Eduardo Alves, 92 anos de dedicação ao Mosteiro de Rendufe em Amares (com vídeo)

Eduardo da Silva Alves tem 92 anos. Desde os sete que criou uma ligação especial com o Mosteiro de Rendufe. É filho do feitor, que durante uns tempos trabalhou com Felisbela, a herdeira do Mosteiro. Ouvir Eduardo é ouvir história sobre uma das principais casas dos monges beneditinos no país.

“Os meus pais foram lá caseiros. Naquela altura, tinha sete anos, estava a lavrar com o gado, lembro-me de me ter saído um dente, eu coloquei-o numa leva do arado para ver se nasciam mais dentes”, é a primeira lembrança que quer recordar.

Apesar de andar na escola, “não tirava a gente de andar com o gado”. Os pais de Eduardo trabalhavam na agricultura, e ele, ‘catraio’ corria os campos e as leiras todas.

“Os meus pais estiveram relativamente pouco tempo, o meu pai era mais feitor da quinta mas quando os caseiros falharam, a dona Felisbela pediu-lhe para tratar da quinta que estava dividida em dois caseiros. O meu pai bem lhe disse que não estava feito para andar com o gado, não queria tomar conta do encargo, mas lá ficou. Foi um ano muito seco que nem deu para ela nem para ele. O meu pai teve que vender correntes de ouro para lhe pagar”.

Depois dos pais terem abalado, Eduardo continuou a fazer trabalhos para a D. Felisbela e seria no Mosteiro que descobriu a profissão futura. “Cheguei a trabalhar para a casa porque, numa ocasião, roubaram a sineta com que ela chamava as pessoas e, com medo, mandou-me fazer, já eu era carpinteiro, janelas de segurança a toda a volta, que ainda lá estão hoje”.

O gosto pelas plainas, tábuas e ferramentas surgiu depois de ter ajudado “uns carpinteiros” que andavam na residência paroquial: “um deles foi para um sítio qualquer. Eu andei de volta deles, com a chave de fendas e a tratar da madeira, deixei-os lá e decidi ir para carpinteiro e fiz muitos trabalhos na residência paroquial”. Mas já lá vamos.

Felisbela
A dona da parte monasterial, Felisbela, era filha do Sr. Rebelo de quem herdou a parte edificada bem como a cerca. Eduardo lembra-se de muitas peripécias, algumas delas contadas pelo pai. “Eu quando a conheci, ela ainda era uma senhora nova, eu tinha sete ela deveria ter para aí 20 anos”.

Esteve décadas como proprietária do Mosteiro. “Segundo me contou o meu pai, ela casou com um tal de tenente Malheiro mas os pais não queriam, ela fugiu com ele pela calçada acima. Os sinos tocaram a rebate e a população foi atrás deles. Ele sacou de uma pistola, os populares ficaram com medo e recuaram. E eles, como tinham um carro do lado de Caldelas, meteram-se nele e fugiram”.

As relações de Felisbela com o padre Simões, também, não foram as melhores. Uma das lembranças de Eduardo Alves prende-se com os claustros: “tinham umas grades à volta para impedir que as pessoas fossem para os jardins. Depois a D. Felismina e o padre chegaram a um acordo. Ela servia-se do mosteiro através de um passadiço que lá existia e, para deixar de passar por ali, deram-lhe a possibilidade de ter outra entrada”.

As grades foram retiradas e compradas por Eduardo. “Foi feita uma entrada nova de acesso à cozinha e o padre deixou de ter entrada pela porta dos carros que, depois, dá acesso ao recibo. O padre tinha direito a entrar pela porta dos carros até ao refeitório onde havia uma janela que depois foi rasgada para fazer uma porta e com as permutas que fizeram deixaram de entrar por lá”.

Posteriormente, o refeitório deixou de ter porta para voltar a ter janela.

Resumindo: “a contrapartida foi o pároco deixar de ter acesso pela porta dos carros para o refeitório e foram feitas umas escadas de acesso ao piso superior onde morava a Felisbela, isto é, para aquilo que pertence à residência velha ficar livre”.

Igreja ficou sem água
No espaço envolvente da Cerca existia um lago fundo e grande e, mais acima, um lago de três bicos com carrancas a deitar água. “Mais abaixo um bocado havia um campo, conhecido como Campo das Escadas com oliveiras a toda à volta. Quando precisávamos de mais gente, tínhamos que chamar gente da freguesia e da família”.

