“Regressar a Amares traz-me muita inspiração e traz-me a família”

Francisco Barbosa é um músico do mundo. Natural de Amares, assume a paixão pela flauta desde pequeno, quando, sentado num banquinho assistia aos ensaios da Banda Filarmónica de Amares ‘encostado’ aos flautistas. Depois da formação superior, andou pelo bando em audições e a tocar em vários locais. Hoje, está estabilizado como primeiro flautista numa Orquestra em Budapeste.

Na sua passagem por Amares, no âmbito do ‘Encontrarte’, conversou com o ‘Terras do Homem’, na pedreira da Senhora da Paz, local onde apresentou a sua performance. Uma conversa com olhos postos no mundo, nos discos e no ensino.

Sente-se verdadeiramente músico há quanto tempo?
Começamos com uma pergunta difícil… Em primeiro lugar, é uma questão muito complexa porque, verdadeiramente, músico é toda a gente que toca um instrumento, que canta, que produz música. Por exemplo, eu comecei com aulas particulares com o professor José Matos, em Braga, mas estive aqui na Banda Filarmónica de Amares onde haviam muitos senhores amadores a tocarem que não deixam de ser verdadeiramente músicos. Criam música com paixão, com entrega. Agora aquele gatilho de querer ser… eu nunca tive um clique muito grande. A passagem do meu 9º para o 10º ano, levou-me a mudar-me de Braga para Guimarães para estudar na Academia de Música de lá, e foi aí, apesar de desde que comecei a tocar flauta dizer que era isto que queria fazer, que o meu professor me mostrou que é isto que tu consegues fazer pelo mundo fora. Foi essa confiança, a do se trabalhares muito é possível, até porque eu até aí não pensava numa carreira fora do país, que me fez pensar que ‘posso fazer isto mais a sério”.
Agora, a partir da altura em que alguém que produz música com alegria, com paixão, é verdadeiramente músico.

A flauta sempre foi a sua primeira opção?
Foi a minha primeira opção devido a um facto curioso. O meu irmão tocava clarinete na banda de Amares e muitas vezes eu ia, à noite, com ele assistir aos ensaios e gostava muito de ouvir o som da flauta. O meu irmão permitia-me, porque tocava na banda, sentar com um banquinho pequeno ao lado dos flautistas, a ouvir o ensaio dentro da formação da banda, e foi o estar neste contato associado ao gostar que me fez enveredar pela flauta. Nunca toquei outro instrumento, embora muito cedo, o meu irmão me tenha ensinado em casa formação musical, a tocar um pouco de piano, quando foi para pegar num instrumento, aos seis/sete anitos, foi este.

Para um miúdo de seis, sete anos deve ter sido difícil tocar flauta…
Depende. O choque, o mais difícil deve ter sido para os meus pais por ter apostado na flauta, mas sempre me apoiaram: ‘queres uma flauta, queres seguir isto, então toma lá a flauta e é para levares a sério’. Curiosamente, o flautista que ouvia na banda, o Rui Borges Maia, passado para aí uns 15 anos, voltei a reencontrar-me com ele porque fui estudar para Madrid para a escola onde ele tinha estudado, foi uma pessoa que me ajudou muito, a dar o salto para estudar para fora. E eu só reparei que era a mesma pessoa que ouvi na banda e querer fazer aquilo passado muitos anos.

Como surgiu essa oportunidade de “ir para o Mundo”?
Por muita vontade própria. Quando terminei a minha licenciatura, queria procurar opções fora porque queria começar a minha carreira em orquestra e em Portugal não há muitas oportunidades para isso. Percebi que tinha que procurar fora, queria ter outro professor fora, com outras ideias, num país com um desenvolvimento cultural maior porque isso é importante: optar por um excelente professor e uma excelente escola até porque o nível dos colegas de classe puxa para a evolução, mas também, ter um bom polo cultural que permita ouvir bons concertos. Esta oportunidade surge, depois de ouvir o Rui Borges Maia, e acompanhando o trabalho de um professor, deliciei-me e fui para fora. Depois com o ritmo de fazer audições de orquestras lá fora não me via a voltar para cá e acabei por encontrar o meu lugar, para já.

Andar atrás de audições de orquestras, e as pessoas não têm noção disso, é um trabalho árduo muito difícil…
É difícil não só em termos de trabalho físico porque despendemos muitas horas de trabalho diário com a flauta, mas emocional e psicologicamente é preciso ser forte. É muito complicado fazer uma preparação para uma audição de orquestra, onde há uma data de solos, de reportório que tem que ser tocado e por eliminatórias onde as pessoas tocam dois, três, dez minutos depende das circunstâncias, e isto é muito pouco tempo para mostrares o melhor que podes fazer. É muito difícil para um júri perceber em dois minutos que é ‘este’, logo, para nós, também é muito difícil mostrarmos tudo o que queremos. Em termos físicos é muito exigente, exige estar sempre ao nosso melhor nível, exige estudar sete, oito, nove horas diárias e, depois, em termos emocionais é um lado que pesa muito porque estudas durante uns meses, chegas, corre mal nos três primeiros segundos e mandam-te embora, isto emocionalmente é pesado e é normal que as pessoas vão abaixo.
É verdade que não é fácil, mas também quero dizer que não é impossível. Quando estava em Portugal achava que era impossível. O mais importante é perceber que há beleza no erro, no falhar. Nas primeiras audições quando me mandavam embora, em que saia na primeira eliminatória, em vez de ir abaixo emocionalmente, tentava perceber o que levo daqui de bagagem artística, o que aprendi para crescer para a audição seguinte.

