Olhar pela lente – A alma (e não o calcanhar) de Aquiles

Foi notícia, recentemente, a publicação de um artigo cientifico numa revista britânica sobre o projeto de literacia fílmica “Olhar pela lente” realizado em 2018, envolvendo 160 alunos de áreas não artísticas da ESVV que participaram na produção de 26 curtas metragens.

A notícia lida em jornais regionais, causou-me alguma “urticária” porque não menciona nenhum dos rostos deste projeto na nossa escola. Aceito que para quem lê um artigo cientifico, o importante seja quem o escreveu e resultados obtidos. Não aceito que na imprensa regional não se chegue ao QUEM, possibilitou que a ESVV e respetivos alunos surgissem num artigo científico.

É um pouco dessa história vivenciada em paralelo com o professor Aquiles Loureiro – a alma deste projeto na ESVV – que me proponho aqui resumir. Digo em paralelo porque eu e ele raramente convergíamos na importância atribuída a diferentes atividades. Ambos sempre com o “foco” nos alunos e seus interesses, cada um seguia seu caminho, mantendo lutas saudáveis – para além do futebol – devido aos projetos a que emprestamos corpo e alma. Eu mandava-o Olhar pela Lente para as atividades em que me envolvia e ele respondia que eu não percebia o verdadeiro significado do projeto – Olhar pela Lente. Como mais vale tarde que nunca, em ato de contrição me penitencio com um breve resumo histórico.

No ano letivo 2014/15 a ESVV inscreveu-se no Plano Nacional de Cinema (PNC), iniciativa da presidência do conselho de ministros, operacionalizado pela DGE, pelo Instituto de Cinema e Audiovisual e pela Cinemateca Portuguesa. De entre os objetivos, salientavam-se: a promoção da literacia para os media; olhar o cinema como arte e, em vez de se verem filmes para aprender conteúdos, os filmes passarem a ser o próprio objeto de análise. As atividades consistiam em ciclos de cinema na escola, sessões no Theatro Circo e dias comemorativos. Mas o Aquiles como o próprio nome indicia, encontrava sempre “um calcanhar” e Olhava para a Lente de forma diferente. Quem o conhece, sabe que a teimosia é a sua principal – que não única – virtude:

E se puséssemos os alunos a fazer filmes?” Gente sensata respondia:

Como, se não sabemos o óbvio?

Eis que, coincidentemente, surge um concurso para projetos de Educação pela Arte. A ESVV concorre. Há dinheiro. Adquire-se material e contratam-se formadores – Aquiles e o seu calcanhar rejubilam. De uma folha em branco nasce um projeto aglutinador e vencedor – mostra-o o artigo científico publicado. Os autores – Pedro Alves e Ana Sofia Pereira – docentes na Escola das Artes da Universidade Católica vêm ensinar professores e alunos. A estes últimos é dado um grande espaço de liberdade para expressarem o que ocupa os seus pensamentos.

Alguém ligado ao projeto confidencia-me: “com estes filmes percebi que as casas de banho são lugares muito importantes: não há professores e raramente funcionários. É só mesmo deles, dos alunos. Lugar de confidências onde se choram desamores e se fazem testes de gravidez. Tantas vezes fomos filmar às casas de banho. Bem cinematográficas com os seus azulejos amarelos, cor de laranja.”

Surgem curtas metragens com nomes adequados à idade dos realizadores e, atuais para a época que vivemos: Vírus; Olha para trás; Behind the smile; The bathroom; Realidades ocultas; Futuro Incerto; Game Over…(ver https://olharpelalente.yolasite.com/)

Ao Aquiles, restante equipa técnica e alunos envolvidos, o meu agradecimento sincero. Todos fazemos e somos parte das mais de três décadas de história da ESVV.

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