Cartas a um amigo que lê jornais#11

Amigo, toma atenção ao que vou escrever.

É uma história verdadeira, de uma ingratidão sem limites. Com efeito, no ano de 1950 um ‘puto’ de 13 anos arriscou levar uma tremenda tareia, caso fosse descoberta a boa ação que praticara.

Um miúdo cresceu em brincadeiras com os filhos da ‘Quinta da Cadeia’. Aos 11 ou 12 anos foi aprender a arte de alfaiate na oficina de seu primo Artur, ao que dedicou toda a sua inteligência e aplicação, com muito bons resultados na aprendizagem do oficio. Aplicou-se de tal modo em aprender que, em pouco tempo, o primo já lhe confiava os acabamentos na obra que ele cortava.

Um certo dia, a mais conceituada alfaiataria da sede do concelho de Vila Vede, fez uma proposta de emprego ao Augusto. Depois disso, uma manhã saiu para o trabalho, encontrou-se com o seu amigo de muitos anos – o Zeca da Cadeia – em frente do portão de entrada da Quinta da Cadeia e aí mesmo deu-lhe a notícia da proposta que recebera.

O amigo regozijou de alegria e exclamou: “Bravo amigo… estou contente e satisfeito por saber que o teu nome já é falado e até já és contratado muito mais acima do lugarejo apagado onde trabalhavas”.

O Augusto, de olhos esbugalhados, ripostou:

– Zeca eu não posso aceitar esta proposta!

– O que dizes Gusto? Vais perder a primeira oportunidade que te estão a oferecer para seres um potencial artista? Exclamou o da ‘Cadeia’.

– Não posso aceitar! Tenho vergonha de me apresentar na Vila assim vestido….

Augusto tinha sobre a pele uma fina camisa, coberta por um casaco de cotim já muito curto, cujas magas, muito apertadas e curtas, davam a entender que ao seu irmão mais novo o casaco, certamente, assentar-lhe-ia muito melhor.

O da ‘Cadeia’, represo e triste, deu uma palmada na testa ao mesmo tempo que dizia ao amigo:

– Espera aqui um pouco. Vou a casa e já volto!

Dizendo isto, abriu o portão e correndo alameda acima desapareceu na escadaria da entrada principal da residência.

Passados alguns minutos, apareceu segurando nos braços algumas peças de vestuário.

Chegando junto do amigo, disse-lhe:

– Já esta feito… vamos andando… saiamos daqui… vamos embora!!

Os dois caminharam até às alminhas, que estão colocadas no muro do ultimo leirão da quinta, onde encobertos pelo nicho não podiam ser vistos da residência do da ‘Cadeia’.

O da ‘Cadeia’ entregou nesse local ao Augusto um casaco em muito bom estado, uma camisa e embrulhados no casaco ia um par de sapatos. Tudo isto, vestuário e calçado, que o Zeca da Cadeia ainda usava. Posto isto, Zeca e Augusto seguiram estrada de macadame abaixo.

E agora, tendo por testemunhas os pinheiros das bouças e os carvalhos da berma da estrada, Augusto vestiu a camisa sobre a que tinha vestida e depois o casaco, tirou as chancas que escondeu entre o mato e calçou os sapatos. Olhando-se, não cabia em si de contente. Exclamou:

– Obrigado Zeca…. continuas com o mesmo coração de quando éramos pequeninitos… agora já poço aceitar a proposta do Luciano e ajudar a minha querida mãe….

O da ‘Cadeia’ olhou o amigo Augusto e foi dizendo:

– Folgo imenso por te ver satisfeito e feliz, pronto a ajudares tua mãe e teres o caminho aberto para seres um bom alfaiate. Porém, recomendo-te que faças cuidado. Minhas irmãs não podem saber o que te dei… procura que elas não vejam em ti vestido, pelo menos enquanto eu não for para a cidade do Porto, o que está para breve. Duvido que elas escondam de meus pais o que te acabo de dar, se o fizessem eu levaria uma grande tareia e, como sabes, meu pai e minha mãe não são ‘pecos’ em me dar porrada…

A Rosinha Padeira era a mãe do Augusto. Ficara viúva muito cedo, com filhos para acabar de criar. Seu único rendimento era os magros escudos tirados da canastra do pão de trigo, que todos os dias de madrugada, ainda com as estrelas no céu, carregava desde Vila Verde por essas aldeias fora, sabe-se lá até onde….

O que Augusto passasse a dar para casa, que não seria muito certamente, aliviaria o sofrimento de sua mãe.

Eu, meses depois do episódio descrito, foi trabalhar para a cidade do Porto. Perdi o contacto com o meu amigo de criança, por meu pai ter vendido a ‘Quinta da Cadeia’ e a casa onde nasci. Foi um desgosto tremendo que eu senti. Casei-me naquela cidade e aí me nasceu a primeira filha. As visitas feitas a Vila Verde eram agora escassas. Em junho do ano de 1962 embarquei para Angola, onde permaneci 13 anos. Augusto já não estava nas minhas relações de amizade.

Após 13 anos de ausência em África, no ano de 1975, com a descolonização, regressei a Vila Verde. Soube então que o Augusto casara com a filha do proprietário da alfaiataria. Abandonara a profissão de alfaiate, que trocou por um emprego na E.D.P.

Certo dia, estava ele acompanhado pelo Aparício do veterinário, no café do Faria, onde eu também entrei. Pedi ao Sr. Faria um café e, enquanto este me tirava o café, retirei do bolso a carteira e abrindo-a verifiquei que dentro dela só existia uma única nota, a última que me restava depois da descolonização.

Bebi o café. Antes, porém, entreguei a nota de mil escudos ao Sr. Faria, que me disse:

– Zeca, não tenho ainda troco, pagas amanhã.

Foi então que ouvi o seguinte comentário:

– Não compreendo… estes retornados puxão por uma nota de um ‘conto de reis’ como nós puxamos por uma de vinte….

Conheci a voz e sem nada dizer saí para entrar na porta ao lado. Pedi à ‘Jú’ para fazer o favor de me trocar a nota de mil, ao que a boa rapariga acedeu. Voltei ao café, entrei e paguei o café que tomara antes. Feita esta operação, antes de sair foi à mesa onde estavam sentados Augusto e o Aparício. Eu apenas disse:

– Gusto, como vês, Deus nunca faltou a quem prometeu. Porém, ele sempre faltará, certamente, a todo aquele que paga com ingratidão o bem que se lhe faz…

Augusto morreu poucos anos depois deste pouco recomendável reencontro.

Alguns anos depois, um filho do Augusto que sempre estimei e continuo a estimar, tentou brincar comigo menos corretamente. Levei-o a sentar-se comigo no muro que está em frente do salão de chá do Centro Comercial.

Contei-lhe a história, ele compreendeu que esta vai com mesmo sentido da que fica narrada… que não sendo igual à que fica narrada levava ao mesmo sentido.

O miúdo pediu-me humildemente desculpa e passou a respeitar-me verdadeiramente.

Serra Nevada [Escritor]

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