Gorete Pimentel é a primeira candidata de sempre do Bloco de Esquerda em Vila Verde. “Coragem” é uma das palavras que mais usa, seja para se referir à sua candidatura seja para incentivar os vilaverdenses a “acabarem com o círculo criado sempre à volta dos mesmos”. Transportes públicos, agricultura e trânsito são três pilares das linhas do seu manifesto eleitoral. Enfermeira-obstetra no Hospital de Braga, a viver há mais de 30 anos em Prado, Gorete Pimentel não está preocupada com o resultado que possa obter: “estamos a criar sementes para o futuro”.
Quais são as motivações que levam a Gorete a candidatar-se à Câmara?
Eu sempre vivi e estudei em Vila Verde e a Câmara de Vila Verde sempre foi do CDS e do PSD, sempre foi do mesmo círculo de amigos, do mesmo círculo político, do mesmo círculo familiar e Vila Verde está sempre igual. O que eu sinto, neste momento, é que parece que existem polos onde estão os donos disto tudo e as pessoas seguem isso. Acho que isto tem de acabar, tem de haver muita maior democracia, apesar de não gostar muito desse termo, um maior envolvimento da comunidade.
Como é que isso se combate?
Em primeiro lugar é preciso coragem que é o meu slogan, ‘Coragem, Vila Verde’, fazer com que a Câmara mude de figuras, de amigos e de familiares na sua gestão máxima, isto é, na Câmara e na Assembleia. Depois é necessário o envolvimento da comunidade e deixar de haver, uma coisa que acho que existe muito em Vila Verde, a sensação de ‘não posso falar porque se contrariar alguém, se fizer parte de uma lista, ou dizer o que penso, vou perder o meu emprego, ou a minha mãe ou o meu irmão’. Nós sabemos que os maiores empregadores são a Câmara e a Misericórdia e não se pode contrariar muito as pessoas que estão na gestão nem manifestar opiniões porque senão vou ter retaliação a nível familiar e pessoal. Eu tenho um exemplo: tenho uma pessoa minha conhecida que faz parte de uma Associação de Pais de uma escola que eu convidei para pertencer à minha lista. Não aceitou porque anda a negociar um coberto para a escola e tinha medo que se pertencesse à minha lista não lhe ser dado o coberto. Eu acho que isto demonstra como se vive a nível social e político em Vila Verde e isto tem de acabar. Eu conheço Vila Verde há 34 anos e está exatamente igual, nunca vi Vila Verde diferente.
Mas isso não pode ser bom?
Não. Eu não vejo Vila Verde a melhorar, a reter pessoas, a crescer demograficamente, a ter cultura, a desenvolver a sua parte económica, a estimular a agricultura dos pequenos agricultores, a tirar o trânsito dentro da vila. Existem acessos periféricos que podem ser reabilitados para chegar a determinados sítios para tirar este trânsito. Existe um projeto para uma variante e continua tudo igual.
As autarquias não estão muito dependentes do poder central?
As autarquias só fazem se tiverem verbas disponibilizadas pela Câmara e se estimularem esse trabalho. Se a Câmara não disponibiliza verbas ou concorre a projetos comunitários, as coisas não se desenvolvem.
O próprio Governo tem mais câmaras, outras preocupações…
Está bem, mas nós temos que saber reivindicar e estar sempre a reivindicar. Se calhar, temos que por na mesa a regionalização, de que já se fala há tantos anos e nunca mais anda para a frente porque se calhar não interessa. Eu sou favorável à regionalização, bem entendido.
Que raio x faz de Vila Verde?
Primeiro que tudo é preciso retirar o trânsito do centro e melhorar as vias de acesso porque se queremos reabilitar a economia temos que melhorar a mobilidade. Para ter mais pessoas em Vila Verde precisamos de uma melhor economia, senão não ficam retidas. Nesta altura, somos um bocado o dormitório de Braga. Gostava imenso de melhorar a rede de transportes públicos fazendo uma parceria com a Câmara de Braga para que a TUB viesse ao centro de Vila Verde, conciliando com uma rede de transportes públicos periféricos que trouxessem as pessoas aqui e ligando ao centro de Braga, para não haver o transtorno de sair na central de camionagem e ter que apanhar outro transporte. Esta rede não está bem estruturada, não está conectada com outros e por isso deveria ser reformulada. É muito importante reabilitar a agricultura dos pequenos produtos, a agricultura familiar, promovendo a venda ou a troca dos produtos através de locais gratuitos.
