Preocupações que a pandemia transporta

Numa das minhas buscas incessantes de leituras que me possibilitem novas aprendizagens, encontrei um livro de um autor que aprecio, Erling Kagge, com o título “Filosofia para exploradores polares”. Não, não estou a pensar ir para os polos, embora às vezes apeteça, mas gosto de ler este autor, de quem já tenho outros livros que recomendo, a saber: “Silêncio na era do ruído” e “A arte de caminhar”. É uma daquelas pessoas que conhecendo o seu percurso de vida e atendendo ao que a humanidade passa na atualidade, apetece ler para, nas entrelinhas, encontrar similitudes e perceber que há sempre soluções para diferentes problemas, umas mais difíceis, outras nem tanto. O essencial é que no controlo da situação, todos percebamos que a luta se passa “entre as orelhas” e não no resto do corpo. Se o corpo for capaz, mas não conseguirmos convencer a cabeça, nada feito. A este propósito o autor conta uma pequena história que complementa o escrito anterior. Enquanto turista a passear pela selva viu enormes elefantes presos a pequenos paus, tendo questionado o domador: “Como consegue manter elefantes deste porte, presos a um pau tão pequeno?” Resposta: “Quando os elefantes são pequenos tentam arrancar o poste, mas não conseguem. Quando crescem, nunca mais tentam”. E aqui chegado, eis o meu temor no que se refere aos efeitos desta pandemia e respetivas consequências nos mais novos, e não só. Que estas memórias perdurem e nos impeçam de voltar a viver em comunhão e sem temores acrescidos.

Preocupa-me que as competições desportivas dos mais jovens estejam paradas, pelo que isso poderá acarretar em termos de desistências da prática desportiva num país onde já é reduzido o número de praticantes. Que os que têm memória dos benefícios da prática consigam incentivar os que devido à pandemia…ainda não começaram. A OMS estima que até 5 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas a nível mundial com um aumento da atividade física (e desportiva – digo eu). Urge, pois, incentivá-la e reiniciá-la, quanto antes.

Preocupa-me que o afastamento forçado dos mais idosos, em defesa deles, seja mantido, contra vontade deles, quando a pandemia passar.

Preocupa-me, em suma, que esta pandemia que nos isola de tudo e de todos, quando se for, não leve com ela estes (maus) hábitos criados e considerados necessários, para bem de todos.

Preocupam-me todos aqueles que necessitando de ajuda, não a pedem por vergonha, quando vergonha devíamos ter todos nós, enquanto sociedade, por permitir que as diferenças sociais se acentuem cada vez mais.

Pensando já no amanhã, preocupam-me… as preocupações sobre as prioridades nas tomas da vacina com cada classe (e a docente não foge à manada) a olhar para a sua árvore, esquecendo a floresta.

Apesar de todas estas preocupações, e informado que só nos encontraremos em 2021, votos de bom NATAL e boas entradas num ano que se quer realmente NOVO.

 

Carlos Mangas [Professor de educação Física]

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