São um dos duos mais irreverentes da música eletrónica e as mentes criativas por detrás de uma das discografias mais estranhas (no melhor sentido da palavra) e cativantes da chamada música left-field – a vertente mais avant-
garde da eletrónica. Com mais de três décadas de carreira, Matmos estreou-se, com grandes elogios, com o homónimo Matmos, de 1997. A revista The Wire classificou este registo como uma “entrada direta na Valhalla da música eletrónica” e o destaque estava nas samples invulgares, que vão desde atividades do quotidiano humano ao tecido nervoso de lagostas, que o duo usou para orquestrar todo o disco.
Lançado no ano passado pela norte-americana Thrill Jockey, Metallic Life Review (2025) é o trabalho mais recente do duo. Serve também de mote para o regresso a Portugal e ao gnration, por onde Matmos passou em 2015. Este novo álbum surge como o sucessor de Plastic Anniversary (2019), disco criado a partir de sons de objetos plásticos, desde implantes mamários de silicone a um escudo antimotim em PVC. Metallic Life Review tem a mesma base, a de fazer um disco só com objetos de um determinado material, desta vez um ensaio sobre o metal.
MC Schmidt e Drew Daniel transformam latas de alumínio, tigelas, gongos, tesouras, uma churrasqueira, um canhão e até o portão de um cemitério em experiências sonoras enigmáticas e dançáveis.
Grande parte dos objetos samplados são também objetos pessoais dos músicos, coisas que os acompanham desde a infância ou que foram recolhendo ao longo dos anos. Aparecem neste álbum como recordações do muito que viveram.
Como Matmos, viveram muito. Criaram uma coleção discográfica memorável, com discos conceptuais e samples das coisas mais bizarras que possamos imaginar. Em A Chance to Cut Is a Chance to Cure (2001) recorrem a gravações de operações e procedimentos médicos. Quasi-Objects (1998) usa sons captados na casa dos músicos, enquanto Ultimate Care II (2016) é composto só por barulhos da sua máquina de lavar, uma Whirlpool que empresta o nome ao disco. Em 2020, recrutaram 99 músicos para editar o LP triplo, The Consuming Flame: Open Exercises in Group Form. Em The Civil War (2003), exploram as semelhanças entre a folk norte-americana e a música medieval europeia, ao passo que em Supreme Balloon (2008), fogem aos samples para abraçar o lado cósmico dos sintetizadores.
Mais recentemente, foram convidados a criar uma peça comemorativa para os 75 anos da editora Smithsonian Folkways. O resultado é Return to the Archive (2023), um álbum cosido a partir de gravações não musicais, presentes no arquivo da editora – e que acabou por ser lançado pela própria Smithsoninan Folkways.
