Ninguém sabe do paradeiro dos Evangelhos Garima, um dos maiores tesouros do mundo cristão

Depois de terem sobrevivido a 1.500 anos de história num mosteiro remoto, os Evangelhos Garima enfrentam agora a sua ameaça mais grave.

Um dos maiores tesouros do mundo cristão, guardado durante mais de 1.500 anos no norte da Etiópia, pode não ter sobrevivido à última ameaça.

Os Evangelhos Garima, escritos em pele de cabra e datados de entre 330 e 650 d.C., estão numa área que está sitiada há meses pelos exércitos da Etiópia e da Eritreia. Locais religiosos próximos do mosteiro Abba Garima, em Tigray, foram bombardeados e preciosos artefactos saqueados, pelo que se teme que tenha acontecido o pior a este tesouro.

“É assustador para muitos de nós pensar que estes Evangelhos e outros artefactos antigos estão no caminho do perigo”, disse Suleyman Dost, professor do Departamento de Estudos Judaicos e do Oriente Próximo da Universidade Brandeis, em Massachusetts, citado pelo The Globe and Mail.

“Os Evangelhos Garima não estão apenas entre os primeiros textos completos das escrituras cristãs, como também nos oferecem um raro vislumbre da língua, religião e história da antiga Etiópia”, acrescentou.

O jornal online avança que os Evangelhos Garima, cópias encadernadas e ilustradas dos Quatro Evangelhos do Novo Testamento escritas na língua etíope clássica Ge’ez, são um dos tesouros do antigo reino Axumita, cujo coração está agora engolfado pela zona de guerra em Tigray.

“A guerra ameaça inúmeros vestígios de valor inestimável deste período, incluindo inscrições, edifícios religiosos e manuscritos que foram diligentemente preservados em mosteiros durante séculos”, afirmou Dost.

O reino Axumita, cujos territórios se estendiam pelo Mar Vermelho até ao Iémen, foi um dos grandes impérios culturais e económicos daquele tempo e um dos primeiros estados a aceitar o Cristianismo como religião oficial, no início do século IV, antes mesmo do Império Romano.

A capital, Axum, é conhecida como o lar da Arca da Aliança – outra relíquia sagrada cujo destino é, atualmente, desconhecido.

Os Evangelhos Garima são mais antigos do que os manuscritos ocidentais mais famosos, como o Livro de Kells, e têm um vínculo mais estreito com os evangelhos gregos originais.

Ao matutino, Michael Gervers, historiador da Universidade de Toronto, explicou que “são de extrema importância para a cultura cristã como um todo”. “A sua perda seria desastrosa para a herança cultural judaico-cristã.”

A guerra em Tigray destruiu grande parte da herança religiosa e cultural da Etiópia, mais até do que as invasões de Ahmad ibn Ibrahim al-Ghazi, que queimou igrejas e manuscritos em todo o país no século XVI.

O historiador e os seus colegas estão atentos aos mercados de antiguidades, caso alguém tente vender os manuscritos. “Seria uma ofensa ao Cristianismo se os Evangelhos Garima acabassem à venda”, afirmou, acrescentando que há ainda a possibilidade de os soldados terem queimados os manuscritos “por despeito”.

Até agora, porém, o seu paradeiro é um mistério.

Liliana Malainho, ZAP //

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