“Balanço dos últimos quatro anos é um pouco atribulado”

O presidente da Junta de Rendufe, Domingos Alves, não se vai recandidatar àquele que seria o seu último mandato. Motivos profissionais estão na base da decisão. Foram oito anos à frente dos destinos da freguesia, agora resumidos numa entrevista em que não fica nada por dizer. Domingos Alves diz que irá “continuar a ser um apaixonado pela freguesia”.

Estamos a chegar ao final de mais um mandato. Que balanço é que faz destes últimos quatro anos?
Eu estou cá há oito anos, mas o balanço que eu faço destes quatro anos, é um balanço um pouco atribulado. Com obras, com avanços, mas um pouco atribulado ao nível da Assembleia de Freguesia. Não deixa de ser um balanço positivo, olhando para os recursos dados pela câmara Municipal, olhando para o orçamento anual da freguesia que é bastante restrito, considero como positivo.

Porque é que diz que foi atribulado em relação à Assembleia de Freguesia?
Quando fui candidato há quatro anos, pelo Movimento Independente, fiz uma escolha, que, na altura, era a certa em que eu apostava tudo porque a pessoa em questão me transmitiu nos quatro anos anteriores, isto é, no primeiro mandato, ser uma pessoa muito aproximada, muito amiga da freguesia, muito transparente, mas veio a revelar-se uma grande desilusão e não tenho outras palavras para classificar a não ser ingrato. Foi um tipo de pessoa em que pus toda a confiança, que convidei para presidente da Assembleia de Freguesia, já antes o tinha convidado para presidente da Associação que eu fundei, os Amigos do Mosteiro de Rendufe, e nunca imaginava que numa só pessoa se poderia concentrar tanta ingratidão e tanta revolta.

E tem alguma justificação para isso?
As justificações que eu tenho são as intervenções que tem tido nas diferentes reuniões da Assembleia de Freguesia, a maneira como debate os problemas da freguesia querendo ele, na maioria das situações, sobrepor-se ao presidente da junta. É de uma arrogância total na forma como se dirige à minha pessoa, bem como da maneira como conduz as Assembleias sempre no sentido da instabilidade e não da estabilidade, criando um mal-estar entre os membros da Assembleia.

Isso interferiu na força, na alegria, na vontade do presidente de junta trabalhar para a freguesia?
Na vontade não porque vontade sempre tenho. Eu considero-me um apaixonado pela freguesia, e vontade nem ele nem nenhum cidadão da freguesia me tira. O ânimo, a alegria, o estar tranquilo isso tirou. Tirou-me muitas noites de sono. Tem feito das Assembleias uma pequena batalha e foram tantas e tantas as situações que ocorreram que desmoraliza qualquer pessoa e eu não sou mais do que ninguém. Não vou dizer que ando muito feliz porque não é verdade, acabamos por desanimar. Aliás, os outros dois elementos da Junta também desanimaram muito com esta situação porque não há uma assembleia que não venha implicar não se sabe com quê e isso cria mau ambiente, cria revolta.

Há alguma razão para essa mudança de atitude do presidente da Assembleia?
Já deparei comigo a pensar no que poderia ter criado esse mal-estar, o que teria dito ou feito perante essa pessoa para que ela agisse dessa maneira e não encontro justificação. Tenho tido conversas com membros da Associação dos Amigos do Mosteiro de Rendufe, onde, também, tem tido situações desagradáveis para comigo, e não consigo encontrar qualquer situação para entrar em conflito. Portanto, de todas as hipóteses possíveis, a única que me ocorre é que ele me usou para ter uma imagem diferente da que tinha na freguesia porque ele era conhecido como ‘o comunista’, quase como um renegado. Eu pensei que ele seria um homem diferente e enderecei-lhe o convite para presidente quer da Associação quer da Assembleia, ele ficou com poder, deixou de ser conhecido como o ‘Zé Comunista’ para passar a ser conhecido como o José Antunes, passou a ser mais bem cotado. Eu só entendo essa traição, esse mal-estar por um motivo: ele queria protagonismo, eu dei-lhe, assumiu os postos que eu lhe ofereci e a partir daí começou a querer ser ele a comandar os destinos da freguesia sobrepondo-se ao próprio presidente da junta.

Tem noção de quando aconteceu essa mudança? Foi gradual? Foi marcada por algum momento específico?
Foi-se agravando, episódio por episódio. Um determinado cidadão da freguesia passou por cima da minha autoridade numa assembleia de freguesia e ele pôs-se de lado desse cidadão não defendo o presidente da junta. A situação agravou-se quando este executivo pensou em levar a cabo uma feira de doces conventuais do Mosteiro de Rendufe, que teria o apoio da Câmara. Eu convoco todas as associações da freguesia, inclusive a associação em que o convidei para presidente, em que lhe transmito a ideia e os objetivos do evento, distribuindo tarefas e pedindo cooperação. Quando chamo a Associação dos Amigos do Mosteiro digo-lhe como vai ser feito o evento, ficou muito chateado porque queria ser ele o organizador e queria saber mais do que aquilo do que lhe competia saber. Eu insisti que iria ser feito como o executivo decidiu, ele entrou em conflito com a junta, mas disse que estava disponível para ajudar.