Havia a poça do Cuco, ali virada para Carcavelos, e o tanque do S. João que ficava no laranjal e dava água para a igreja através de um aqueduto. “Tinha para aí 10 anos quando cheguei a limpá-lo todo. O caleiro foi cortado a meio para sangrar a água e deixar de ir para a igreja porque houve uma zanga entre o padre e a dona da quinta”. Numa casinha em pedra guardavam-se ferramentas.

Uma azenha, com quatro engenhos diferentes, era um dos ex-líbris da quinta: moía o grão tanto de milho como de trigo para farinha, moía o azeite e servia ainda para serração. “As pessoas tinham acesso à azenha pagando uma maquia”.

Derrocada
Eduardo trabalhou para o padre Simões e em benefício da igreja do Mosteiro: “consertei os soalhos, fiz uma data de bancos que ainda lá estão, trabalhei na residência velha que tinha umas partes que tinham caído e ainda andei a restaurar essas partes”.

Um dos dias mais negros aconteceu no dia do Senhor dos Passos em 1960. “Estava a chegar a casa, já noite, depois da recolha da procissão e ouvi um estrondo. De manhã cedo percebi que tinham caído a abóboda e uns arcos em pedra que lá existiam”, recorda.

A procissão saiu do Mosteiro, repleto de pessoas, por volta das 15h00 pelos calvarinhos. À hora da derrocada “já não estava ninguém na igreja, estava tudo recolhido, se apanha aquela gente toda…”.

Nesse dia, curiosamente, as pessoas saíram pela porta dos claustros porque a porta principal já não abriu, mesmo depois das reclamações das pessoas.

Reconstrução
Eduardo, por curiosidade, acompanhou a reconstrução e falava muito com o encarregado, o senhor José: “fizeram um grande e perigoso trabalho sem que ninguém tivesse sofrido alguma coisa e, nessa altura, não havia as máquinas que há hoje”.

O teto estava a uma altura de quinze metros, “eles atravessaram umas vigas apoiadas nas cornijas em pedra onde começava a abóboda e depois corriam. Andaram lá a trabalhar o Domingos de Carcavelos, o Lino Pinheiro e o António Carvalho, por exemplo”.

Tradição das pétalas de flores
“Estou certo de ver umas ranhuras, antes da derrocada. Lá por detrás do altar mor, subia e havia uns óculos. Na festa da Assunção de Nossa Senhora, os mais jovens deitavam flores e pétalas por esses óculos, para embelezar as festividades. Os óculos existiam antes da derrocada, fizeram um teto em betão e os óculos desapareceram. Era uma tradição bonita que se perdeu”.

Sala do Recibo
Um dos locais mais ‘concorridos’ do Mosteiro era a Sala do Recibo: “sempre teve muitos cereais, sobretudo milho, por causa da pensão paga ao senhorio. Também tinha vinho e azeite. O vinho estava num lado e os cereais estavam no outro”.

Nos fundos da casa havia um alambique, “onde andavam meses a fabricar aguardente. Na porta dos carros havia um olival muito grande onde havia um coberto, para o lado da cerca, vinham muitas pessoas para varejar e armazenar a azeitona”.

Cerca
Cerca ia a São Vicente, vai a São Brás, desce por uma calçada e vem ter ao Mosteiro. “Entrando pelo portão em frente às Regadas, à direita havia um caminho de carros de bois que separava o terreno de lavradio. À direita era uma mata fechada, na zona virada para onde é hoje a escola e o restaurante, com carvalhos e de difícil acesso. Do outro lado era lavradio, com alguns leirotos onde se semeava trigo e milho. Nesta área havia um tanque que dava água também para o vizinho”, recorda Eduardo.

Era tanto o terreno bravo como de lavradio. “Mais para o lado de S. Vicente do Bico, depois dos cobertos, nas costas do varandão, havia toda a qualidade de pinheiros alguns que precisavam de quatro/cinco homens para os abraçar. De S. Vicente para Carcavelos havia um campo de castanheiros, depois a leira das pereiras que ficava por baixo. Seguindo para a zona de S. Brás, ficava a Poça do Cuco e finalmente vimos para a Camposa”.

* Entrevista intermediada pelo presidente da Junta de Rendufe, Domingos Alves

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