Opinião

Cartas a um amigo que lê jornais#2

O que origina esta carta, e as mais que ainda te escreverei, a dar conta da minha carreira não política (estamos em tempo dela) mas da minha carreira literária.

Amigo, já sabes o meu nome próprio, o Prof. José Hermano Saraiva encarregou-se de o salientar, como viste na carta anterior que te escrevi.

No referente verdadeiramente ao fim a que esta se reporta, tudo começou assim:

A Casa da Cadeia, no lugar de Paredes da freguesia de S. Pedro de Esqueiros, do concelho de Vila Verde, no ano de 1937 estava a ser levantada sobre as ruínas de um antiquíssimo moinho, que em virtude dessa construção, com muita pena minha, foi destruído para sempre.

Oh! Como gostava de ter nascido nesse moinho, situado na encosta Sul do monte de Stº. Engrácia… era movido pelas águas furibundas que rasgaram, em sulcos profundos, toda encosta na sua cavalgada desenfreada, deixando no solo da mãe terra chagas profundas.

Ainda algumas delas, muito bem as conheci e as vi já condenadas a desaparecer, tal como desapareceu o engenho do homem antigo que, dessas gargantas, se serviu como condutas das águas que desciam a encosta descontroladas e raivosas, em invernos muito rigorosos de águas exuberas.

Pois bem, a Casa da Cadeia foi um obstáculo levantado às águas claras que, nas estiagens, caminhavam pachorrentas pelos restos de uma garganta antiga.

Garganta essa que ainda existia transformada em rego, por onde caminhava a força motriz, que fazia mover as pesadas mós do moinho que, no sítio em que está agora a casa, tinha existido.

Foi meu pai amador da engenharia rural que, para desviar as referidas águas das obras da casa, as conduziu subterraneamente, uma ou mais centena de metros, para que continuassem a alimentar a poça de consortes que ainda lá está, junto da Estrada Nacional 308.

As águas do Monte da Santa, agora outro préstimo já não tinham além da fertilização de campos, depois de represas, na já referida poça.

Sabes, meu amigo, que em 30 de janeiro do ano já citado, a Casa da Cadeia ainda não acabada de todo, entrou em festa rija. Casualmente, e por engano, nasceu naquela casa, por volta da meia noite, um menino… era o sexto dos filhos do proprietário da referida casa e quinta.

A 12 de fevereiro do referido ano de 1937, foi o menino a batizar na capela particular da Casa da Cruz, sita no lugar da Aldeia da mesma freguesia de Esqueiros.

Para terminar, vou dizer-te baixinho, muito em segredo, o nascituro que aí foi baptizado era eu. E o padre José Maria Azevedo, sem me consultar, me baptizou e me deu o nome de João José.

E pronto! De hoje a 15 dias voltarei a escrever-te.

 

Serra Nevada [Escritor]

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