Cinco associações e movimentos de pessoas com doença lançaram hoje um apelo direto à Ministra da Saúde para que o Governo coloque fim ao que classificam como uma situação de “iniquidade inaceitável” no acesso à prevenção do Herpes Zoster, vulgarmente conhecido por Zona.
Numa Carta Aberta enviada à tutela, as organizações recordam que a Comissão Técnica de Vacinação da Direção-Geral da Saúde recomendou, ainda em 2024, a inclusão da vacina contra o Herpes Zoster no Programa Nacional de Vacinação (PNV) para grupos de risco prioritários, após avaliação da evidência científica disponível. Mais de dois anos depois, essa recomendação continua sem tradução numa decisão política. Para as associações subscritoras, o problema já não é de conhecimento científico ou de avaliação técnica.
“Há muito que a evidência existe. Há muito que a recomendação foi feita. Há muito que o Governo reconhece a importância da prevenção e da vacinação no envelhecimento saudável. O que continua a faltar é a decisão”, defendem na missiva.
Os signatários lembram que o Herpes Zoster pode provocar dor intensa e incapacitante durante meses ou mesmo anos, afetando de forma particularmente gravosa pessoas que vivem com doença crónica, imunossupressão ou idade avançada. Para muitos doentes, acrescentam, a doença significa perda de autonomia, isolamento e deterioração significativa da qualidade de vida.
A carta sublinha, ainda, uma contradição que consideram difícil de compreender: em junho de 2025, o Governo identificou a criação de um Programa Nacional de Vacinação do Adulto como prioridade estratégica para promover um envelhecimento ativo e saudável, mas, mais de um ano depois, nem esse programa foi concretizado, nem a vacina contra o Herpes Zoster integrou o PNV.
“A cada mês que passa sem decisão, há portugueses que adoecem, sofrem complicações evitáveis e ficam sem acesso a uma proteção que o próprio Estado reconhece como benéfica”, alertam.
As organizações destacam, ainda, que a vacina está disponível em Portugal há vários anos, mas apenas para quem consegue suportar o respetivo custo, situação que consideram incompatível com os princípios de equidade do Serviço Nacional de Saúde.
“Hoje, a proteção contra a Zona continua a depender da carteira de cada cidadão. Quem pode pagar protege-se. Quem não pode, fica à espera. É precisamente esta desigualdade que queremos ver corrigida”, afirmam.
Além da prevenção da doença e das suas complicações, as associações apontam ainda para evidência científica recente que tem vindo a demonstrar benefícios adicionais da vacinação contra o Herpes Zoster, incluindo potenciais reduções do risco de eventos cardiovasculares e de demência, reforçando o valor clínico e social desta estratégia preventiva.
As entidades subscritoras consideram que, perante uma recomendação técnica favorável, perante o envelhecimento acelerado da população portuguesa e perante o compromisso público assumido pelo próprio Governo com a prevenção, a ausência prolongada de decisão tornou-se difícil de compreender e justificar: “O que pedimos não é uma nova avaliação. Pedimos apenas coerência entre o discurso e a ação, rapidez na implementação da prevenção e respeito pelos milhares de portugueses que continuam à espera de uma decisão anunciada como iminente há demasiado tempo.”
A carta é subscrita pela ANDAR – Associação Nacional dos Doentes com Artrite Reumatóide, APDP – Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, APIR – Associação Portuguesa de Insuficientes Renais, GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos e MOVA – Movimento Doentes Pela Vacinação.
