Uma equipa de investigadores Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto publicou um estudo que destaca a urgência de repensar as misturas de sementes atualmente disponíveis no mercado para a promoção de polinizadores em espaços verdes urbanos. O estudo, que avaliou sistematicamente as misturas de sementes comercializadas em Portugal, revela uma oportunidade significativa para otimizar estas ferramentas de conservação e maximizar o seu impacto na biodiversidade urbana.
A polinização, um serviço dos ecossistemas vital, tem recebido uma atenção crescente devido ao reconhecimento do declínio das populações de polinizadores, maioritariamente insetos. Os espaços verdes urbanos, como parques e jardins, são cruciais para a conservação destes insetos, mas o mercado português de misturas de sementes ainda não está alinhado com este objetivo. Apenas uma pequena percentagem (9%) das misturas disponíveis contém flores silvestres que são verdadeiramente favoráveis aos polinizadores e adequadas para ambientes urbanos.
“Uma escolha criteriosa de espécies nativas é essencial para conservar a biodiversidade e criar espaços urbanos mais sustentáveis.” refere Ana Afonso, botânica. A maioria das misturas de sementes é projetada e comercializada com um único uso pretendido, sendo a maioria destinada a pastagens (45%) e cerca de 32% destinadas a espaços verdes urbanos. Ainda assim, apenas 1% são comercializadas especificamente para apoiar polinizadores, refletindo a limitada disponibilidade no mercado, de produtos multifuncionais ou ecologicamente corretos. Consequentemente, misturas de sementes com maior capacidade para estabelecer prados de flores silvestres favoráveis aos polinizadores em espaços verdes urbanos são significativamente mais caras, com preços aproximadamente 2x mais altos.
A esta limitação estão também associados problemas de rotulagem e de baixa diversidade das misturas. Mais de 70% não divulgam completamente todas as espécies constituintes e a quase totalidade (91%) tem apenas uma ou duas famílias de plantas representadas.
“Em Portugal temos mais de dois milhares de espécies de polinizadores, com distintos tamanhos, adaptações e requisitos. Para promover comunidades de polinizadores diversas precisamos de espaços verdes urbanos com elevada diversidade de plantas que satisfaçam esses distintos requisitos” indica Sónia Ferreira, entomóloga.
Os grupos das Poaceae (gramíneas) e Fabaceae (leguminosas) foram as famílias mais prevalentes em todas as misturas, contudo têm um valor estético limitado para humanos em comparação com outras plantas herbáceas, o que eleva o desafio em termos de design de espaços verdes urbanos promotores da biodiversidade.
Outro desafio bastante evidente é a presença de espécies não nativas nas misturas comercializadas. Em média, 14% das espécies das misturas são exóticas e pelo menos 76% das misturas para polinizadores possuem pelo menos uma espécie exótica. As espécies exóticas mais comuns são o sanfeno (Onobrychis viciifolia Scop. – Fabaceae), o trevo-encarnado (Trifolium incarnatum L. – Fabaceae), o tomilho (Thymus vulgaris L. – Lamiaceae), a alfafa (Medicago sativa L. – Fabaceae) e uma centáurea (Centaurea cyanus L. -Asteraceae).
A certificação da origem das sementes é outro ponto relevante para discussão. Atualmente não é possível identificar a origem das sementes presentes nas misturas, nem mesmo o país, em muitos casos. “A flora silvestre é muito diferente de norte a sul, e uma planta que é nativa no Algarve pode ser considerada exótica no Minho e até tornar-se invasora” refere Miguel Porto, botânico. Seria importante haver regulamentação quanto à região onde cada mistura de sementes pode ser utilizada e desenvolver orientações científicas para a escolha das espécies de uma mistura, tendo em conta a região-destino, colocando restrições a que espécies (nativas) não podem ser usadas em determinadas regiões.
Os investigadores sublinham a necessidade de uma abordagem integrada que inclua uma seleção criteriosa de espécies nas misturas de sementes, resultando em soluções mais sustentáveis, visualmente atraentes e esteticamente ricas. Claúdia Fernandes, Arquiteta Paisagista, salienta: “Atualmente, não há motivo para as misturas de sementes não cumprirem critérios estéticos e ecológicos. Já era altura do mercado responder à procura dos arquitetos paisagistas com misturas de sementes adequadas”.
Este trabalho representa um passo crucial para informar decisores políticos, arquitetos paisagistas e o público em geral sobre a importância de escolhas informadas para a conservação dos polinizadores nas cidades.
