“Certificação florestal é a solução para a limpeza de terrenos privados”

A chamada época dos incêndios está aí. A limpeza de terrenos é um assunto recorrente e o ‘Terras do Homem’ foi tentar perceber que trabalho foi feito e qual é o ponto da situação. A Associação Florestal do Cávado abrange seis municípios, tem nove equipas de sapadores e 45 homens.

O vilaverdense Carlos Cação é o presidente da entidade e ao ‘Terras do Homem’ aponta a certificação ambiental como o caminho a seguir para ‘obrigar’ os privados a fazerem a limpeza dos seus terrenos.

É que segundo Carlos Cação, “todo o trabalho de limpeza em terrenos públicos, a criação de faixas de gestão de combustível essenciais para o combate a fogos está, praticamente, concluído”. O problema são as propriedades privadas.

“O trabalho dos sapadores é de prevenção: 90% através de limpezas para a criação de faixas de gestão combustíveis. Temos feito muito a queima através de fogo controlado, há quem não goste muito, mas nós fazemos fora do período crítico em áreas que seriam, alguma vez, limpas dado a sua dimensão”.

As queimas controladas são feitas através de candidatura. A AFC queima 200 a 300 hectares por ano. “Esta é uma boa forma de gerir áreas de elevado risco de incêndio a baixo custo”. E é também uma forma de limpar terrenos privados.

As faixas de gestão de combustível são criadas junto de caminhos públicos, 10 metros para cada lado, “e são uma ajuda para que um incêndio possa ser mais facilmente combatido. Temos percebido que estas faixas são um mais valia, são limpas com material manual, limpamos a vegetação que não interessa e deixamos as árvores, para que a manutenção seja mais fácil.

As intervenções são feitas baseadas num plano municipal de defesa das florestas contra incêndios que é definido entre as autarquias e o ICNF, incluindo as áreas a intervencionar selecionadas tendo em conta o seu histórico e o risco de incêndio.

Pandemia
A pandemia não provocou muitos constrangimentos ao trabalho dos sapadores. Segundo o presidente da Associação, o problema mais evidente prendeu-se com o transporte “porque são cinco elemento do mesmo carro e tivemos que fazer ajustes. Já no trabalho em si, não houve problemas, cada um tem o seu equipamento individual e sempre trabalharam a uma distância de segurança porque as nossas normas assim o obrigam”.

Durante o confinamento continuaram a fazer o seu trabalho e “felizmente não tivemos nenhum caso suspeito e por isso, correu com naturalidade”.

Houve alguns sapadores que usaram os seus direitos para ficarem em casa a tomar conta dos filhos, por exemplo: “tínhamos sempre gente a trabalhar, mas, em alguns casos, com menos pessoas, o que levou a fazer menos área”.

Carlos Cação recorda que o plano municipal é para o ano inteiro e “nós iremos cumprir com o que está definido no que às limpezas diz respeito”.

Nova equipa
A AFC tem oito equipas e a nona já está constituída em Braga. “É uma equipa que está em formação, já temos o carro e o respetivo equipamento para cada um, os sapadores já foram contratados e neste momento encontram-se em formação. Não estarão em condições para aturar no teatro de operações este verão, mas é mais uma equipa para a zona do Cávado.

Esta nova equipa surgiu por pedido da câmara de Braga que “sempre demonstrou vontade e necessidade de ter mais uma equipa, a associação fez um esforço e já temos 45 sapadores, somos a maior do país em número de equipas e iremos ter mais se o território o entender e os parceiros, fundamentais para a associação, assim o quiserem”.

O serviço é pago pelas autarquias e pelo Estado do qual recebem 40 mil euros: “das autarquias o valor depende dos dias de trabalho estipulados para cada um deles”. Os pagamentos estão em dia e “só são efetuados depois de quer o Estado quer as autarquias, fiscalizarem o serviço”.

No futuro, não fique descartada a hipótese da criação de mais equipas. “Há concelhos só com uma equipa de sapadores florestais para largos hectares de floresta e é pouco”, como por exemplo, Amares e Terras de Bouro.

O estado tem aberto concursos para modernizar os equipamentos e a AFC tem ido a todos.

Este ano, antes do período crítico, vai entregar o novo fardamento. “Já renovamos a nossa frota automóvel toda, com exceção de uma equipa em Barcelos. Nos últimos quatro anos, criamos duas equipas novas e renovamos quase a frota toda”.

Associados
A AFC, para além dos Municípios, tem outros associados que podem ser empresas ou particulares desde que tenham propriedades florestais.
“Nos protocolos que assinamos com os municípios existe uma cláusula que nos permite disponibilizar alguns dias para os nossos associados para os quais fazemos muitas limpezas”, acrescenta ainda Carlos Cação.

 

ICNF quer mais horas de vigilância

Em cima da mesa está uma proposta a ser negociada com a tutela para que as equipas de sapadores fazem mais horas de vigilância. O ICNF propôs, no período de vigilância dos sapadores, que haja um desdobramento, ou seja, em vez de turnos de sete horas passarem a turnos de 14 horas.

“Já conversamos com os nossos sapadores e eles já mostraram a sua disponibilidade”, revela Carlos Cação. No entanto, as associações não estão a aceitar porque depende de valores: “da nossa parte estamos disponíveis para fazer jornadas de 14 horas de vigilância começando de manhã cedo até ao final do dia”.

Segundo Carlos Cação, atualmente, os sapadores fazem vigilância da parte da tarde, entre as 13h00 e às 20h00, mas “há sempre reacendimentos de manhã, seja porque os bombeiros o não conseguem fazer por estarem cansados seja porque alguns deles vão trabalhar, há essa intenção dos sapadores fazerem o reforço do horário e neste caso, o rescaldo para atenuar ou colmatar possíveis reacendimentos da parte da manhã”.

Cação considera “ser uma boa medida” que ainda não está no terreno porque “há muitas dúvidas do que se vai fazer, da forma como se vai fazer e dos valores associados a isto porque havendo um esforço da parte dos sapadores tem que haver a compensação correspondente”.

 

Certificação florestal e cadastro

A Associação Florestal é composta por um corpo técnico que dá apoio a vários níveis, desde levantamentos topográficos, candidaturas, licenciamento de povoações florestais e agora “estamos a desenvolver uma área fundamental para o futuro da floresta em Portugal que é a certificação florestal”.

Com técnicos credenciados, a AFC já tem largos hectares de área florestal certificada. “A maior parte dos problemas reside nos terrenos privados e nós voltamos à velha máxima do cadastro florestal, que se deixou de falar tanto, mas é importantíssimo. Nós só conseguimos entrar nos terrenos privados, neste momento, através das candidaturas do fogo controlado”.

Carlos Cação não tem dúvidas de que as autarquias precisam de “ir para o terreno o mais rápido possível” tratar desta questão. “Na agricultura já se fez o emparcelamento e pode-se fazer o mesmo na floresta. Há pessoas que têm terrenos, mas não sabem onde. Ora com o cadastro podem-se criar áreas maiores e tirar um melhor rendimento do espaço florestal”.

No entanto, o presidente da Associação Florestal do Cávado diz que resolveriam dois problemas com a certificação ambiental: “é importantíssima: primeiro porque garante o conhecimento da parcela e o seu proprietário e depois garante que durante x anos o terreno vai ter manutenção e cuidado da melhor forma possível dentro das técnicas previstas pela certificação florestal. Este é o futuro”.

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