Mas o evento não se realizou…
É verdade. Não tendo eu, nesse período em que tentei organizar, tido o apoio da Associação dos Amigos do Mosteiro, não tendo o apoio da Fábrica da Igreja nem dos Escuteiros com o quais não tenho as melhores relações, nomeadamente, com o seu dirigente, achamos por bem desistir porque, na minha conceção, ou se fazem iniciativas com impacto ou não se fazem e achamos que evento não ia ter sucesso.

Acha que foi essa conjuntura que acabou de ‘pintar’ que possa ter contribuído para que não haja valorização do trabalho que a junta desenvolveu?
Nós sabemos que não agradamos a toda a gente por muito que trabalhemos. E a resposta a essa pergunta é que é verdade que não se reconhece o trabalho que a junta desenvolveu nestes anos. Há que faça e trabalhe e depois há quem apareça para a fotografia e noticias no jornal.

Tem alguns exemplos desses?
Infelizmente tenho e posso dar sem qualquer problema. Um primeiro exemplo: o sintético do campo de Rendufe, uma obra ganha para a freguesia, que era ambicionado há muitos anos pelos rendufenses ligados ao desporto. Eu tive uma passagem pelo Rendufe Futebol Clube como dirigente, antes de ser candidato, e já se discutia, planeava colocar um sintético. Depois de ter sido eleito, levei sempre essa ambição ao presidente de câmara, levei a minha indignação por umas freguesias terem e a nossa não às reuniões da Assembleia Municipal em três ocasiões. Pedi uma reunião com o presidente de câmara e onde convidei o presidente do clube para estar presente, no sentido de falarmos sobre essa obra. A obra foi concluída e o presidente do clube dá uma entrevista e, simplesmente, não fala no presidente de junta, é esquecido, é apagado. Para os jornais fazem notícias, a obra é dada como do clube e do seu presidente e onde está o presidente de junta? Não está. Um dos mentores para que a obra fosse feita, que tanto lutou e trabalho foi deixado para trás.

Há mais?
Sim, temos uma outra situação que são as obras feitas na capela do Monte Calvário. Eu entrei em outubro de 2013, e logo no início de 2014 pedi presidente da Confraria para colocar, na assembleia de irmãos, a possibilidade da capela de São Sebastião passar a ser a capela mortuária da freguesia. A proposta foi discutida, mas os irmãos negaram, dizendo que seria só para os irmãos que pagassem as quotas, os outros nem pagando. Como não sou de desistir à primeira, continuei com a minha luta, com os meus contatos e entrou uma nova mesa para a Irmandade e voltei a pedir que o assunto fosse discutido. O que veio a acontecer e, desta vez, é aceite.
Ficou-se de elaborar um protocolo entre a Junta de Freguesia e a Irmandade do Senhor dos Passos, onde ficava escrito que aqueles que não fossem irmãos teriam que pagar pelas cerimónias fúnebres, e bem. O protocolo nunca mais era assinado e eles andaram a arrastar. Até que tenho conhecimento que a Irmandade tinha feito um pedido à câmara para fazer umas obras na capela para as quais o presidente de câmara daria 25 mil euros. Vou falar com o presidente da câmara sobre este assunto e ele confirma que iria dar aquela verba para obras. Eu aproveitei para o informar do que se estava a passar e que havia um protocolo que ainda não estava assinado.
Aproveitei para lhe dizer que uma capela mortuária deveria existir em todas as freguesias, mas na minha não queria mais uma capela, porque capelas e igrejas temos muitas. Queria um acordo concertado com a Irmandade para que a Capela de São Sebastião fosse capela mortuária. Ele disse que desconhecia o assunto e que só libertava a verba quando o protocolo fosse assinado.
O protocolo foi assinado, houve negociações para o valor das obras, que passaram de 25 para 65 mil euros, mas ainda assim um custo inferior à construção de uma capela nova, e eu fiz força para que essa verba fosse uma realidade. Temos uma capela lindíssima, espetacular, mas depois de quem é a obra? Da Irmandade e do seu presidente. Onde está a Junta de Freguesia? Em lado nenhum!.

Há alguma coisa por detrás disso?
Em relação à irmandade e na altura em que o presidente era o senhor António Antunes, ele veio aqui à junta pedir dessemos dinheiro para ajudar a ampliar a capela. Eu disse que não porque o que tinha ficado acordado com a câmara é que autarquia assumisse os custos a pedido da junta.

Portanto, não ficou decidido que a junta ira comparticipar a obra nem com a Câmara
Não ficou decidido nem com a Irmandade nem com a Câmara, com ninguém. Nunca lhes prometi qualquer verba fora do protocolo que já tínhamos assinado. Eu interferi junto do presidente da câmara para que desse mais dinheiro porque seria a capela mortuária da freguesia e ganharíamos todos. A freguesia ficava mais unida e estável, a capela ficava com todas as condições para cerimónias fúnebres e ganhava o Município que não investia numa casa mortuária de raiz.

