Comandante da polícia secreta de Hitler em Viena espiou para a Alemanha Ocidental

Um comandante sénior da polícia secreta de Hitler, responsável pela deportação de dezenas de milhares de judeus, foi protegido pelas autoridades norte-americanas e alemãs após a II Guerra Mundial.

Segundo registos divulgados recentemente, citado pelo The New York Times, no final da guerra, Franz Josef Huber – que também ocupava o posto de general nas SS, a organização paramilitar nazi – liderava uma das maiores secções da Gestapo, que se espalhava pela Áustria e operava no Oriente.

Em Viena, após a tomada do poder pelos nazis, as suas forças colaboraram estreitamente com Adolf Eichmann nas deportações para campos de concentração e extermínio.

Contudo, enquanto Eichmann acabaria por ser executado pelo seu papel na coordenação do assassinato de milhões de judeus, Huber nunca teve de se esconder.

O oficial nazi passou as últimas décadas da sua vida em Munique, a sua cidade natal, com a sua família e não teve de mudar de nome. A explicação para essa imunidade parece estar na sua utilidade durante os conflitos de espionagem da Guerra Fria.

Documentos da inteligência dos Estados Unidos mostram que havia grande interesse em aceder à rede de Huber para recrutar agentes no bloco soviético.

“Embora não estejamos de forma alguma alheios aos perigos de brincar com um general da Gestapo, também acreditamos, com base nas informações que agora temos, que Huber poderia ser utilizado de forma proveitosa para esta organização”, lê-se num memorando da CIA de 1953.

Os registos revelam que os Estados Unidos e a Alemanha fizeram de tudo para ocultar o papel de Huber nos crimes do regime nazi e impedi-lo de ser julgado.

Huber foi preso pelas forças dos Estados Unidos em 1945 e mantido durante mais de dois anos. Contudo, a inteligência militar norte-americana impediu a sua extradição para a Áustria, onde era um criminoso de guerra procurado, e providenciou para que fosse tratado com clemência pelas autoridades da Alemanha Ocidental.

Foi libertado em 1948 com multa e pena suspensa após um processo de “desnazificação”.

Em 1955, Huber ingressou formalmente na Organização Gehlen, o serviço de inteligência da Alemanha Ocidental criado pelos Estados Unidos como contrapeso aos soviéticos. Não é segredo que esta organização estava cheia de ex-nazis: o seu fundador e líder, Reinhard Gehlen, era o ex-chefe da inteligência militar nazi na Frente Oriental.

“O pano de fundo é que, neste momento da Guerra Fria emergente, as pessoas procuravam anticomunistas duros e, infelizmente, muitas vezes encontram-nos em ex-nazis”, disse Bodo Hechelhammer, historiador oficial do serviço de inteligência alemão BND.

A política não se limitou à Alemanha. Nos Estados Unidos, a CIA, o FBI e outras agências de inteligência recrutaram mais de 1.000 ex-nazi como agentes nos anos que se seguiram à guerra, incluindo figuras como Otto von Bolschwing, um assessor sénior de Eichmann.

Questionado como uma possível testemunha pelos investigadores dos Julgamentos de Nuremberg em 1948, Huber afirmou que nada sabia do Holocausto até 1944.

A verdade é que, em 1938, o nazi deu ordens “para prender imediatamente judeus indesejáveis, particularmente com motivações criminais, e transferi-los para o campo de concentração de Dachau”.

Durante o seu tempo como chefe da Gestapo em Viena e no leste da Áustria, mais de 70 mil judeus do país foram assassinados.

Maria Campos, ZAP //

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