Guitarrista, compositor e musicólogo, o polaco Raphael Rogiński é uma figura de destaque nos universos da música tradicional e improvisada europeias. O seu trabalho liga o jazz, a música clássica e os sons tradicionais e folclore da Europa Central e de Leste. Chega esta semana a Portugal para dois concertos em que, sozinho à guitarra, interpreta e reimagina clássicos do eterno John Coltrane.
Lançado originalmente em 2015, Plays John Coltrane & Langston Hughes é um marco na música de guitarra do polaco. Ao longo dos anos, este discreto trabalho foi ganhando um estatuto de culto. Os CDs esgotados e o burburinho que nascia à volta deste disco levaram a uma reedição em 2024, que contava também com novas interpretações. Elogiado pela crítica internacional, incluindo um louvor de 8.5 na Pitchfork, Plays John Coltrane & Langston Hughes é muito
elogiada pela leitura radical da música do gigante norte-americano. Com uma perspetiva exterior à tradição do jazz, Rogiński abranda e despe as canções de Coltrane em busca de uma intimidade e um misticismo que transcendem a
forma e o género. O resultado são composições quase irreconhecíveis, que revelam a complexidade polifónica da obra de um dos maiores nomes da história do jazz, enquanto são guiadas pelo vocabulário tão próprio do polaco.
Filho de um sobrevivente do holocausto, Raphael Rogiński nasceu em Frankfurt no seio de uma família de emigrantes judeus polacos. No início dos anos 80, a sua família regressou à Polónia, onde o guitarrista começou a aprender música. Em entrevista ao jornal polaco Polityka, conta que quando começou a tocar guitarra praticava nove horas por dia de uma forma tão maníaca que o sangue lhe escorria dos dedos. Quem o ouve hoje, dificilmente imaginaria uma imagem tão violenta no início. A sua música tem um toque meditativo, um dedilhar tão completo que parece vindo de quatro mãos, e onde a improvisação e a música tradicional se encontram em perfeita sintonia.
Para além de músico, improvisador e compositor, Rogiński é também um antropólogo da música, com especial interesse no papel social da música tradicional europeia e judaica, que procurou incorporar na sua obra. A pesquisa pela tradição hebraica resultou nos projetos Shofar e Cukunft e na banda Debka Rafiah que toca música israelita antiga. É ainda diretor artístico de festivais que apresentam a nova cultura judaica, como Tikkun, Varshe ou Mizrach, e consultor para projetos apresentados nesses festivais.
Profundamente enraizado na cultura folclórica da Europa Central e de Leste, muitas das suas composições deambulam e vão buscar inspiração a este universo: Žaltys, disco lançado em 2024 com um título inspirado num espírito báltico, rumina sobre o rio fronteiriço entre a Lituânia e a Polónia; Talàn (2022) é dedicado ao Mar Negro, que Rogiński vê como o coração da Europa central; e mais recentemente Bura (2025) é uma colaboração do guitarrista com músicos sérvios, em que reinterpreta canções tradicionais e textos sufi.
Raphael Rogiński Plays John Coltrane, 18 de outubro às 18:00 no gnration.
Bilhetes disponíveis em www.gnration.bol.pt
