-se à arte e desenvolveram, em conjunto com a artista, uma obra fantástica que vai estar na exposição”, explica Helena Mendes Pereira. Marta Mendes, da APAV, destaca que, “esta iniciativa tem a importante vertente de, através da arte, promover a sensibilização para a violência que diariamente afeta mulheres, homens, crianças e pessoas idosas”.
No sentido de apoiar a atividade da APAV, nas suas mais variadas valências, 10% de todas as verbas conseguidas com a venda das obras expostas reverterão para a instituição.
Para ver até 15 de julho, no Tribunal da Relação de Guimarães, com entrada livre.
