Amares

Homem em Catarse: a música, a proximidade e a palavra em Amares

O Auditório Conde Ferreira recebeu Homem em Catarse, numa iniciativa promovida pela Caixa Negra. O músico barcelense protagonizou um concerto marcado pela intensidade interpretativa e pela proximidade com o público.

Entre os pontos altos da noite destacaram-se «Hipoteca», «Gueto da Paz» ou «O Tempo Vem Atrás de Nós», temas do mais recente trabalho do artista – Catarse Natural, que evidenciaram a força expressiva de uma proposta musical onde a palavra, a composição e a interpretação assumem particular relevância.

Houve ainda espaço para «Mergulho no Cávado», do disco Guarda-Rios, numa evocação de um território que não é estranho ao público amarense. O Cávado, um dos rios que banham o concelho de Amares, encontrou assim expressão musical num concerto em que a geografia, a memória e a experiência individual se cruzaram.

A noite conheceu alguns dos seus momentos mais singulares na relação direta com o público – na presença do Vice-Presidente da Câmara Municipal de Amares, João Januário; o Presidente da União de Freguesias de Amares e Figueiredo, Rúben Silva; e, do mesmo Executivo, Iolanda Silva. O primeiro momento aconteceu com uma interpretação de «Canção de Engate», de António Variações. Munido de um ukulele, Homem em Catarse abandonou o palco e aproximou-se dos espectadores, interpretando o tema sem qualquer amplificação, desligado do sistema de som. A distância entre músico e público desapareceu, dando lugar a uma experiência intimista, construída exclusivamente a partir da voz, do instrumento e da presença de quem escutava.

O segundo momento chegou no encerramento do concerto, com uma versão de «Os Vampiros», de José Afonso. Novamente junto do público, apenas com o ukulele e sem recurso à amplificação, o músico recuperou uma das mais contundentes canções de intervenção portuguesas. O verso «Eles comem tudo e não deixam nada» adquiriu uma atualidade que dispensa grandes explicações. Homem em Catarse deixou, também, um apelo claro: “não podemos permitir que o país se transforme em propriedade de meia dúzia de pessoas”.

O concerto terminou, assim, num registo simultaneamente íntimo e político. A aparente simplicidade não diminuiu a força da interpretação; pelo contrário, acentuou a dimensão coletiva da música, recordando que uma canção pode continuar a ser um espaço emancipatório, de consciência crítica e de resistência.

Com esta iniciativa, a Caixa Negra, apoiada pelo Município de Amares e pela União de Freguesias de Amares e Figueiredo, deu continuidade ao seu trabalho de dinamização cultural, afirmando o Auditório Conde Ferreira como espaço de encontro entre artistas e público, onde a criação contemporânea, a memória musical e a reflexão crítica sobre o presente podem coexistir.

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