As pessoas com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) apresentam maior vulnerabilidade à depressão, uma condição que pode permanecer por identificar durante anos devido à sobreposição de sintomas e às particularidades do funcionamento emocional e comportamental. Um estudo realizado pela Queen’s University, no Canadá, aponta que as pessoas autistas têm uma probabilidade aproximadamente quatro vezes superior de apresentar depressão, comparativamente à população em geral.
De acordo com a neuropsicóloga e pós-doutorada em Pediatria e Saúde da Criança, Prof.ª Dr.ª Luciana Schermann Azambuja, esta vulnerabilidade resulta da combinação de diferentes factores, especialmente quando as necessidades emocionais, sensoriais e sociais da pessoa autista não são reconhecidas ou devidamente acompanhadas.
“A maior vulnerabilidade à depressão está relacionada com uma combinação de factores. A sensibilidade aumentada, as dificuldades de interacção social, as experiências de rejeição e isolamento e, sobretudo, o esforço contínuo para se adaptar a ambientes que nem sempre estão preparados para as características da pessoa autista podem gerar uma sobrecarga emocional significativa”, explica.
O esforço de adaptação que nem sempre é reconhecido
Situações sociais consideradas simples para a maioria das pessoas podem exigir um esforço cognitivo significativo para determinados indivíduos autistas. Interpretar expressões faciais, compreender intenções, acompanhar conversas ou ajustar comportamentos às expectativas sociais são processos que, em alguns casos, exigem atenção e controlo conscientes.
Este esforço de adaptação, frequentemente associado à camuflagem social, pode tornar-se uma fonte de desgaste psicológico quando ocorre de forma persistente, sobretudo em ambientes que exigem a supressão de características naturais do indivíduo.
“É necessário compreender que aquilo que parece apenas uma dificuldade de comportamento pode representar um esforço cognitivo muito elevado. A pessoa pode estar constantemente a tentar interpretar situações sociais, controlar reacções e ajustar-se às expectativas externas. Quando este processo se prolonga, existe um custo emocional que não pode ser ignorado”, afirma a especialista.
Quando a depressão se confunde com características do autismo
Uma das principais dificuldades na identificação da depressão em pessoas autistas está relacionada com a possibilidade de determinados sintomas serem interpretados como manifestações habituais da própria condição.
Alterações na comunicação, diminuição da interacção social, mudanças nas rotinas ou perda de interesse por actividades podem ocorrer em diferentes circunstâncias. O problema surge quando sinais de sofrimento psicológico são automaticamente atribuídos ao autismo, sem uma avaliação do estado emocional da pessoa.
A perda de interesse por actividades anteriormente apreciadas, o aumento do isolamento, as alterações persistentes do sono ou do apetite, a redução de energia e as mudanças significativas no comportamento podem indicar a presença de sintomas depressivos.
“É essencial conhecer a pessoa antes de avaliar uma possível depressão. Mais importante do que identificar um comportamento isolado é perceber as alterações relativamente ao seu funcionamento habitual. Uma redução significativa dos interesses, alterações emocionais persistentes ou mudanças importantes na rotina podem constituir sinais de sofrimento que necessitam de investigação”, esclarece a Prof.ª Dr.ª Luciana Schermann Azambuja.
A saúde mental deve integrar o acompanhamento das pessoas autistas
O diagnóstico de autismo não exclui a possibilidade de outras condições psicológicas ou psiquiátricas. A depressão pode coexistir com a PEA e manifestar-se de formas distintas, dependendo das características individuais, da idade, da capacidade de comunicação e das condições ambientais.
O acompanhamento deve considerar não apenas as características do neurodesenvolvimento, mas também o bem-estar emocional, a qualidade das relações sociais, as exigências quotidianas e os factores que podem contribuir para o sofrimento psicológico.
Para a neuropsicóloga, reconhecer estas diferenças permite evitar que manifestações de depressão sejam normalizadas como parte inevitável do autismo.
“A pessoa autista não deve ser definida apenas pelo diagnóstico. Tem uma história, uma personalidade, necessidades específicas e diferentes formas de perceber o mundo. Quando existe uma alteração no seu comportamento ou estado emocional, é necessário olhar para essa mudança com atenção. A identificação precoce pode fazer uma diferença significativa na qualidade de vida”, conclui.