Esta é primeira candidatura do Bloco em Vila Verde. Porque só agora?
Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Porque acho que nunca ninguém se quis candidatar pelo Bloco e nós agora estamos a tentar trazer uma visão fora do que é habitual no concelho. Não sei responder muito bem. As pessoas tinham medo? Não se sentiam muito à vontade? Este ano, houve dois ‘loucos’ que quiserem fazer listas em Vila Verde porque estamos dececionados e ansiamos por mudanças. Os meus dois filhos mais velhos já são adultos e eu gostava que tivessem interesse por Vila Verde e eles não têm interesse nenhum. E isto dever-nos-ia fazer pensar um bocado o que estamos a dar aos jovens do concelho e o que podemos fazer para que queiram ficar cá e não queiram sair. Isto passa pela cultura, pela oferta noturna, temos restaurantes, mas é pouco…

Quem são as pessoas que estão nas listas do Bloco?
São pessoas, na sua generalidade, de Vila Verde. Existe uma ou outra de Braga, a maioria são independentes, sem filiação no Bloco e são pessoas que acreditam em mim e no Ricardo.
Nas freguesias o Bloco não vai ter listas?
Não vamos. Só estamos a concorrer à Câmara e à Assembleia.
Como está pensada a campanha?
Estamos a pensar ir às freguesias. Eu gosto muito de estar e falar com as pessoas e acho importante ir, vamos ver como vamos ser aceites, as pessoas têm que nos conhecer para fazerem o seu juízo de valor.
Mas será uma campanha mais limitada ainda pela Covid…
Eu gostava de fazer comícios, apesar de achar que as pessoas vão ter dificuldades em mobilizar-se para irem aos comícios. Agora comícios mais pequenos, nas freguesias, acho que será possível. Ainda não temos pensada a programação, mas iremos aproveitar os 12 dias para fazer campanha constantemente.
Quais são as expetativas?
Eu acho que vou ter um bom resultado.
Porquê?
Tenho a sensação que a população de Vila Verde quer mudança, só precisa de um empurrãozinho, de ter coragem e não ter medo. Saber que podem mudar e ser bem-sucedidos com essa mudança.
Será uma candidatura para lançar sementes para o futuro?
Com certeza que vamos ter o melhor resultado de sempre em Vila Verde (risos). Mas sim, é importante que nos conheçam, quem são as pessoas do Bloco de Esquerda, o que fazem, qual foi o seu percurso até agora, se podem ser alternativa ou não. Portanto, podemos lançar sementes e fazer crescer a política mais à esquerda em Vila Verde.
Se for eleita como vereadora, que primeira marca gostava de deixar ficar?
Acima de tudo que as pessoas perdessem o medo, vivessem livres, com à vontade para falar, de expressarem aquilo que sentem, sem medo. Esta era a primeira marca porque acho que é isto que não existe em Vila Verde e depois gostava de deixar marcas em projetos ligados aos transportes, adequados às necessidades específicas de cada freguesia.
Quem é a Gorete Pimentel?
Eu nasci em Angola, vim de lá em 1975 com os meus pais que são de Prado, estudei em Prado e em Vila Verde, comecei a trabalhar com 12 anos numa fábrica, trabalhei na feira, depois voltei a uma fábrica de confeções. Para além de ser enfermeira, sou costureira, foi a minha primeira profissão. Quando andava na faculdade tinha as minhas clientes e costurava para elas para ganhar dinheiro.
Deixei a escola por impossibilidade económica dos meus pais de nos manter a estudar. Mais tarde, fiz o complementar noturno em Vila Verde e tive que esperar que a minha irmã mais nova fizesse 14 anos para podermos vir juntas. Sempre fui trabalhadora estudante até entrar para a universidade. Deixei a fábrica, mas costurava por conta própria. Entrei em enfermagem, porque quis, na escola Calouste Gulbenkian em Braga, comecei a trabalhar no hospital de Ponte Lima, estava grávida, tinha-me casado antes de terminar o curso. No hospital não me admitiram porque estava grávida, os meus colegas ficaram todos lá, mas as grávidas não têm lugar. Entrei, depois, por concurso, para CAP para o Hospital de Braga, entrei na função pública e trabalho lá desde 1998.