Tem algum momento de desânimo que lhe custou muito?
As minhas duas/três primeiras provas de orquestra foram bastante desanimadoras.

Estamos a falar de provas para que orquestras?
As provas foram na Bélgica, na Hungria e em França, julgo eu. Nessa altura, tive a sorte de ter colegas, também, a fazerem as provas e apoiávamo-nos uns aos outros. É desanimador porque nós queremos sempre fazer mais e tu, todos os dias, trabalhas para estares na melhor forma, tentas e não sai, e isso pode levar a que desanimes. Há pessoas que fazem 10/15 provas e não conseguem. E nem precisam de ser provas porque, há dias, que uma pessoa está em casa a estudar e desanima porque não está a sair. Eu dei concertos com a minha orquestra, este ano, não é que tenham corrido mal, mas saí desanimado, queria ter feito mais ou diferente. O mais importante para mim, para contrariar esta tendência, é pensar no que levo daqui como aprendizagem para a próxima audição.

E houve alguma audição que lhe encheu as medidas e até abriu algumas portas?
Eu tenho duas e curiosamente nenhuma delas é a audição na orquestra onde estou atualmente porque as primeira e segunda rondas não me encheram as medidas, já a final por estar mais confiante foi diferente. A audição que até hoje me encheu as medidas, curiosamente, eu ia receoso sobre o que iria sair dali, foi quando terminei a minha licenciatura e decidi fazer provas de mestrado na Julliard’s School, em Nova Iorque. Primeiro mandei um CD, passei e na prova presencial, apesar de estar normal, senti-me como um peixe na água, estava contente, parecia que estava no palco a tocar um concerto e esse lado deve ter contado para o júri porque consegui o lugar. Quando sai da prova, vinha com a sensação que voltava lá para dentro para tocar mais um bocadinho.

Uma das particularidades de um músico é que anda por várias escolas e o Francisco quase que percorreu o ‘mundo’ todo
Um músico não é simplesmente um ‘tocador’, há todo um processo de aprendizagem cultural, de maturidade que é importante. Ninguém se vai fazer músico estando 10/12 horas a tocar para uma parede em casa, é muito importante viver, ouvir música. Uma das coisas que me deparo muito nas masterclasses que dou é que se ouve muita pouca música, e não é ir ao Youtube, é ouvir CD’s. Ouvir boas gravações é muito importante, ler, ouvir concertos, viajar e este lado da maturidade passa para o lado da música. 10 horas a tocar em casa vamos com certeza crescer, mas falta o outro lado porque é muito importante. Há pessoas que acham piada, mas eu, ainda hoje, mesmo não estando no meu percurso académico não paro de crescer. Procuro, de dois em dois meses, marcar uma aula com um professor; às vezes, toco para colegas meus da orquestra porque há sempre coisas que podem ser melhoradas.

Como é que chegou a primeiro flauta da Orquestra de Budapeste?
Pelo processo de audição e foi curioso. As provas eram em setembro e eu costumava dar uma masterclasse em Málaga por aquela altura, em finais de agosto. Um colega que toca na Orquestra da Ópera estatal húngara disse-me que tinha aberto um lugar e era um sítio bom para ir fazer a prova. Na altura, como estava com algum trabalho, achei que não ia conseguir preparar a audição. Foi muito bom ter aceite o desafio porque ele puxou por mim, até porque com a agenda apertada não me ia conseguir preparar, ele foi muito motivador. Dava aulas na masterclasse das 09h00 até às 17h00, comia alguma coisa e ficava lá até às 21h00 a estudar para preparar a prova. Foi mesmo muito exigente, com ensaios e concertos e ainda tinha que preparar as provas de orquestra, mas no final, correu tudo bem. Mas não me volto a meter noutra.

Em termos práticos, o que é isso de ser o primeiro flautista de uma orquestra?
Todos os músicos que estão na orquestra são profissionais, sejam eles o que forem. Dependendo da orquestra e nós como somos uma orquestra de câmara mais pequena, temos duas pessoas por lugar. Como eu tenho uma colega que toca ‘primeiro’ na orquestra e temos uma relação espetacular, permite fazer metade do mês cada um, escolher as semanas que nos são melhores e permite-me ter o meu outro lado, mais a solo, ter aulas, procurar outras coisas como ouvir outros concertos ou viajar que é um lado que completa o meu trabalho.

