Curiosidades

Primeiro laboratório de ADN antigo em Portugal abre portas no BIOPOLIS

O BIOPOLIS inaugura, a 3 de novembro, o seu novo Laboratório de ADN Antigo e Ambiental, que acolhe a primeira infraestrutura em Portugal dedicada ao estudo do ADN antigo. Instalado na Quinta de Crasto, uma propriedade agrícola histórica recentemente reabilitada para acolher a sede do BIOPOLIS, o laboratório representa um investimento superior a 1,5 milhões de euros e é composto por três espaços laboratoriais de última geração, com uma área total de cerca de 250 m². Desenvolvidas em colaboração com a Universidade de Oxford, as novas instalações permitirão aos investigadores recuperar e analisar ADN antigo preservado em vestígios arqueológicos, possibilitando o estudo das populações humanas e de outras espécies ao longo de milhares de anos, com especial foco na Península Ibérica.

Nas últimas décadas, o ADN antigo transformou a nossa compreensão do passado, permitindo reconstruir a história das populações humanas, a domesticação de plantas e animais e a evolução das espécies em resposta à atividade humana e às alterações ambientais. O impacto científico desta área foi reconhecido em 2022, com a atribuição do Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina a Svante Pääbo. Contudo, recuperar ADN antigo é um desafio: na maioria dos casos, é obtido a partir de ossos, dentes e outros vestígios arqueológicos com centenas ou milhares de anos, onde está presente em quantidades ínfimas e muito degradado, sendo altamente vulnerável à contaminação. No novo laboratório, investigadores equipados com fatos de proteção integral vão minimizar esse risco através de protocolos rigorosos, realizados em câmaras especializadas dentro de salas limpas, onde o ar é filtrado e mantido sob pressão positiva para impedir a entrada de ADN proveniente do exterior.

Com estas novas instalações, o CIBIO-BIOPOLIS – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto – passa a dispor de condições próprias para o estudo de ADN antigo, trabalho que até agora dependia de infraestruturas no estrangeiro. Para além desta nova área, o laboratório vai ainda reforçar
a capacidade de três outras linhas-chave de investigação do centro que também trabalham com quantidades mínimas de ADN e exigem um controlo rigoroso da contaminação:

● ADN Ambiental: Monitorização de ecossistemas e deteção de espécies a partir de vestígios genéticos presentes em amostras de solo, água e ar.
● Museómica: Recuperação e análise do ADN de espécimes preservados em coleções de museus, que funcionam como cápsulas do tempo e permitem estudar as mudanças na biodiversidade ao longo dos últimos séculos.
● Ciência forense aplicada à vida selvagem: Análise genética de produtos de fauna e flora selvagens, incluindo materiais apreendidos, para identificar espécies e determinar a sua proveniência. Este trabalho contribuirá para o combate à caça furtiva e ao comércio ilegal de espécies selvagens, tirando partido das parcerias de conservação que o BIOPOLIS mantém em todo o mundo, sobretudo em África.

Joel Alves, Diretor Científico do Laboratório de ADN Antigo e Ambiental do BIOPOLIS e investigador na Escola de Arqueologia da Universidade de Oxford, afirma: “Trazer este laboratório para Portugal é um marco para a capacidade científica nacional. Queremos que seja um recurso partilhado não só pelos nossos investigadores, mas também por
cientistas de todo o país, permitindo-lhes realizar este tipo de investigação sem sair de Portugal. O nosso objetivo é que seja mais do que uma infraestrutura e se torne um epicentro da investigação movida pela curiosidade, capaz de atrair cientistas de todo o mundo e de juntar biólogos e arqueólogos na missão de ligar o passado ao presente”.

O laboratório assenta numa colaboração de longa data entre o BIOPOLIS e a Escola de Arqueologia da Universidade de Oxford. Com a nova infraestrutura em funcionamento, os parceiros vão alargar a investigação conjunta. Um financiamento do John Fell Fund da Universidade de Oxford vai apoiar uma rede internacional de investigação que liga a ciência arqueológica de Oxford à experiência do BIOPOLIS em biodiversidade e conservação, bem como às suas parcerias em África. Através de intercâmbios de investigadores, workshops e formação especializada, a rede vai desenvolver dois projetos-piloto: um que recorre à análise genética de marfim de elefante para determinar a
sua proveniência e informar novas estratégias de conservação contra a caça furtiva; e outro que utiliza ADN antigo e ambiental para investigar de que forma a pesca excessiva, a introdução de espécies exóticas e as alterações ambientais moldaram a biodiversidade do Lago Vitória, no Uganda.

O professor Damian Robinson, Diretor da Escola de Arqueologia da Universidade de Oxford, que estará presente na inauguração, afirma: “A nossa colaboração junta duas instituições de investigação de referência mundial para explorar questões importantes sobre o nosso passado remoto e sobre a forma como podemos trabalhar com coleções de
museus, contribuindo também para responder a algumas das questões ambientais mais prementes da atualidade. Com a abertura dos novos laboratórios do BIOPOLIS, será muito entusiasmante ver os avanços no conhecimento científico que alcançaremos à medida que continuarmos a trabalhar em conjunto”.

No mesmo dia da inauguração, decorrerá a cerimónia de entrega do Prémio Gulbenkian Património – Maria Tereza e Vasco Vilalva 2026. O prémio, no valor de 50 mil euros, distingue a reabilitação da Quinta de Crasto, com projeto do atelier Nuno Valentim Arquitectura, que transformou uma casa senhorial histórica e os respetivos edifícios
agrícolas na sede do BIOPOLIS, integrando instalações científicas avançadas e preservando, ao mesmo tempo, o património arquitetónico e paisagístico do local.

Nuno Ferrand, diretor do BIOPOLIS, salienta: “Este laboratório traduz a missão para a qual o BIOPOLIS foi criado: trazer infraestruturas de investigação de ponta, excelência científica e colaboração internacional para um lugar profundamente ligado ao território que o rodeia. É motivo de grande orgulho que a sua inauguração coincida com a entrega do Prémio Gulbenkian Património pela reabilitação da Quinta de Crasto, onde edifícios históricos recuperados acolhem agora ciência de vanguarda”.

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