Toupeiras fêmeas desenvolvem testículos para lutar pela sobrevivência subterrânea

A evolução concedeu à toupeira fêmea uma dose de “fúria por esteróides” para a ajudar a lutar pela sobrevivência subterrânea, colocando alguns testículos nos ovários – um exemplo único de anatomia chamado ovotestis.

“O desenvolvimento sexual dos mamíferos é complexo, embora tenhamos uma ideia razoavelmente boa de como esse processo ocorre”, afirmou o geneticista Darío Lupiáñez, do Instituto Max Planck de Genética Molecular, citado pelo Live Science.

“A certa altura, o desenvolvimento sexual progride numa direção ou outra, masculina ou feminina. Queríamos saber como a evolução altera essa sequência de eventos de desenvolvimento, possibilitando as características intersexuais que vemos nas toupeiras”, acrescentou.

Os ovotestis libertam óvulos para fertilização, mas têm também um pedaço de tecido testicular preso de um lado. Apesar de não serem capazes de gerar espermatozóides, possuem células de Leydig que produzem uma porção de andrógenos para o desenvolvimento do sistema reprodutor masculino e hormonas sexuais masculinas.

Em mamíferos, o desenvolvimento do tecido testicular depende da presença de um gene no cromossoma Y para aumentar a produção de testosterona no início do desenvolvimento. A falta deste cromossoma torna muito mais difícil para um embrião iniciar a cadeia de eventos que resulta na produção dos testículos.

As toupeiras fêmeas têm dois cromossomas X em vez de um X e Y, e têm sido um mistério para os cientistas há muito tempo.

Agora, os cientistas concluíram que nas toupeiras há mudanças nos próprios genes, mas também nas regiões que regulam esses mesmos genes. A equipa de Stefan Mundlos, do Instituto Max Planck, mapeou a remodelação cromossómica que a toupeira ibérica (Talpa occidentalis) sofreu para modificar os ovários em verdadeiras “fábricas de testosterona”.

Depois, os cientistas compararam os resultados com os genomas de outros animais e com as alterações genéticas específicas encontradas na toupeira-nariz-de-estrela americana (Condylura cristata), outra criatura com ovotestis.

A equipa descobriu que uma região envolvida no desenvolvimento testicular se inverte, adicionando um código extra a uma região que ativa o gene do fator de crescimento pró-testicular FGF9. Além disso, os investigadores encontraram duas cópias extra de um gene que controla a síntese de andrógenos.

“A triplicação anexa sequências regulatórias adicionais ao gene – o que acaba por levar a um aumento na produção de homonas sexuais masculinas nos ovotestis das toupeiras femininas, especialmente uma maior produção de testosterona”, disse a autora principal do estudo, Francisca Martinez Real.

Para a toupeira fêmea, a evolução do intersexo tem sido uma fórmula de sobrevivência. O artigo científico foi publicado recentemente na Science.

ZAP //

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