Vilarinho da Furna afundou há 50 anos

Marcelo Caetano foi à povoação convencer o povo mas só a força da água os obrigou a sair

A antiga aldeia serrana de Vilarinho da Furna, outrora encravada entre as Serras Amarela e do Gerês, situada no extremo nordeste no concelho de Terras do Bouro, foi afundada há 50 anos pela subida artificial do Rio Homem.

No seu lugar, surgiu uma albufeira. Estava-se em plena “Primavera Marcelista”, que não só minimizou a dependência de carvão, aumentado a capacidade elétrica portuguesa, como se livrou de um povo peculiar que, seguindo leis comunitárias seculares, vivia de forma democrática em período fascista.

Rua principal de Vilarinho da Furna

Face à renitência popular, Marcelo Caetano, o presidente do Conselho de Ministros, deslocou-se até à aldeia comunitária de Terras de Bouro para tentar convencer os moradores a deixarem a sua terra. Mas, segundo o povo, “só a força da água” obrigou a retirada dos residentes.

Em meados do mês de fevereiro de 1971, faz por estes dias já 50 anos, foi fechada em definitivo a barragem hidroelétrica que, do alto dos seus 94 metros com coroamento de 385 metros em forma de arco, permitiu o enchimento da Albufeira de Vilarinho de Furna numa área envolvente de cerca de 346 hectares.

Desapareceu o casario onde residiam mais de duas centenas de habitantes, que tinham saído ainda poucos meses antes.

Manuel de Azevedo Antunes, natural da aldeia, então estudante de sociologia em Lisboa, recorda ao Terras do Homem “ter ido com a minha tia, Maria Barroso, buscar ainda umas coisas, eram utensílios, no dia 1 de janeiro de 1971, aproveitando que a barragem estava para ser fechada a qualquer momento”.

Ruínas da aldeia

O que só viria a suceder “em meados de fevereiro, devido à minha pressão, ainda hoje não sei como um jovem conseguiu protelar por meses consecutivos uma obra daquela envergadura a uma grande empresa e em pleno fascismo”.

Nos últimos dias do ano de 1970, já as 57 famílias de Vilarinho da Furna haviam lançado mão dos seus últimos haveres, depois de desmantelado tudo aquilo que podiam aproveitar das casas todas em pedra rija.

Saíram todos à força de uma expropriação estatal de quantia miserável. Na verdade, ninguém queria sair nem por dinheiro nenhum porque tinham laços umbilicais que, desde tempos imemoriais, os uniam junto ao rio Homem.

Transporte de Cristo para a sede da freguesia
António Barroso, o guardião da aldeia
Mulher morrer de desgosto por ter saído da aldeia foi o que mais me chocou”
António Barroso é o Guardião da aldeia

António Barroso, de 76 anos, que desde há 50 anos reside na vizinha freguesia de Covide, é ainda, orgulhosamente, o guardião permanente da aldeia de Vilarinho da Furna, além de secretário d’AFURNA (Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna).

Recordou ao Terras do Homem a ida de Marcelo Caetano à aldeia para ajudar a convencer as pessoas que não havia alternativa em face da realidade da barragem.

Ainda antes da visita do sucessor de Salazar, o governador civil de Braga, Santos da Cunha, também visitou Vilarinho da Furna, dialogando com as gentes da aldeia, pois a iminência de parcas indemnizações já pairava na localidade.

A morar aqui tão perto, já depois de ter vindo do Canadá, estive 30 anos sem ter coragem de vir novamente a Vilarinho da Furna”, confessa António Barroso, explicando que “para evitar campismo selvagem nas nossas terras, passei a ser guardião da aldeia”, cujas ruínas do casario por vezes ficam parcialmente visíveis, quando baixa o caudal do rio Homem.

António Barroso confessou “ter estado cerca de 30 anos sem coragem para me deslocar até às zonas da nossa aldeia, tal a tristeza que sentia, aliás, quando foi da mudança, nos inícios dos anos 70, não consegui ajudar na mudança dos nossos haveres”.

António Barroso, que tem na retina tudo aquilo que aconteceu na sua aldeia, confidencia “ter sido uma mulher morrer de desgosto, por ter saído da aldeia, o que mais me chocou”.

Aquele que desde há 20 anos é o guardião de Vilarinho da Furna, contou-nos que “era na altura a única habitante na aldeia. Enquanto o marido e os filhos preparavam as suas mudanças para a freguesia de Crespos, no concelho de Braga, foi convencida, a muito custo, passar o Natal fora, em finais do mês de dezembro do ano de 1970. Na Noite de Consoada, a senhora acabou por falecer, de desgosto, pois era o primeiro Natal passado fora de casa. Aquilo foi choque tremendo para mim e todos os vizinhos, as pessoas não fazem ideia do sofrimento, entre os mais de 250 moradores da nossa aldeia”.

A aldeia de Vilarinho da Furna foi afundada em fevereiro de 1971, há precisamente 50 anos, para dar lugar à Barragem da EDP, que represou o rio Homem, acabando uma povoação de caraterísticas únicas, que vivia em comunitarismo e regras muito próprias.

Manuel de Azevedo Antunes, presidente d’AFURNA
Expropriaram-nos por meia sardinha o metro quadrado”

O sociólogo Manuel de Azevedo Antunes, professor jubilado da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, é o presidente d’AFURNA, a Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna, tendo sido mentor do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, na Porta de Entrada de Terras de Bouro, do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Para além do drama profundo que ainda hoje não está sarado, como o ter que sair contra a vontade em poucas semanas, ao fim de uma vida inteira, Manuel de Azevedo Antunes, radicado em Lisboa, recorda ao Terras do Homem as parcas indemnizações recebidas pelos seus conterrâneos: “expropriaram-nos por uma quantia equivalente a meia sardinha o metro quadrado”.

Manuel de Azevedo Antunes pormenoriza que a então designada Companhia Portuguesa de Eletricidade “pelo conjunto de toda a aldeia e respetivos terrenos de cultivo e maninhos pagou nada mais nada menos que 20.741,60 escudos (cerca de 20 mil contos, que equivale a 100 mil euros) que representa cinco escudos (2,5 cêntimos) o metro quadrado, incluindo as casas”.

Segundo o dirigente histórico d’AFURNA, “se excluirmos as habitações e outras construções, foi pago meio escudo (0,25 cêntimos) por cada metro quadrado de Vilarinho da Furna, o preço de meia sardinha, isto a custos da época”.

Contextualizando, o Professor Manuel de Azevedo Antunes revela que “o êxodo do povo de Vilarinho da Furna pode localizar-se entre setembro de 1969 e outubro de 1970 quando na aldeia foram afixados os editais a marcar o tapamento da barragem”, pelo que “de um ano dispuseram os habitantes para fazer os seus planos, procurar novas terras e transferir os seus móveis”, para outras paragens situadas nos distritos de Braga e Viana do Castelo”.

One thought on “Vilarinho da Furna afundou há 50 anos

  • 26/02/2021 em 10:04
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    Bem me lembro disso, eu era muito novo, e conheci uma família Gonçalves pessoas extraordinárias de várias gerações de quem eu fui amigo e ainda sou, pois eles chegaram com muita tristeza,mas com muito afeto e daí tornou-se mais fácil adaptação, bem-vindos a Crespos pousada
    A minha terra natal.
    Obrigados Domingos Oliveira

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