À Beira do Abismo

Duas guerras mundiais. Milhões de mortos, velhos e novos países reconfigurando-se em função de interesses geoestratégicos, vidas desfeitas ao ritmo do movimento bélico das nações. Novos protagonistas como o país dos sovietes, nascido da revolução comunista ainda durante a primeira guerra, impérios que as grandes potências desejavam a todo o custo preservar, autocracias emergentes, embriões de sociais-democracias sustentadas na exploração das colónias, lutas de titãs sobrepondo-se à fome, ao desemprego, à angústia dos indivíduos sem perspectivas de futuro num mundo em crise e mudança acelerada novas tecnologias alterando a configuração da economia e destruindo para sempre indústrias tradicionais, máquinas substituindo o trabalho humano, a grande finança em delírio até ao crash final, os cidadãos atraídos por discursos demagógicos e populistas que resultaram em execráveis ditaduras, e uma guerra insensata levando a outra guerra ainda mais insensata.

Assim se passou a primeira metade do século XX, com alguns não menosprezáveis detalhes assustadoramente similares à realidade que vivemos hoje, incluindo o uso da propaganda para a distorção da verdade e a inacreditável ascensão ao poder de loucos megalómanos. Do monumental fresco narrado pelo historiador britânico Ian Kershaw no livro À beira do abismo: a Europa, 1914-1949 (D. Quixote, 2016), ressaltam a ganância dos governos e as perigosas apostas de risco perdidas por oportunismo e falta de visão (como a inicial tolerância para com Hitler, por muitos considerado como um fenómeno inevitavelmente passageiro).

Depois de décadas de relativa paz e prosperidade sem igual numa Europa que continua a ver-se como o centro do mundo, o eixo voltou a mudar, e é fatal encontrar paralelismos com o período entre as duas Grandes Guerras, incluindo a pandemia da gripe espanhola, que dizimou milhões de pessoas. A leitura desta obra poderá ajudar-nos a compreender ou, pelo menos, a interrogar melhor.

 

Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]

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