O protocolo está a ser cumprido?
Sim, a junta honra os seus compromissos naquilo que está inscrito no protocolo e a irmandade também tem honrado o protocolo.

Quanto ao Mosteiro…
Costumo dizer que é a minha freguesia e o meu Mosteiro. São duas paixões que eu tenho. Logo que tomei posse como presidente de junta, uma das primeiras coisas que fiz foi falar com o diretor regional e pedi-lhe uma audiência que viria a ser concedida a 13 de fevereiro de 2014. Desloquei-me ao Porto e na conversa com o sr. António Ponte salientei o património valiosíssimo que tínhamos na freguesia e que se estava a degradar de dia para dia com infiltrações de humidade, pedi a requalificação das paredes, as fundações estavam débeis e que fizesse uma intervenção urgente nos telhados do Mosteiro. Pedi, ainda, um acesso para pessoas com mobilidade reduzida e a cobertura de espera no adro do Mosteiro.
Passados estes anos todos com muitas reuniões, muitos mails, criando uma associação para dar mais visibilidade e enfase aos nossos pedidos, as obras estão feitas, o que lhe pedi foi feito e eu agradeço muito ao senhor diretor regional pelo seu empenho. Mas quem é que interveio na obra? Quem é que foi o impulsionador para que a obra se realizasse? O Concelho Económico Paroquial! Mais uma vez o presidente de junta fica de lado. Os louros são para os outros, o trabalho de escravo fica para o presidente de junta.

Há obras que se orgulha de ter feito na freguesia?
Elas estão aí, estão feitas e são muitas.

E há obras que gostaria de ter realizado e não conseguiu?
Eu tinha intenção de fazer, com o apoio e a promessa da câmara, a requalificação de toda a Estrada Municipal 1347, das Neves até à Ponte Nova. Aconteceu em parte, em certos alargamentos; há um troço que está um escândalo, mas está em PPI e vai avançar que é desde o Mosteiro até à Ponte Nova, mas fica algo por fazer: é desde o Mosteiro até à entrada da Rua da Maia, onde há três alargamentos que vão ficar por fazer.

Até ao final de mandato que obras vai conseguir terminar?
Tenho obras em curso, outras vão começar para breve, outras adjudicadas, sempre tendo o foco no melhoramento das acessibilidades, isto é, para que todos os cidadãos da freguesia tenham acesso à sua habitação de um carro de bombeiros e de uma ambulância. Dentro das nossas possibilidades e dentro daquilo que é possível negociar com os proprietários dos terrenos porque quando se fala em alargar é dar terreno para domínio público e aqui temos um drama muito grande. Estou satisfeito com o que foi feito, o que estamos a fazer, mas não estou completamente satisfeito porque não conseguimos fazer todos aqueles que tínhamos previsto.

Não vai ser candidato àquele que seria o seu último mandato. Porquê?
Uma das razões é a minha vida profissional que exige muito de mim, exige mais tempo. Tendo uma vida profissional bastante stressante e ocupada, os trabalhos, a organização e o empenho pela freguesia ficam com menos espaço. Logo, gostando eu como gosto da freguesia de Rendufe não iria conseguir dar o melhor de mim, e por isso, acho que é melhor ceder o meu lugar a outro. Também porque 12 anos é muito tempo. Por aquilo que tenho observado no terceiro mandato daqueles que o fizeram, é o pior dos três mandatos. E eu não quero correr esse risco.

Que posicionamento vai assumir nas próximas eleições? Vai se por à margem? Vai apoiar uma candidatura? Vai ficar atento ao que vai se feito na freguesia?
Como lhe disse, eu sou um apaixonado pela minha freguesia e afastar não vou. Estamos a tentar arranjar um candidato que realmente possa ir a eleições. Não me vou retirar da totalidade do mundo da freguesia, até porque gostaria de fazer parte de uma Assembleia, para dar o meu contributo, o meu conhecimento e para transmitir dossiês.
Quero fazer uma passagem digna, disponível para esclarecer tudo e seja quem for eleito terá a minha disponibilidade. Não quero que aconteça, o aconteça comigo quando fui eleito pela primeira vez onde o anterior presidente da junta não quis saber, não falou comigo e deixou-me com os dossiers nas mãos sem qualquer explicação.

Presidente da Câmara
O presidente da Câmara de Amares não poupa elogios ao presidente da junta de Rendufe: “esteve sempre presente em todas as reuniões que tivemos, mostrou-se determinado e empenhado. No sintético do campo de futebol, na construção da capela mortuária e até no Mosteiro, que ele chama de ‘meu Mosteiro’, foi incansável. Todas as obras estruturantes da freguesia tem a sua marca e ele pode-se orgulhar de deixar um legado. É um apaixonado por Rendufe e isso notou-se porque nunca uma câmara investiu tanto em Rendufe como nestes últimos oito anos: foram cerca de um milhão de euros”.

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