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Reclusos trabalham em liberdade na construção do Presépio de Priscos em Braga

Reclusos do Estabelecimento Prisional de Braga trabalham, desde 2015, em liberdade na construção do Presépio ao Vivo de Priscos, no âmbito de um projeto pioneiro que pretende “devolver futuro” a quem cumpre pena.

Diariamente, de janeiro a dezembro, há reclusos que passam a porta da cadeia de Braga, apanham o autocarro e vão para Priscos, ajudando a erguer aquele que é apresentado como “o maior presépio ao vivo da Europa”.

Trabalham em regime aberto e ganham 3,10 euros por hora, 24,79 euros por dia.

Têm ainda direito a refeição, confecionada por uma particular.

Todos os custos são assumidos pela Fábrica da Igreja da Paróquia de Priscos.

O número de reclusos é variável, sendo que, neste momento, são dois os que ajudam a construir o presépio.

Até hoje, já passaram pelo projeto mais de 80 homens e nunca houve qualquer incidente.

“Ao longo de 11 anos nunca houve um único incidente. O número fala por si e responde, com factos, ao medo que muitas vezes rodeia a ideia de dar trabalho a quem cumpre pena. Mostra também que a confiança, quando vem acompanhada de orientação e oportunidade, é capaz de quebrar o ciclo do crime e da exclusão”, refere João Torres, pároco de Priscos e capelão do Estabelecimento Prisional de Braga.

À Lusa, a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) explica que os reclusos que trabalham no Presépio de Priscos se encontram em Regime Aberto para o Exterior, que é homologado pelo juiz do Tribunal de Execução de Penas.

“A participação dos reclusos em atividades formativas e laborais, mormente quando têm lugar em contexto social, como é o caso referente ao Presépio de Priscos, é importante para a futura reintegração social das pessoas que cumpriram pena privativa de liberdade”, sublinha a DGRSP.

A convicção é partilhada por João Torres, que diz que este projeto “prova que confiança e trabalho reduzem a reincidência”.

“O resultado deste projeto é difícil de contestar: as pessoas que cumprem pena e recebem confiança, trabalho e acompanhamento respondem com responsabilidade. O Presépio ao Vivo existe há 20 anos e há 11 abriu a sua construção a quem cumpre pena, num modelo que alia a fé, a cultura e a solidariedade a uma missão de justiça restaurativa e de humanização do sistema prisional”, refere.

O projeto nasceu de um acordo entre a DGRSP e a Paróquia de São Tiago de Priscos.

O Município de Braga assegura o transporte dos reclusos, através dos Transportes Urbanos de Braga.

Os reclusos desempenham funções nas áreas da carpintaria, jardinagem, serralharia, manutenção e construção, contribuindo para a preparação e conservação do Presépio ao Vivo de Priscos.

“Cada um aprende um ofício e, com ele, hábitos que valem em qualquer emprego: a pontualidade, a disciplina, o cuidado com as ferramentas, o respeito pelos colegas e o sentido de responsabilidade. Ganham ainda algo que a prisão dificilmente dá: uma relação real com a comunidade que os acolhe, feita de conversas, de olhares e de confiança construída dia após dia”, aponta João Torres.

O pároco lembra que “uma pessoa que cumpre pena e que no dia da liberdade tem pouco, além de uma folha de registo criminal enfrenta um caminho muito difícil”.

“Em Priscos, o caminho começa antes: o recluso chega com um horário, uma tarefa, um chefe de equipa e a responsabilidade de pertencer a um grupo que depende do trabalho de todos”, acrescenta.

Mas o trabalho é só uma parte do percurso, já que os reclusos recebem também formação humanista, ministrada pelo antigo jornalista Mário Robalo, que os ajuda a olharem para a sua própria história, a pensarem no que fizeram, quem são e quem querem ser quando saírem da cadeia, ressalva.

“Aprender um ofício dá-lhes com que ganhar a vida, esta formação dá-lhes razões para a refazerem”, atira João Torres.

Este ano, o Presépio ao Vivo de Priscos abre a 13 de dezembro, contando com cerca de 600 figurantes em 90 cenários diferentes.

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