Opinião

Cancro do fígado: uma prioridade de saúde pública que exige prevenção, diagnóstico precoce e cuidados centrados no doente

O cancro primário do fígado é uma das neoplasias com evolução epidemiológica mais desfavorável neste século. Tal como a doença hepática crónica que habitualmente o precede, o cancro do fígado evolui frequentemente sem sintomas durante um longo período. Por isso, o diagnóstico ocorre, numa proporção significativa de casos, em estádios em que as opções terapêuticas com intenção curativa já não são possíveis. O mês de sensibilização para o cancro do fígado é uma oportunidade para recordar que grande parte destes casos é evitável e que o prognóstico depende, em larga medida, da precocidade do diagnóstico.

Principais tumores malignos primários do fígado
O carcinoma hepatocelular é o tumor maligno primário do fígado mais frequente e representa cerca de 80% dos casos a nível mundial. Surge, na maioria das vezes, num fígado com doença crónica, sendo a cirrose o principal fator de risco. O colangiocarcinoma intra-hepático corresponde a cerca de 15% dos casos. Os restantes 5% incluem formas combinadas de carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma intra-hepático, bem como outros tumores mais raros.

Epidemiologia mundial
Segundo as estimativas GLOBOCAN 2024 da Agência Internacional de Investigação em Cancro, o cancro do fígado é o sétimo cancro mais diagnosticado e a terceira causa de morte por cancro a nível mundial, com cerca de 843 mil novos casos e 732 mil óbitos. Entre 2000 e 2023, o número absoluto de novos casos aumentou 59,4% e o de óbitos 55,8%. As taxas padronizadas por idade, em declínio desde o início do século, voltaram a aumentar por volta de 2020. Na ausência de intervenção, projeta-se que o número de novos casos atinja 1,52 milhões em 2050.

O cancro do fígado é duas a três vezes mais frequente nos homens do que nas mulheres, na maioria das regiões do mundo. As etiologias da doença hepática associada ao cancro do fígado estão a mudar. As infeções crónicas pelos vírus das hepatites B e C mantêm-se como as principais causas a nível mundial, embora com um peso relativo decrescente. A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), caracterizada pela acumulação de gordura no fígado e relacionada com a obesidade e a diabetes tipo 2, é a etiologia de cancro do fígado com crescimento mais rápido nas diferentes regiões do mundo. Este aumento acompanha a crescente prevalência destas condições, associada a estilos de vida atuais, como o sedentarismo e uma alimentação desequilibrada. Na Europa, a doença hepática associada ao álcool tem um papel predominante.

Epidemiologia em Portugal
De acordo com as estimativas GLOBOCAN 2024 da Agência Internacional de Investigação em Cancro, em 2024 o cancro do fígado foi, em Portugal, o décimo cancro mais frequente e a sétima causa de morte por cancro.

Segundo o Relatório 2026 do Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística, a taxa de mortalidade por neoplasias malignas do fígado e das vias biliares intra-hepáticas aumentou de 11,91 para 13,22 óbitos por 100 000 habitantes entre 2017 e 2024. Em 2024, registaram-se 627 óbitos por carcinoma hepatocelular e 605 por colangiocarcinoma intra-hepático. O mesmo relatório indica que o consumo de álcool permanece a primeira causa de cirrose hepática em Portugal: em 2024, a doença hepática associada ao álcool foi responsável por 505 óbitos, mais de 55% da mortalidade por doenças crónicas do fígado e cirrose.

Fatores de risco modificáveis e prevenção
Estima-se que pelo menos 60% dos casos de carcinoma hepatocelular, o tipo mais frequente de cancro do fígado, sejam evitáveis através do controlo de fatores de risco modificáveis. A promoção de hábitos de vida saudáveis é, por isso, um eixo central da prevenção: abstinência ou redução significativa do consumo de álcool, cessação tabágica, controlo do peso, alimentação equilibrada com menor consumo de alimentos ultraprocessados e atividade física regular. A vacinação contra a hepatite B, o rastreio das infeções pelos vírus das hepatites B e C e o tratamento antiviral, curativo na hepatite C, permanecem instrumentos fundamentais.

A prevenção exige ainda combater o estigma associado à doença hepática. A ideia de que a doença é causada pelo próprio doente leva muitas pessoas a adiar a procura de ajuda médica. A responsabilidade não pode recair apenas sobre o indivíduo: políticas públicas sobre o preço, a publicidade e a rotulagem do álcool e dos alimentos ultraprocessados são intervenções com eficácia demonstrada.

Acesso atempado a um diagnóstico precoce e preciso
O diagnóstico em estádio precoce é o principal determinante do acesso a terapêuticas com intenção curativa, como a ablação tumoral, a resseção cirúrgica ou o transplante hepático. Nos doentes com cirrose e em grupos selecionados com hepatite B crónica, recomenda-se vigilância por ecografia abdominal semestral. Contudo, a nível mundial, apenas cerca de metade dos doentes em risco realiza algum tipo de vigilância, e menos de 10% a cumpre com a periodicidade semestral recomendada. A identificação ativa dos doentes com doença hepática crónica nos cuidados de saúde primários, em particular nos indivíduos com diabetes, obesidade ou consumo regular de álcool, e o acesso equitativo à vigilância em todo o território devem ser prioridades.

Cuidados personalizados
Não existe uma abordagem terapêutica única aplicável a todos os doentes. A etiologia da doença hepática, a função hepática, o estádio tumoral, as comorbilidades e as preferências do doente devem orientar a decisão terapêutica. A articulação entre diferentes especialidades permite selecionar a estratégia mais adequada a cada doente, entre as opções terapêuticas disponíveis: cirúrgicas, locorregionais e sistémicas. A discussão multidisciplinar, sempre que possível, constitui uma mais-valia reconhecida neste processo.

O doente no centro das estratégias
As estratégias de controlo do cancro do fígado devem colocar o doente no centro: informação clara, decisão partilhada, atenção à qualidade de vida, apoio aos cuidadores e equidade no acesso aos cuidados, independentemente da região de residência. A promoção da literacia em saúde, com o envolvimento das sociedades científicas e das associações de doentes, é uma componente essencial desta abordagem.

O conhecimento e os instrumentos para inverter esta tendência estão ao nosso alcance. Prevenir, diagnosticar precocemente e tratar de forma personalizada são os passos que, em conjunto, permitirão reduzir o impacto do cancro do fígado em Portugal.

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