José Moças, o arqueólogo da música a viver há 24 anos em Vila Verde (com vídeo)

Conversar com José Moças é tão prazeroso que nem se sente o tempo a passar. Por detrás de cada edição dos discos da sua editora, a Tradisom, a fazer 30 anos de existência, há uma história. Depois de um 2020 sem faturação devido à pandemia, este ano “o trabalho acumulado” vai ter como resultado mais de 20 novas edições, concentradas na parte final do ano.

Depois do pai não o ter deixado estudar Arqueologia, seria a música a dar-lhe aquilo que o apaixona: descobrir, após aturada procura, discos e músicas escondidas em variados recantos do mundo.

Como aconteceu a vinda do José Moças para Vila Verde?
A minha vinda para Vila Verde ocorreu de uma forma muito simples: eu estive 20 anos a trabalhar em Macau, no tribunal, de onde saí para ir só para a rádio Macau e quando a minha mulher e eu decidimos pensar regressar a Portugal, primeiro porque estávamos cansados do clima que é muito forte e pesado e depois porque, a Adriana, tenho dois filhos a Adriana e o Duarte que nasceram lá, estava a completar seis anos. Achamos que era a altura ideal de vir para Portugal já que ia entrar para a escola. Ficou a dúvida: e vamos para onde? Para ao pé dos meus pais ou dos dela? Os pais dela são de Vila Verde, de Carreiras Santiago, e os meus de Portimão, no Algarve.
Pedi ao meu sogro para me descobrir um terreno e é assim que desde 1999 moro em frente às piscinas. Eu vim em 1997 para cá, estive dois anos na casa dos meus sogros e depois mudei-me para onde estou agora. A decisão foi para termos mais apoio e os meus sogros foram fantásticos. Vim e agora não vou sair daqui nunca, as raízes estão criadas e está fora de questão sair daqui. Eu queria ir para o Alentejo, mas a minha mulher não deixa!

Então gosta de Vila Verde?
Gosto da Vila, tenho já muitas pessoas amigas, amizades muito boas. Estou cá há 24 anos.

A ‘Tradisom’ é um produto de Vila Verde ou já vem de trás?
A ‘Tradisom’ foi criada em Macau em 1992, faz para o próximo ano 30 anos. Nasceu quando eu estava na rádio e descobri umas gravações antigas de fado, foi aí que tudo começou. Fiz umas coisas muito interessantes sobre o património musical de Macau. E, estava-me a esquecer, outros dos motivos porque vim para Portugal. Eu lá fazia um programa para a Comissão Territorial para a Comissão dos Descobrimentos, uma sucursal da comissão portuguesa que realizou a Expo, e a pessoa que está lá responsável, o professor António Hespanha, sabia que eu tinha uma ideia um bocadinho ‘louca’ que eu pensei que nunca a pudesse concretizar. Em 1996, estava em Macau, recebi um telefonema e não sabia quem estava ao telefone. Perguntou-me como estava o meu projeto, eu disse-lhe no sítio do costume artigo cesto (que é o cesto dos papeis). Eu como não sabia com quem estava a falar, ele disse-me quem era, que estava à frente da Comissão dos Descobrimentos e disse-me para marcar uma viagem a Lisboa.
O meu projeto eram seis discos e na viagem para Lisboa aumentei para doze porque era uma oportunidade única. Consegui, então, fazer a coleção oficial do pavilhão de Portugal na Expo 98, uma coleção fantástica, que se chama ‘A Viagem dos Sons’. Foi a minha vinda para Portugal em termos de editora e deixou logo uma marca muito grande. A coleção mostra a influência musical dos portugueses pelo mundo.

