Sofia Branco e Rui Tavares Guedes foram os convidados de mais uma iniciativa do Projeto “AQUI HÁ CULTURA!”, dinamizado pela Escola Profissional Amar Terra Verde (EPATV) e Câmara Municipal de Vila Verde. O encontro aconteceu na Biblioteca Professor Machado Vilela, em Vila Verde, na sexta-feira, 18 de setembro, num debate subordinado ao tema “Jornalismo: ética, deontologia e defesa da democracia”. Manuela Barreto Nunes deu início à sessão, que foi moderada por Arnaldo Varela de Sousa.
Se o jornalismo já teve dias melhores, é discutível. Uma coisa é certa: a forma de chegar às pessoas mudou e não forçosamente para melhor. Foi a partir dessa premissa que se abriu o debate sobre a atualidade do jornalismo, a luta pela democracia dentro da profissão, a ética e o código deontológico pelos quais se regem, ou deviam, os profissionais da área.
A sessão reuniu dois nomes de referência do jornalismo português: Rui Tavares Guedes, atual diretor da revista Visão, e Sofia Branco, jornalista da Agência Lusa e atual presidente da Associação de Literacia Para os Media e Jornalismo (ALPMJ).
O jogo dos números
«O jornalismo é uma indústria de um sistema capitalista – tem um enquadramento empresarial». Foi desta forma que Sofia Branco abriu a conversa, afirmando ainda que falta mediação, num sistema «altamente concentrado, com relações nada transparentes e que desconhecemos».
As condições laborais, as horas de trabalho e a parca remuneração da área afetam a qualidade do jornalismo em Portugal, numa sociedade que consome cada vez mais rápido, com noticiários que se repetem ao longo do dia. «Hoje as televisões não desligam, funcionam 24 horas por dia. Não há silêncio, é demasiado ruído», completou Sofia Branco.
Para Rui Tavares Guedes, o tipo de jornalismo da Visão precisa de ser preservado. Ao contrário do que acontece com outras fontes, a revista tem crescido no número de vendas, deixando claro que «há espaço para melhoria, estamos todos nesta luta pela atenção das pessoas». A batalha pela credibilidade tem ajudado nas vendas, numa época de consumismo desenfreado e onde os números de audiência parecem valer mais. «Achar que estamos bem informados só porque recebemos muita informação é errado», apontou Guedes, dizendo ainda que sempre houve bom e mau jornalismo.
O “admirável” novo consumo
Os smartphones também mudaram a forma como consumimos. Hoje tudo chega com um clique, muitas vezes com informação pouco credível. Ora, é aí que a Visão se destaca no meio de uma selva feroz: «Temos de saber distinguir o que é jornalismo e o que não é. Nós não temos hipótese contra as redes sociais, por isso temos de entregar credibilidade aos nossos leitores. Claro que temos de ter audiência, mas isto não é só um negócio. Tem de ser sustentável, mas não a todo o custo», frisou o jornalista, que terminou dizendo que «a informação tem de ser paga. Não somos comprados se não formos bons. É necessário recuperar a confiança das pessoas e para isso temos de ser rigorosos e entregar informação credível».
Depois da intervenção de ambos, houve ainda tempo para debate com os presentes na sala. Entre opiniões mais saudosistas ao lembrar do “bom e velho jornalismo” e visões mais “modernas” de se praticar a arte de informar, uma coisa parece clara: o jornalismo está vivo e é necessário praticá-lo com afinco e responsabilidade na defesa dos valores democráticos. Foi também isso que defendeu Manuel Lopes, Vereador da Câmara Municipal de Vila Verde, que encerrou mais uma sessão do “AQUI HÁ CULTURA!”.
