Nahla al-Othman, de seis anos, morreu no início de maio, num campo de deslocados na Síria. Para impedir que vagueasse no acampamento, o pai costumava acorrentá-la e prendê-la numa jaula. E foi com correntes nas mãos que a menina foi fotografada meses antes de morrer.
Amorte de Nahla al-Othman, de seis anos, foi noticiada pela imprensa síria no passado dia 6 de maio e é agora contada pelo New York Times.
A menina, que vivia num acampamento de refugiados de Faraj Allah, na província de Idlib, na Síria, morreu na sequência de uma hepatite, fome e sede.
Nahla al-Othman viva no acampamento com o pai – divorciado da mãe – os irmãos e a madrasta. Para impedir que a criança andasse pelo acampamento, o pai decidiu acorrentá-la e prendê-la numa jaula. E assim ‘viveu’ a menina os seus últimos tempos até o seu corpo não resistir mais à fome, à sede e às doenças decorrentes das condições de vida desumanas a que foi sujeita.
Hisham Ali Omar, supervisor do acampamento, contou que o pai da menina costumava acorrentar-lhe os pés ou as mãos para impedir que dali saísse. “Pedimos-lhe mais do que uma vez para a soltar e para não a meter numa jaula, mas recusou constantemente”, disse.
A morte trágica da menina gerou uma onda de indignação nas redes sociais e a fotografia, captada meses antes, tornou-se viral, chamando a atenção para o sofrimento de milhões de crianças forçadas a deixar suas casas durante a guerra e a viver em acampamentos espalhados (e esquecidos) pelo norte da Síria.
Para escapar à violência da guerra que dura há uma década, os deslocados vivem em acampamentos sem condições mínimas de higiene, sem assistência médica, educação, e bens alimentares, enfrentando uma luta diária para sobreviver. “Estamos a falar de crianças que nascem em tendas, que se tornam um perigo após as primeiras chuvas”, alertou Ahmad Bayram, do grupo Save the Children. Em suma: estas pessoas “já se esqueceram como é a vida normal”.
Mais de 10 mil crianças morreram ou foram feridas durante os 10 anos da guerra na Síria, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
“Passados 10 anos do início do conflito sírio, existem hoje seis milhões de crianças que precisam de ajuda. Muitas nasceram já em contexto de guerra e a única realidade que conhecem é a do conflito, da perda e das deslocações constantes”, salientou a agência da ONU em março, adiantando que a pandemia da Covid-19 agravou ainda mais a situação das crianças sírias.
