“Nestes quatro anos, não senti a tão falada coesão territorial”

Quatro anos depois, o presidente da Câmara de Terras de Bouro faz “um balanço positivo” do primeiro mandato. Um mandato “com muito trabalho”, com “alguns erros”, mas com “um sentimento de dever cumprido”. Se a gestão de recursos humanos foi a parte mais difícil, hoje, “já todos vestem a camisola de Terras de Bouro”, começando nos autarcas, passando nos funcionários municipais e acabando na população. A habitação, o emprego e a qualidade de vida são as prioridades para o próximo mandato.

Como foram estes primeiros quatro anos de mandato?
Foram quatro anos de muito trabalho. Terras de Bouro vinha de um período pós-crise, onde o nosso foco, no início do mandato, foi a realização de muitos projetos, alguns em fase de conclusão, outros concluídos e outros a iniciar, aproveitando uma das formas que temos desenvolvido que é recorrer aos fundos comunitários. Esse trabalho desde início foi muito laborioso, mas está a surtir efeitos.
Havia ainda a questão das relações humanas, mesmo em termos dos próprios funcionários, e da atividade que nós queríamos exercer enquanto executivo municipal, com uma visão diferente e foi, para isso, na altura, que nos disponibilizamos para sermos candidatos, acho que acabamos por conseguir. Não fizemos tudo, como é lógico, bem feito, mas o resultado final deixa-nos a todos bastante satisfeitos e com uma perspetiva de futuro, uma vez que sabemos que das quatro candidaturas à Câmara Municipal somos a única candidatura que sabe bem a dinâmica do município, aquilo que queremos e aquilo que queremos atingir caso seja essa a vontade dos terrabourenses.
Há um pormenor que eu acho que é bastante importante que passa pela relação entre todas as instituições, mas destacando aquela que foi criada, de trabalho e mútua parceria, com as juntas de freguesia e que acabou por facilitar o nosso trabalho. Reconhecidamente, enquanto presidente da Câmara da minha terra, no primeiro mandato, sei perfeitamente que só através do trabalho poderíamos atingir alguns dos resultados. Olhando para trás, não tivemos dias fáceis, meses fáceis e anos fáceis, mas também já sabíamos que seria assim.

Houve dificuldades ‘inesperadas’? Quais?
Tivemos imensas dificuldades. No processo, por exemplo, de relações humanas que tinha a ver com o PREPAV, a regularização dos recibos verdes, com a visão que tínhamos em termos de funcionários municipais e o que era necessário para que a Câmara prestasse um serviço de grande proximidade aos munícipes de Terras de Bouro para ajudar a resolver alguns problemas das nossas vidas, nesse sentido e reconhecidamente, existiram alguns problemas. Tudo o resto, é a dinâmica que tem uma câmara municipal e sabemos que é como as estações do ano, umas vezes está sol noutras está a chover.

Quais foram as prioridades deste mandato?
As nossas prioridades passavam por criar condições, primeiro, para podermos gerir a Câmara Municipal e os seus recursos humanos, podermos dar à população uma visão diferente da gestão autárquica e depois dizendo, abertamente, que viemos para trabalhar e com perspetivas de futuro para concelho, situação muito difícil num concelho como o nosso. Nós temos muitas condicionantes e isso limita o nosso trabalho. Se não tivéssemos tantas limitações em termos de PDM, de Plano da Albufeira da Caniçada e do Parque Nacional, certamente, teríamos atingido muitos melhores resultados. Estou certo, muito breve, essas condicionantes podem ser amenizadas, isto é, podemos ir resolvendo algumas e colocar, de uma vez por todas, o concelho na senda do desenvolvimento onde o emprego, a habitação e a qualidade de vida com o saneamento, a água e as acessibilidades sejam efetivos, criando um sentimento de confiança.