A editora começou pelo fado, mas já extravasou e muito essa área…
A minha área sempre foi a música tradicional porque a minha formação, digamos assim, foi no coro da Juventude Musical Portuguesa em Lisboa para onde entrei em 1972 e foi esse contacto com as gravações do Giacometti que me deu esse gosto pela música tradicional. O primeiro disco que eu fiz em Macau não foi esse do fado, foi um trabalho que teve o apoio da Fundação Oriente e que se chamou ‘Vozes e Ritmos do Oriente’. Era um trabalho sobre a música do Oriente que, praticamente, toda a gente desconhecia em Portugal, mesmo os mais conhecedores da música. Deu a conhecer alguém que viria a tornar-se muito conhecido, mas, na altura, ninguém sabia quem era, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, um músico incrível. Foi uma grande surpresa e quando editei o disco vim a Portugal apresenta-lo, no Museu de Etnologia.
Depois, com a descoberta em Inglaterra de discos com gravações de fado do início do século, que eu desconhecia que existiam, é que foi o arranque da editora, com uma coleção de seis discos com as tais gravações dos anos 20 e 30. Ninguém tinha noção em Portugal, nessa altura, em 1993, que havia gravações dessa época até porque um desses discos era do maior guitarrista da história do Fado que ninguém tinha ouvido, o Armandinho. Teve um impacto muito grande e foi importante para dar andamento à editora. Portanto, a minha área é a música tradicional e popular portuguesa.

Como é que esses conteúdos vão parar às suas mãos?
Ainda tinha 16 anos quando disse ao meu pai que queria ir estudar Arqueologia para Lisboa, mas ele disse-me que estava maluco porque não ganhava dinheiro com aquilo e disse-me que tinha três empregos para eu escolher. No entanto, primeiro mandou-me, durante um ano, aprender a escrever à máquina e lá fui para os escritórios da Torralta, em Portimão, onde passei a infância. No ano seguinte voltei a dizer que queria ir estudar para Lisboa, ele deu-me aos 18 a emancipação plena que era aos 21 anos e fui para Lisboa, onde arranjei logo emprego no Tribunal. Fazia atletismo, entrei para o coro, estudar, claro que uma ou duas ficaram pelo caminho, só fiquei com o trabalho e com a música.
Há dois fatores que contribuem para que se faça um trabalho de edição: eu faço pesquisa, é uma coisa que eu adoro, faço desde miúdo e faço muito. Tenho encontrado coisas inacreditáveis, costumo dizer que a sorte dá muito trabalho, mas, também, é preciso ser muito persistente, isto é, não é fazer uma pesquisa no Google e ficar nos 50 primeiros resultados, é ir até aos 200 porque há-de aparecer qualquer coisa. O outro fator é as pessoas virem ter comigo, terem ideias e ver como aquilo se pode concretizar, que é o que tem acontecido mais nos últimos anos.

Tem alguns exemplos?
O meu trabalho mais recente, de 2019. Descobri, por mero acaso, uma coisa importantíssima a nível nacional. Foi em Vila Verde, sentado no carro do João Manuel, o antigo guitarrista dos ‘Raízes’, eu atrás e à frente estava também o Júlio Pereira. Ele mete um CD e era o Zeca Afonso a falar. Quando começa a parte musical, o Júlio diz que estava ali a tocar. Era um concerto do Zeca Afonso gravado por um amigo do João Manuel, em Carreço, Viana, em 1980. Fiquei logo com as antenas no ar. Fui falar com ele e aí nasceu o projeto de edição de um concerto inédito do Zeca Afonso porque tinha uma caraterística muito especial: não era só um concerto porque o Zeca apresentava as músicas uma a uma, isso é que era o ineditismo.
Quando estávamos a trabalhar nesse concerto, fui para o Facebook a pensar que poderia haver mais coisas e vejo a publicação de uma senhora com uma foto de um concerto gravado em Coimbra em 1968 e dizendo que alguém o tinha gravado. Tinha sido o professor Jorge Lino, da Universidade de Aveiro, onde eu tinha ligações. Liguei-lhe, ele confirma que tinha a bobine em casa. Ora isso resultou numa edição única e irrepetível de cinco mil exemplares numerados com um livro, dois CDs e um vinil. Já acabou, não se vai repetir e são deste tipo de edições que eu estou à procura e, felizmente, tenho muita coisa em carteira. O que vale a pena é fazer coisas únicas, especiais, limitadas e numeradas porque as pessoas gostam disso.