Há quanto tempo está nessa orquestra?
Vai fazer em setembro três anos.

Como está a ser a experiência?
Muito boa porque aprendo imenso com os meus colegas de orquestra, cresci imenso a tocar em conjunto, era uma coisa que queria fazer desde muito novo e ao mesmo tempo, há um ambiente espetacular que me permite ser ‘dispensado’ algumas semanas para ir tocar a outros sítios, como os Estados Unidos. Acima de tudo, o que tenho de melhor e é fundamental é o quanto aprendo, o quanto me corrigem, me ajudam, de todas as noites de concerto saio com algo novo.

Tem a ambição de mudar de sítio ou esse será o seu último lugar?
O último lugar não posso dizer que é porque não sabemos o dia de amanhã. Gostaria de estar em Budapeste mais tempo, mas tenho outros objetivos. Quero ter outras experiências de tocar noutras orquestras. Mas, atualmente e porque me permite alguma liberdade, este lugar é fundamental para algo que quero fazer já, que é dar aulas. Surgiram-me algumas propostas de dar aulas no ensino superior e é uma coisa que estou a avaliar. O dar aulas leva-me a questionar o meu trabalho, a perceber onde posso evoluir.
Há um exemplo muito engraçado, o ano passado, numa masterclasse que dei em Braga, no Nogueira da Silva. Surgiu uma aluna a tocar a Quinta Fantasia de Telemann e eu estava a começar a preparar as ‘Doze Fantasias’ de Telemann para o CD que gravei em Madrid. Não estava a conseguir encontrar uma forma de ornamentar que fosse simples, que fosse de acordo com o estilo barroco, algo não me estava a agradar. Curiosamente, depois de a ouvir tocar de forma simples e com os ornamentos dela, eu cheguei a casa e consegui alterar os meus para uma forma mais simples e ficou assim no CD. Quem me inspirou foi uma aluna a quem estava a dar uma aula, e por isso, tenho a certeza que dar aulas me vai ajudar muito.

Vem muitas vezes a Portugal?
Venho quando vou dar algum curso. Por acaso, tenho tido a sorte de nos dois/três últimos anos dar duas ou três masterclasses em Portugal. E aproveito para tentar agendar um ou dois dias para estar com a família.

E a Amares regressa quando pode?
Sim, sempre que tenho férias ou venho dar um curso tento ficar, ou antes ou depois, mais dois ou três dias. É o outro lado de que vimos falando e que vai para lá do tocar. É muito importante para qualquer artista este contacto com a família.

O que lhe dá Amares hoje?
Muita inspiração como, por exemplo, este local onde estamos (n.r. pedreira da Senhora da Paz). Por acaso, quando gravei o CD não tive oportunidade de fazer aquilo que queria que era estar duas semanas em Amares porque é uma tranquilidade muito maior para estudar. Amares traz-me a família, volta-se a casa com alma e coração cheio e isso ajuda-me muito no trabalho. Muitas vezes, venho para estudar e trabalhar, mas é diferente. Aqui acompanho o crescimento dos meus sobrinhos. Eu tenho um afilhado com três anos que vi três/quatro vezes, não acompanho o seu crescimento e é difícil.
Vejo muitas pessoas a dizerem, ‘tu estás fora, tu é que estás bem’, mas as pessoas esquecem-se do lado pessoal, para além do profissional, que é estar perto da família. Tenho colegas meus que o pai adoeceu, não podem vir a Portugal e ficam num stress… Não estou o tempo que gostaria de estar com o meu pai ou o meu irmão, é um sacrifício em prol da minha carreira artística.

Depois das ‘Fantasias’ tem mais algum projeto discográfico em vista?
Para já, ainda não. O CD vai ser lançado em breve, o nosso CD dos ‘Quartetos de Mozart?’ vai se lançado em versão estúdio. No próximo ano, há o desafio de gravarmos os concertos de Vivaldi, mas vamos ver se é possível.

Qual é a obra que lhe enche as medidas a tocar?
Em termos orquestrais é a ‘Oitava Sinfonia’ de Vorjakes, mesmo tendo que destacar só uma. A flauta tem um solo importante no último andamento e um destaque no primeiro, mas é pelo contexto que me deixa fascinado. Eu poderia escolher uma qualquer obra onde a flauta fosse preponderante, mas esta sinfonia marcou-me muito na primeira vez que a toquei, até porque há um lado camarístico, de orquestra que a mim me enche as medidas.

Faz exercício para manter a forma física necessária a quem está numa orquestra?
Sim, sempre que posso. Eu não sou apologista de ginásios, música muito alta, muita gente, eu prefiro ir correr, não só pelo exercício físico em si, mas também pelo exercício mental, para libertar alguma coisa que corre menos bem. Faço bastante alongamentos nos braços, massajar os maxilares e a cara porque isso é fundamental para todos os instrumentistas.

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