A Torre de Dornelas, em Amares está a ser alvo de um processo com vista à sua classificação.
O seu valor patrimonial, a sua dimensão morfológica e artística, reflexo da sua história e cuja génese se pode fazer coincidir com a Torre que, apesar estar em ruínas, continua a ser um imponente marco na paisagem.
Eva Caridade Silva, é vilaverdense, arquiteta e elaborou uma tese de mestrado sobre o monumento de Amares. “Sempre gostei da história associada a um edifício e para o meu projeto de investigação queria descobrir um caso que fosse por aqui”, começa por explicar ao ‘Terras do Homem’.
Quando ‘bateu’ com a Torre de Dornelas, viu fotografias, foi ao local, conheceu a proprietária e ficou “rendida”. Localizada no lugar de Outeiro, pode situar-se a sua construção entre meados do século XIII inícios do século XIV. De princípio não era mais que uma torre quadrangular, de carácter residencial, com possíveis anexos.
Posteriormente, passou a solar residencial ao qual se efetuaram diversas intervenções nos edifícios anexos pelos séculos XVII e XVIII, como o acrescento da capela e do portal principal. Na atualidade, trata-se de uma quinta composta por diversas casas agrícolas, a capela e o corpo residencial, tudo isto disposto em redor de um pátio/terreiro encerrado.
“Esta é uma torre senhorial, não servia para proteger pessoas, mas sim para proteger terras. Ficavam nos sítios mais altos dos terrenos e, normalmente, eram os criados que tomavam conta delas”, revela Eva Silva.
Como acontece com a grande maioria das torres senhoriais, a Torre de Dornelas encontra-se em posição de esporão no vale, erguendo-se sobre um afloramento granítico, a uma altitude de 130 metros.
Entre campos de cultivo, rodeados de laranjeiras, numa área de exploração agrícola onde a maioria dos terrenos férteis são aproveitados para a plantação de árvores de fruto e produtos hortícolas para consumo próprio ou para venda, a torre usufrui de uma ampla vista sobre o vale e sua envolvente próxima.
Esta localização privilegiada e estratégica, com um campo de visão de praticamente 360 graus, permitiu aos seus senhores um melhor domínio e defesa do território, quer no que toca a controlar o território e a forma como este estava a ser explorado pelos caseiros, quer de modo a conter e a defender-se de possíveis ataques inimigos.
Três pisos
“Não existem muitas torres que fossem de habitação”, aponta a arquiteta dando esta como uma das suas mais-valias. Composta por três pisos, no primeiro ficava uma sala que poderia ser mais social ou mais privada, a cozinha ficava fora.
O conjunto edificado é assim composto não só pela torre de Dornelas como também pela capela e portal brasonado, pelo corpo seiscentista, pelo volume residencial, anexo à torre, e ainda por diversos anexos agrícolas, espalhados pelo edificado inclusive nos pisos térreos dos volumes construídos.
Entre estes podem-se encontrar um espigueiro, uma espécie de sequeiro, um palheiro, um silo e inúmeras capoeiras e vacarias, tudo isto disperso em redor do pátio/terreiro encerrado.

Estaria organizada por três pisos sobrepostos, havendo a possibilidade de existir um celeiro fechado no rés-do-chão, seguido de um primeiro andar com uma sala onde existe a única porta de acesso ao edifício.
Uma vez que, presentemente, a torre se encontra em ruína pelo meio do terceiro piso, não se consegue perceber a sua real altura, “mas parte-se então do principio que seria relativamente superior à existente, por volta dos quinze metros”.
Em forma de O
Outra das particularidades salientadas por Eva Silva é o desenho em ‘O’: “a entrada ao estar virada para o pátio fecha-se também para a paisagem envolvente. Só nos pisos superiores é que se descobre esta relação de vista privilegiada com e sobre a natureza, tanto pelas diversas aberturas, janelas ou portas, presentes nos edifícios como também pelo terraço/eira existente num anexo”.
Atualmente, em seu redor, existem jardins, zonas de pomar, diversas áreas de cultivo agrícola, vinícola e de milho, de pasto para os animais, as vacas e os porcos, e até as novas habitações da família que, nos últimos anos, se foram construindo na periferia do terreno.
Processo de classificação
Eva Caridade Silva não defende a requalificação do espaço porque “custa muito dinheiro”, mas sugere a manutenção do aspeto exterior acrescentando unidades que “permitam perceber como eram as coisas antigamente”.
Um processo que a classificação pode vir a ajudar no futuro. “A classificação não permite fazer mudanças no aspeto da Torre, apenas a sua conservação e por outro lado, torna mais visível, mais acessível a todos este monumento que passa a ser passível de visita”.

Este tipo de monumentos “fazem parte da história do que nós somos e têm sempre muito que se lhe diga. Dizem coisas que à vista não se veem, isto é, dizem mais do que aquilo que mostram”.
A torre, tal como acontece com praticamente todas as estruturas conhecidas deste tipo, apresenta um número reduzido de aberturas entre portas, janelas e seteiras, mais ou menos estreitas. Tem duas aberturas distintas: a porta de entrada da torre, elevada acima do nível do solo num primeiro piso e, no piso intermédio, mas de reduzidas dimensões, a janela.
Atualmente o acesso ao interior da torre só se faz pela porta de entrada elevada, ao qual é difícil de aceder visto não existir uma escada exterior. Já no interior não existe qualquer pavimento, uma vez que a torre se encontra em estado devoluto.
Evolução para Paço
Quando as torres senhoriais não eram suficientes, só por si, para servirem de habitação junto delas eram desenvolvidas e construídas dependências que permitiam incluir ou completar a estrutura habitacional.
Anexos que tanto podiam erguer-se junto a uma das suas paredes, surgir no meio de duas torres ou até em redor da mesma, ocupando esta a posição central. “Contudo, atualmente, na Torre de Dornelas não se verifica nenhuma dessas situações, uma vez que os volumes anexos à torre, são muito posteriores à sua construção”, refere ainda Eva Caridade Silva.
Mesmo assim, pela presença de alguns vestígios e pela forma/dimensão dos volumes anexos, não se excluiu a hipótese de ter existido o tal paço medieval anexado a um dos lados. “No entanto há que ter em conta que tal é tão somente uma conjetura não existindo provas documentais ou materiais de suporte a tal afirmação”.
