No próximo dia 2 de maio, pelas 21h00, estreia Hei-de reparar, um espetáculo de teatro criado e dirigido por Raquel S., com interpretação de Maria Jorge. A peça insere-se nas comemorações do 110.º aniversário desta histórica sala de espetáculos e propõe-se como uma viagem sensível, crítica e profundamente teatral pelas vidas – reais e imaginadas – de atrizes portuguesas dos séculos XIX e XX.
Hei-de reparar é um monólogo que se multiplica em vozes, memórias e corpos. Uma só atriz em cena, mas centenas de vidas convocadas – atrizes esquecidas, divas imortalizadas, mulheres que ousaram fazer do palco um lugar de afirmação e resistência. A partir de uma extensa investigação, que cruza documentos, biografias, fotografias, memórias e rumores, o espetáculo constrói uma “história falsa” das atrizes em Portugal – uma ficção que serve para pensar a realidade do teatro português, ontem e hoje.
“Comecei a interessar-me por estas figuras quando percebi que, por trás dos tiques, dos exageros e das lendas, havia mulheres que conquistaram o seu lugar à força. Muitas fundaram companhias, dirigiram teatros, exigiram ser ouvidas.
Outras desapareceram na sombra. Este espetáculo é também sobre elas”, partilha Raquel S., dramaturga, encenadora e diretora artística da peça. Hei-de reparar brinca com os códigos do melodrama, da séance, do sarau e da conferência, numa abordagem que é ao mesmo tempo rigorosa na pesquisa e irreverente na forma. O espetáculo convoca o excesso como matéria poética, e o humor como forma de rever o passado com distância crítica. A imagem da “Grande Atriz” é desconstruída e reinscrita numa história que mistura o riso e a ferida, a pompa e a precariedade, o aplauso e o silêncio.
Ao lado de Raquel S., a equipa artística conta com Pedro Azevedo na cenografia e figurinos, Odete na criação sonora, Rui Monteiro no desenho de luz, e Inês Maia na direção de produção (Pé de Cabra). A comunicação visual é assinada por Nuno Matos, e inspira-se nas fotografias de atrizes do início do século XX – imagens que o espetáculo recria e reinterpreta. Hei-de reparar não é apenas um espetáculo sobre o passado. É uma tentativa de entender o que resta dessas mulheres no presente do teatro. Uma pergunta sobre como se constrói uma memória coletiva e quem fica, tantas vezes, fora dela.
Associada a este espetáculo, no dia 3 às 14h00, terá lugar uma visita realizada por Raquel S., onde serão partilhados mitos e histórias que não tiveram lugar no espetáculo enquanto conhecemos os bastidores do Theatro Circo. A entrada será gratuita conforme lotação (25 pessoas) e mediante levantamento de bilhete até 15 minutos antes. Esta visita terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa.
Raquel S., nascida em 1986, é encenadora, dramaturga e dramaturgista, formada em Filosofia e Estudos Literários. Vive no Porto, onde fundou, em 2018, a Noitarder – estrutura que cruza teatro, literatura e filosofia. Criou espetáculos como Longe, amor.demónio, Ruído e Cadernos de. Em 2020, integrou a École des Maîtres, escrevendo Carne, apresentado em vários países.
Em 2022, estreou INVASÃO! e Texto. Colabora com outros criadores e dirigiu peças no TUP, como Medeia de Noitarder e Atequando. Escreveu ensaios, poesia, textos para cinema e fanzines. Dá aulas de dramaturgia na ACE e colabora com o FITEI.
Bilhetes para Hei-de Reparar. disponíveis a 5€ na bilheteira do Theatro Circo, locais habituais e online em https://theatrocirco.bol.pt/