Tem uma especialidade em obstetrícia?
Sim, fiz a especialidade em saúde materna e obstetrícia, sou enfermeira obstétrica desde 2009 e trabalho nessa área. Tenho três filhos, estou divorciada porque fui vítima de violência doméstica emocional, portanto, sou uma das mulheres que viveu esse problema e posso falar sobre isso, apesar de não gostar desse tema nem do feminismo. As mulheres por muito que se fale em falta de direitos e de serem preteridas em detrimento dos homens, não é bem isso que se passa porque as leis são iguais, não distinguem sexos, é preciso é que as mulheres se afirmem. Eu sei que é difícil, sobretudo numa sociedade que é muito fechada e religiosa, com ideais de família e de conduta que vêm muito lá de trás.
Tenho dois filhos adultos, um anda na Universidade e outro já está a trabalhar, e tenho um miúdo de 10 anos, todos do mesmo casamento.
Quando houve o despertar para as questões políticas?
Sempre tive. Sempre foi reivindicativa, trabalhadora, sempre reivindiquei pelos direitos dos trabalhadores, admirava as trabalhadoras de uma fábrica em Oleiros quando faziam greve. Filiei-me no Bloco há cinco anos e nas lutas sindicais estou desde 2016. Em 2017 consolidou-se com o Movimento dos Enfermeiros de Saúde Materno-Obstetrícia, que surgiu quando deixamos de trabalhar como especialistas enquanto não tivéssemos a categoria.
Quando temos filhos pequenos não temos muita disponibilidade para outras coisas, eles crescem e começamos a achar que podemos fazer outras coisas na vida, principalmente, para quem interesse social, dos direitos trabalhadores, dos cidadãos e quem se incomoda com isso, há uma altura na vida, em que se dá um passo seguinte.
Como surgiu o convite para liderar a candidatura do Bloco de Esquerda?
Surgiu naturalmente. Os deputados José Maria Cardoso e Alexandra Vieira quiserem que o Ricardo e tu tivéssemos mais intervenção política e falaram connosco. Eu sou ativista social há muitos anos e tendo este interesse pela vertente política parece-me natural. Eu tenho trabalho feito aqui em Vila Verde, a nível sindical, no Hospital da Misericórdia onde temos ganho algumas lutas. Tinha dúvidas se conseguiríamos constituir a lista mas à medida que fomos abordando as pessoas fomos muito bem aceites, foram muito recetivas.
Demorou a aceitar o convite?
Disse umas dez vezes que não ia fazer lista nenhuma. Desde o início ficou definido quem seria o candidato à Câmara e à Assembleia. Foi tudo muito natural porque é assim a minha postura na vida.
Esses nãos foram por causa de quê?
Como nós temos muito poucos filiados em Vila Verde, e o concelho sempre foi geneticamente da direita ou muito da direita e como estas forças políticas estão muito enraizadas aqui, que são sempre os mesmos e só eles é que sabem organizar Vila Verde e têm tanto poder nas relações sociais, levava-me a questionar muito se me deveria meter nisto. Eu sou muito jovem na política e estou a meter-me numa luta de titãs, questionava-me se teria coragem de ir para a frente, porque eu também preciso de coragem, fui pensando, questionando pessoas, fui impulsionada e aceitei. Até porque esta não é uma candidatura minha ou do Bloco, é uma candidatura da comunidade.
Não há nenhum arrependimento, para já, nesse percurso?
Não, não, eu nunca me arrependo tenha o resultado que tiver. Não tenho problemas nem vergonha com isso, nem que só tenha o meu voto, é o que é, as pessoas vão votar em quem quiserem,

Paulo Antunes
15/08/2021Trazer os TUB ao centro de Vila Verde contribuirá para os esvaziamento das escolas de Vila Verde, nomeadamente da ES Vila Verde e EPATV, às semelhança do que se passa com o AE de Prado. A atractividade dos jovens por Braga é enorme e portanto, não se fixam jovens em Vila Verde com melhores transportes para Braga. Os jovens devem sentir que Vila Verde é o seu Futuro e devem ter as necessárias condições, com deslocalização do ensino superior para Vila Verde e atração de novas empresas, assentes nas áreas profissionais, das ofertas profissionalizantes do concelho e criação de emprego com a necessária sustentabilidade, assente na economia circular.