Uma equipa internacional de investigadores publicou um novo artigo na revista Nature Human Behaviour alertando que as atuais estruturas académicas dificultam a assunção de riscos científicos. A investigação revela que a pressão por publicações e a instabilidade laboral favorecem resultados previsíveis, sobrecarregando desproporcionalmente os investigadores em início de carreira e limitando o talento necessário ao progresso da ciência.
A ciência moderna depende cada vez mais de avaliações baseadas na produtividade, de uma intensa competição por posições permanentes e de ciclos de financiamento curtos.
Ao mesmo tempo, os grandes avanços científicos exigem liberdade intelectual, tolerância à incerteza e possibilidade de falha. Agravadas por recentes polémicas sobre plágio, fabricação de dados e uso de Inteligência Artificial, estas dinâmicas levantam a questão de saber se o sistema académico atual premeia os pensadores genuinamente originais ou apenas aqueles que melhor se adaptam às suas regras.
Neste artigo de perspetiva, o consórcio global reviu o impacto das estruturas de financiamento, da revisão por pares, das hierarquias académicas e dos custos de publicação, concluindo que o sistema desencoraja sistematicamente a investigação inovadora de alto risco. As principais conclusões e impactos identificados incluem:
Mais de um terço dos estudantes de doutoramento reportou sintomas de depressão em estudos analisados pela equipa.
Cerca de um terço dos investigadores relatou sintomas de ansiedade associados a estas pressões.
O número de graduados com doutoramento e de investigadores de pós-doutoramento tem crescido a um ritmo superior ao da disponibilidade de posições académicas estáveis.
Elevados custos de processamento de artigos (APCs) favorecem investigadores de instituições ricas, enquanto a carga administrativa e o ensino reduzem o tempo disponível para o pensamento exploratório.
Como estratégia racional de sobrevivência na carreira, a procura por financiamento e publicações leva muitos cientistas a abdicarem do desenvolvimento de programas de investigação independentes em prol de trabalhos restritos
controlados por investigadores seniores.
“Se queremos ideias novas e disruptivas na ciência, temos de dar aos investigadores em início de carreira tempo, autonomia e tolerância ao risco porque é nesta fase da carreira que surgem as perguntas mais ousadas para gerar pensamento verdadeiramente original”, afirma Joana Nogueira, investigadora do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-BIOPOLIS) e coautora do estudo.
“A manutenção da criatividade científica exige mais do que resiliência individual”, concluem os autores do estudo. “Exige um sistema académico que dê aos investigadores em início de carreira a autonomia, o tempo e a segurança necessários para perseguirem ideias ambiciosas, incluindo aquelas que podem falhar, sem que se reaja com conformidade estratégica em vez da criatividade científica necessária para responder aos desafios globais”.