Uma das particularidades das edições da ‘Tradisom’ é, também, o trabalho que aparece escrito nas capas e nos livros que as acompanham. Isso dá trabalho?
As minhas edições têm duas caraterísticas especiais: uma é uma preocupação muito grande com a parte gráfica, ou seja, ter muita qualidade em termos gráficos, qualidade em termos de impressão e a outra são conteúdos bem recheados, isto é, eu não edito nada que não tenha muita informação, booklets com informação que as pessoas percebam o que está ali. Detesto ver discos onde só temos a música e ficamos assim sem saber nada. Todas as minhas edições têm como objetivo dar a conhecer às pessoas, alguns com pesquisa científica, aquilo que ali está. Por exemplo, publiquei no dia do Pai, em pré-venda, um disco de um dos grandes atores, músico, compositor, realizador, o Zeca Medeiros. É um digi-book com 120 páginas, tem um CD com 12 canções e um DVD com 24 vídeos e está a ter uma boa recetividade.

Mesmo numa era do digital…
Sim, as pessoas, cada vez mais preferem o digital e eu o que tenho de fazer, até porque gosto do objeto em si, é objetos que as pessoas queiram ter, quase como uma peça de artesanato que tem música. E se for uma edição limitada ainda melhor.

Quem é que o ajuda na parte gráfica?
O meu primeiro designer, em Macau, por acaso está agora em Portugal, foi o Henrique Silva e tenho outro designer com quem tenho trabalho nos últimos anos, o Rodrigo Madeira que era designer do Blitz e trabalhava também na Visão e no Expresso e agora divido pelos dois. Tenho um projeto, que vem dos tempos de Macau, e que agora vou dar andamento. Em 1996, organizei pela primeira e última vez um concerto, depois de ter recebido um telefonema do responsável pelo Clube de Jazz de Hong King. A Cesária Évora ia ao Midem e ele arranjou forma de ela ir todas as noites lá tocar, a malta de Macau soube e esgotaram as sete noites. E ele pediu-me para organizar alguma coisa com ela. Liguei para o equivalente ao Ministro da Cultura cá, Coronel António da Costa, e expus-lhe a situação. Ele aceitou e eu tinha uma semana para preparar um concerto da Cesária Évora, mas consegui. Cinco mil pessoas num pavilhão. O concerto não foi gravado porque o manager não deixou, mas eu contratei um fotografo que acompanhou a Cesária desde que chegou a Hong Kong até que se foi embora. Acompanhou tudo, foram 500 slides. Este ano, passam 25 anos desse concerto, e vou editar um livro ‘Cesária Évora em Macau’ que acontece também quando passam 10 anos da sua morte e 80 de vida.

O José Moças tem uma história curiosa em Vila Verde com um alfarrabista…
Eu tenho duas grandes coleções de discos, atrevo-me a dizer as maiores do país. Uma é de discos de grafonola que comecei a colecionar, sem ter essa vontade, em Macau quando descobri, em Londres, os tais discos de fado. E depois, passei na rádio, uma senhora liga-me a dizer que tinha mais uns quantos e que queria desfazer-se deles. Eram discos portugueses com capas chinesas e lembro que os discos de grafonola só têm capas com o nome da editora e mais nada. Quando vim para Portugal, contactei o tal inglês, que tinha 3 mil e tal discos e que depois o Ministério da Cultura comprou por 900 mil euros. Eu queria estar envolvido na pesquisa e investigação eles não me deixaram e eu disse ‘vou-me vingar’ e comecei a procurar discos. Curiosamente, eu nunca vinha à feira de velharias de Vila Verde e, num domingo, achei que tinha de vir. Ando a passear e vejo uns discos, todos portugueses, no chão, eram 42 e custaram-me dois euros e meio cada.
Quando chego a casa, vejo dois discos com uma música, por trás um anjo e a etiqueta dizia Berliner. Vou pesquisar à base de dados do inglês que ele me tinha oferecido e aparece-me a data 00. Faço um scanner dos discos, mando para ele em Inglaterra e ele diz-me que são de 1900 da primeira sessão de gravação feita em Portugal e que nunca tinha visto nenhum. Resumindo: comprei em Vila Verde, por dois euros e meio, dois discos da primeira sessão de gravação, feita em Portugal em novembro de 1900, no Porto, e que até esta essa altura ninguém sabia que existiam gravações com essa data porque até nos folhetos do Museu do Fado vinham que as primeiras gravações eram de 1904. Foi a partir dessa altura que se começou a pensar na candidatura do fado a património.
Descobri depois mais dois desses, em Lisboa, da primeira gravação e dá-me um gozo descobrir coisas. Tenho uma coleção de sete mil discos, só de gravação de música portuguesa entre 1900 e 1950. Dá para fazer a história da música e posso dizer, em exclusivo, que para o ano é possível fazer uma edição da história da música na passagem para comemorar os 30 anos da editora. Eu tenho comprado lotes de discos, mesmo já tendo, mas que me aparecem novos e isso é que é difícil de encontrar.

