Uma equipa internacional de investigadores de 13 países, com participação do CIBIO- BIOPOLIS – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Universidade do Porto), concluiu que os chacais-dourados estão a utilizar áreas próximas de assentamentos humanos como “escudo” contra os lobos-cinzentos, o principal predador que limita a sua expansão na Europa. O estudo, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, prevê que esta espécie poderá colonizar até 75% do continente europeu, o que corresponde a quase seis vezes a área atualmente ocupada.
Os investigadores analisaram dados recolhidos entre 2001 e 2017 em 8.991 locais da Europa Central e do Sudeste, com base em levantamentos acústicos de uivos de chacais-dourados. Os resultados mostram que fatores como menor cobertura de neve, cobertura florestal intermédia e proximidade a corpos de água favorecem a presença da espécie.
No entanto, o fator mais determinante é a ausência de lobos.
Quando os lobos estão presentes, os chacais alteram o seu comportamento e aproximam-se de áreas habitadas por humanos, onde os predadores de topo tendem a evitar entrar. Este fenómeno, conhecido como “escudo humano”, reduz a pressão exercida pelos lobos e permite aos chacais persistirem e expandirem-se.
“Este estudo só foi possível graças a um esforço colaborativo de longo prazo envolvendo investigadores de toda a Europa”, destaca Nathan Ranc, investigador do INRAE (França) e primeiro autor do estudo. “Confirmámos que os lobos são a principal restrição natural à expansão do chacal-dourado na Europa. Mas um efeito de proteção humana reduz a
pressão dos lobos e permite que os chacais persistam”.
Com base nos dados recolhidos, os investigadores desenvolveram ainda um modelo preditivo da futura distribuição da espécie. O estudo indica que grandes áreas da Europa Ocidental, incluindo França e a Península Ibérica, apresentam condições altamente favoráveis à expansão dos chacais.
Apesar disso, a recuperação recente das populações de lobos em várias regiões europeias poderá travar parcialmente esta expansão.
“O nosso estudo fornece evidências de que a recuperação de predadores de topo pode atuar como uma solução baseada na natureza para regular a expansão das populações de mesocarnívoros”, explica Miha Krofel, investigador da Universidade de Liubliana e autor sénior do estudo. “No entanto, manter estes efeitos ecológicos exige populações de predadores ecologicamente eficazes e estabilidade social suficiente, o que é particularmente desafiador em paisagens dominadas por humanos”.
O chacal-dourado (Canis aureus) esteve, durante milénios, restrito ao sudeste da Europa.
Nas últimas décadas, porém, a espécie expandiu-se rapidamente por grande parte do continente, chegando já à Península Ibérica e a regiões próximas do Ártico.
