Uma equipa internacional de investigadores, liderada por cientistas do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-BIOPOLIS) da Universidade do Porto e do Museu Nacional de História Natural (MNHN/CNRS/Université Paris Cité, França), analisou o DNA de 100 habitantes da ilha de São Tomé para reconstruir a sua história genética. O estudo revela o impacto das migrações forçadas e das dinâmicas sociais associadas à economia das plantações, que moldaram a diversidade genética da população atual.
O Passado Escondido no DNA
A ilha de São Tomé, localizada no Golfo da Guiné, foi um dos primeiros territórios onde os portugueses estabeleceram uma sociedade baseada na escravatura e na economia das plantações -um modelo depois replicado nas Américas. Durante o século XVI, a produção de açúcar levou à chegada de escravos do Reino do Benim e do Reino do Congo. Ao declínio da indústria açucareira no século XVII, seguiu-se um período de estagnação que foi interrompido no século XIX, quando a economia da ilha voltou a crescer com a produção de café e cacau, sustentada por trabalhadores submetidos a condições de servidão, provenientes de outras colónias portuguesas, nomeadamente Angola, Moçambique e Cabo Verde.
Estas migrações sucessivas deixaram marcas profundas na genética dos habitantes de São Tomé. Os resultados genéticos estão de acordo com os registos históricos das principais rotas do tráfico de escravos e permitem reconstituir uma história de mestiçagens entre populações de diferentes regiões do continente africano, nomeadamente do Golfo da Guiné e de Angola. Também foram identificadas em São Tomé contribuições genéticas importantes associadas a migrações de trabalhadores após a abolição da escravatura, especialmente a partir de Cabo Verde.
O mosaico da diversidade genética de São Tomé foi também moldado pelas estruturas sociais ligadas à economia de plantação. A investigação identificou cinco grupos genéticos distintos na ilha, três dos quais coincidem com grupos sociais e culturais bem definidos: os Angolares, descendentes de escravos fugitivos que viveram isolados durante séculos; os Forros, descendentes de escravos libertos que se tornaram a principal comunidade formada após o declínio da economia açucareira; e os Cabo-Verdianos, descendentes de trabalhadores contratados do arquipélago vizinho. Os restantes dois grupos resultam da fusão entre estas comunidades ao longo do tempo.
Impacto Social e Diferenças com Cabo Verde
Embora São Tomé e Cabo Verde tenham partilhado cinco séculos de domínio colonial português, a sua história genética é diferente. Em Cabo Verde, onde a economia de plantação nunca foi muito desenvolvida, a contribuição genética europeia na população atual é muito maior do que em São Tomé. Curiosamente, o estudo revela que a maior parte do DNA de origem europeia dos são-tomenses foi trazido pelos imigrantes cabo-verdianos, e não diretamente pelos colonos portugueses, em minoria face à população africana explorada nas plantações.
Esta investigação mostra que as populações humanas não são blocos estáticos no tempo, mas sim o resultado de sucessivas misturas genéticas entre comunidades que já eram misturadas.
Mais do que um estudo sobre genética, este trabalho reforça a importância da história e das dinâmicas sociais na formação do património genético das populações. Não é a genética que determina o comportamento das sociedades humanas – são as interações sociais e os fenómenos históricos que moldam a diversidade genética que hoje observamos.