Projetos futuros que possam ser revelados, para além desse do Zeca Medeiros?
Para muito breve, há uma grande cantora que veio ter comigo porque o editor dela deixou de editar e a pré-venda vai ser em abril e nas lojas em maio. Iniciativas minhas. Uma delas está relacionada com Cabo Verde. O maior nome da música cabo-verdiana foi um senhor chama B.Leza, todos os cantores cabo-verdianos cantam as mornas dele, ele é considerado o pai da morna. Em dezembro de 2019, a morna foi nomeada património imaterial da Humanidade e nessa altura, ficou decido com o coordenador da candidatura e o Ministério fazer qualquer coisa.
O senhor B.Leza nunca gravou e o Paulo Lima, o tal coordenador, disse que queria fazer uma edição. Fui para a net fazer uma pesquisa e descobri discos editados antes do 25 de Abril nos Estados Unidos e na Holanda que davam para fazer uma edição espetacular. No entanto, há uma luz na minha cabeça porque me lembrei que, aqui há uns anos, um casal cabo-verdiano me pediu para digitalizar uns discos e nem vi o que era. Fiz uma pesquisa nos meus emails e eles tinham mandado umas fotografias dos discos, os chamados discos instantâneos ou acetatos que não podem ser regravados.
E o que era aquilo? Nada mais do que as gravações de um senhor muito rico, Tuta Melo, que um dia comprou um gravador e se lembrou de convidar um músico para ir lá cantar a casa. E quem era? O B.Leza, ou seja, vieram-me parar às mãos gravações do maior nome da música de Cabo Verde que nunca gravou. No dia nacional da Morna e dia de nascimento dele vai ser publicado um livro.
Outro projeto é mais um inédito. Aqui há muitos anos havia um delegado da cultura do Norte, em Vila Real, que se reformou, Dr. Jorge Ginja, que me disse que tinha lá uma bobine em casa e tinha que ser eu a editar. Nunca mais andamos com aquilo, até que na feira do livro no Porto, encontro o Dr. Ginja e diz-me que agora é que era e seria o filho a tratar daquilo. Um mês depois ele morre, mas a família estava instruída que teria que ser eu a editar aquilo. Em 1969, na Faculdade de Letras do Porto, havia um estudante que ele gostava muito e levou lá a casa para gravar. E quem era? O Mário Viegas com 19 anos, são as suas primeiras gravações e de 42 há 29 peças que ele nunca mais gravou. É isso que vamos editar em conjunto com a Direção Regional da Cultura do Norte.

A ‘Tradisom’ editou o primeiro disco oficial do Xico Malheiro…
No passado mês de dezembro foi editado o disco, que gostei muito, está bonito, do Xico Malheiro. É uma pessoa de quem gosto muito, somos bons amigos e eu tive o prazer de fazer o primeiro disco dele. Ele está super feliz e estamos a aguardar que as coisas fiquem melhor para que ele vá às televisões. O disco é do Xico, as vendas são do Xico e eu não quero nada. Com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde, pagou-se a edição.
Recentemente, fiz o trabalho de apoio em termos de edição ao Padre Sandro que eu não conhecia e com o qual fiquei muito impressionado pela qualidade do trabalho dele. Excelente cantor, excelente músico, excelente compositor e que eu não fazia ideia de quem era. O disco vai ser posto no mercado e espero que tenha sucesso porque tem qualidade.

Como foi com a pandemia?
No ano passado, a editora fez zero por causa da pandemia. Estive a pensar, a criar, a organizar coisas. Vende-se muito em concertos e no ano passado não houve concertos, foi faturação zero. Este ano, acumularam-se muito projetos e tenho para aí 20 coisas para sair mais para o final do ano, por isso, estou à espera que seja um bom ano.

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