O meu País, é aquele que me acolhe

Num país desportivamente “acéfalo”, no que se refere aos dirigentes políticos e à imprensa em geral (embora todos conheçam uma modalidade e três clubes) o passado fim de semana colocou nas 1as páginas dos desportivos, atletas que normalmente têm direito a um quarto de página quando participam em campeonatos europeus, mundiais ou mesmo nos JO. Não bastaram os resultados de excelência – há uns anos impensáveis – em disciplinas técnicas (lançamento do peso e triplo salto) ainda houve o descaramento de conseguir dois deles através de portugueses naturalizados, o que suscitou mais umas discussões envolvendo racismo, xenofobia e direitos (ou não) de nacionalidade, adquiridos.

Entendo que estas medalhas podem até servir para motivar a população no (re)início da prática desportiva. Rosa Mota e Carlos Lopes fizeram-no há umas décadas. Gostaria de acreditar que Patrícia Mamona, Pablo Pichardo e Auriol Dongmo o conseguissem também, pois a aguardar por medidas governativas, teremos de continuar a esperar sentados – que é o que a população estudantil e desportiva portuguesa (mais) tem feito nos últimos tempos.

No entanto, e para ter uma ideia do impacto que os resultados tiveram, fiz uma sondagem à boca “do computador” por estar em E@D. Perguntas tão simples como: o que aconteceu de desportivamente relevante no passado fim de semana – extrafutebol, tive o cuidado de dizer – que campeonatos ocorreram e onde; que portugueses conquistaram medalhas e em que disciplinas. Um inicial e completo mutismo mostrou o reflexo do país desportivo em que vivemos; depois do choque inicial, o tempo de demora nas respostas provou que, neste E@D o que o professor quer que nós saibamos, está à distância de clique ao Dr. Google. Dando o desconto por serem jovens em formação e, por isso mesmo, os menos culpados, fiquei mais preocupado com quem questiona os medalhados por dois deles não serem “portugueses de gema”.

Eu valorizei as conquistas por igual porque qualquer um dos três tem uma história de vida (passada e recente) que mostra que com empenho, crença e perseverança, tudo é possível. No entanto, aos que entendem não ser correto que atletas vindos de outros países sejam dignos representantes do nosso, eu pergunto: então, praticantes de excelência que se tenham incompatibilizado com o seu governo não podem mais competir? Onde começa e acaba a tão propalada e prezada liberdade individual?

Os nossos emigrantes – desportistas e não desportistas – não podem também representar os países que os acolhem e lhes dão outras condições de trabalho/êxito pessoal. Quantos enfermeiros nossos, a representar outros países, não conseguiram, nestes tempos difíceis, a maior medalha possível – manter vivos os seus novos concidadãos. Por cá, consta que fomos derrotados (com muitas mortes evitáveis) por falta de gente no nosso SNS. Isto sim, é preocupante. O desporto é, apenas e só, um reflexo da sociedade.

Ridículo foi/é, alguns governantes acorrerem a dar os parabéns aos medalhados quando o seu contributo para este sucesso foi/é ínfimo, para não dizer, nulo.

Parabéns aos NOSSOS medalhados.

 

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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