Investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-BIOPOLIS) descobriram que os cães de guarda e de condução de rebanhos na Península Ibérica partilham uma história genética profundamente interligada. O estudo, publicado ontem na revista científica BMC Biology, revela como as antigas rotas de migração sazonal de pastores deixaram marcas permanentes no genoma destes animais.
A Península Ibérica possui uma grande diversidade de cães tradicionalmente ligados à pastorícia, englobando raças de proteção, como o Cão da Serra da Estrela, e raças de condução de gado, como o Cão da Serra de Aires. Com o progressivo desaparecimento das antigas vias de transumância e as profundas alterações rurais no último século, parte fundamental deste património cultural e biológico encontrava-se em risco de ser esquecida.
Para compreender a evolução destas populações, a equipa de investigação conduziu uma análise genética ao ADN de 445 cães ibéricos, obtendo os seguintes principais resultados:
• Forte ligação geográfica: A análise revelou uma reduzida diferenciação genética entre cães de guarda e cães de condução, o que indica que a origem geográfica da raça teve maior peso na genética do que a função desempenhada pelos animais.
• Impacto da transumância: Foram detetados sinais generalizados de antigos cruzamentos impulsionados pela deslocação de pastores ao longo de centenas de quilómetros, criando uma vasta rede de intercâmbio genético ibérico.
• Declínio populacional recente: O tamanho efetivo da população de cinco das sete raças de guarda analisadas começou a diminuir acentuadamente no último século, coincidindo com o abandono das rotas tradicionais.
• Resiliência genética: Apesar deste declínio, a maioria das raças mantém atualmente uma elevada diversidade genética e baixos níveis de consanguinidade.
“Aquilo que vemos hoje são raças bem definidas, muitas vezes associadas a regiões muito específicas. Mas, quando olhamos para o ADN, encontramos vestígios de uma realidade histórica muito mais dinâmica”, explica Diogo Coutinho-Lima, primeiro autor do estudo e investigador no CIBIO-BIOPOLIS. “Ao acompanhar os rebanhos ao longo de grandes distâncias, os cães podiam reproduzir-se com populações locais em diferentes regiões, promovendo o fluxo génico entre populações geograficamente afastadas”.
Para Raquel Godinho, investigadora principal e autora sénior do estudo, a utilidade desta descoberta vai além do passado biológico. “O genoma dos animais domésticos preserva parte da história de sua relação com as comunidades humanas. A seleção baseada no desempenho, e não apenas na aparência ou em pedigrees, poderá ter ajudado a conservar a diversidade nestas raças”.
