Opinião

Viver com asma grave em Portugal: o impacto invisível que exige resposta

A asma grave continua a ser uma realidade pouco compreendida em Portugal, apesar do impacto profundo que tem na vida de quem com ela vive. Muitas vezes confundida com uma forma mais intensa de asma, trata-se, na verdade, de uma condição distinta, de difícil controlo, que exige acompanhamento especializado e respostas estruturadas.

Para quem vive com esta doença, o dia a dia implica um nível constante de adaptação. O cansaço, a imprevisibilidade das exacerbações e a necessidade de evitar fatores desencadeantes condicionam rotinas pessoais, familiares e profissionais.

Situações aparentemente simples – como mudanças de temperatura, ambientes fechados ou odores intensos – podem traduzir-se em episódios de falta de ar ou agravamento dos sintomas.

Este impacto raramente é visível para quem está de fora, o que contribui para um subdiagnóstico e para a perceção errada de que se trata apenas de uma asma “mal controlada”. Na prática, muitos doentes passam anos sem acesso a uma abordagem adequada, o que compromete a sua qualidade de vida e aumenta a pressão sobre o sistema de saúde.

Foi precisamente da necessidade de dar resposta a esta realidade que nasceu a Associação de Asma Grave, formalmente constituída em janeiro de 2025. Criada por pessoas que vivem com a doença, a associação surge com o objetivo de dar voz a uma comunidade muitas vezes invisível e de contribuir para uma melhor compreensão da patologia.

Num contexto em que as doenças crónicas exigem cada vez mais uma abordagem integrada, o papel das associações de doentes torna-se essencial. Para além do apoio entre pares, estas estruturas são fundamentais na promoção da literacia em saúde, na sensibilização da sociedade e no diálogo com decisores, profissionais de saúde e instituições.

No caso da asma grave, há ainda um longo caminho a percorrer. Melhorar o reconhecimento da doença, promover o diagnóstico atempado e garantir acesso a tratamentos adequados, nomeadamente o conhecimento sobre o papel e impacto de terapêuticas inovadoras como são exemplo as terapêuticas biológicas, são passos essenciais para reduzir o impacto individual e coletivo desta condição.

Ao mesmo tempo, é necessário valorizar o contributo de quem, mesmo enfrentando limitações diárias, se envolve ativamente na construção de soluções. O trabalho associativo nesta área é feito, em grande parte, por pessoas que vivem com a doença, que conciliam sintomas, consultas e tratamentos com o compromisso de melhorar a vida de outros.

Mais do que uma resposta individual, a asma grave deve ser encarada como uma questão de saúde pública. Tornar visível o seu impacto é o primeiro passo para garantir que ninguém fica para trás no acesso ao diagnóstico, ao tratamento e a uma vida com melhor qualidade.

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