Há alguma obra que tenha realizado que queira destacar?
Nós fizemos muitas dentro do que poderíamos fazer. Destaco uma pelo imenso trabalho que ela deu que é a requalificação a estrada da Ermida. Não é a requalificação de uma estrada em si, mas sim o que ela representa: é uma obra que representa o desenvolvimento de um lugar da freguesia de Vilar da Veiga, a Ermida, que há tantos anos era ansiada e em cima da mesa estavam todas as condicionantes para que pudéssemos desistir logo à primeira. Não foi assim, até porque ela está a ser realizada e dentro de dois meses está concluída, mas deu muito trabalho. Além da realização do projeto e da contração de um empréstimo para a realizar, tivemos os pareceres pelos quais tivemos que lutar muito para poder realizar a obra.
De resto, foi um investimento mesmo e não uma carga financeira, na realização de muitos projetos. Tenho esperança que no novo quadro comunitário, a bazuca, que concelhos como os de Terras de Bouro possam beneficiar da coesão territorial que eu não senti nestes quatro anos. Querem que Terras de Bouro vá buscar fundos como vai Braga ou Barcelos e isto não pode ser. Nós temos que ir buscar os fundos que nos fazem falta para resolvermos os nossos problemas, por exemplo, infraestruturas básicas, e muitas vezes, os fundos tratam-nos como se tudo estivesse resolvido e não está. Tenho esperança que, num futuro muito breve, também, isto possa ser resolvido.
Destaco ainda a requalificação das escolas, a ecovia, as acessibilidades, o muito saneamento e trabalho na água e a proximidade que tivemos com todas as instituições. Com o reforço da parceria entre o Município e a sua população, entidades e instituições fomos conseguindo efetuar o nosso trabalho, destacando o trabalho social das IPSS onde fomos um parceiro enorme e onde se estão a fazer elevados investimentos que continuaremos.

Há quatro anos, quando tomou posse, falou da necessidade de se ‘vestir a camisola’ de Terras de Bouro. Esse objetivo foi conseguido? É necessário fazer mais?
Esse objetivo de vestirmos a camisola todos, sejam autarcas sejam funcionários municipais seja a própria população foi conseguido. Acho que a envolvência entre a defesa do nome de Terras de Bouro e de trabalhar para o concelho é notório. Isso deixa-me muito satisfeito porque tive muito trabalho dizendo que é preciso dar, todos, mais um bocado por esta terra que também nos trata e nos acolhe. Só todos juntos e unidos é que conseguimos trazer para o concelho desenvolvimento. Deixe-me acrescentar o voluntariado junto das instituições importante neste vestir da camisola. No fundo, é termos orgulho nas nossas freguesias, nas nossas instituições e no nosso concelho. Acho que consegui, dentro do expetável, passar a mensagem, primeiro internamente, e depois externamente que Terras do Bouro é um concelho do Minho, do Norte e do país e que muitas vezes somos um pouco esquecidos e teremos que ser nós terrabourenses a combater isso.

Que espera dos próximos anos? Onde vai focar as suas atenções?
No emprego, a questão da habitação e a educação. Nós sabemos que com os Censos tivemos perda de população, mas para aumentar a população tem que haver criação de riqueza, postos de trabalho, porque sem eles torna-se difícil até em termos de apoio à natalidade. Foi feito um trabalho enorme para criar condições nas lugares e freguesias. Agora, com a transição digital, com a fibra ótica a estar perto dos 90% de cobertura no concelho, vai ajudar a nova geração mais vocacionada para o teletrabalho, um concelho como o nosso com esta paisagem, com este ambiente, com esta qualidade de vida, acaba por ter um desfecho positivo.
Na habitação, com a recuperação de casas, criando melhores condições. Deparei-me que há pessoas que vivem em condições muito más. A Câmara fez o maior investimento de todos os tempos, através do nosso orçamento, no apoio a pessoas carenciados através do projeto ‘Habitação Condigna’.
Na questão da educação, a autarquia apoiou em tudo o que o Agrupamento de Escolas precisou, com as bolsas de mérito, com as bolsas para o ensino superior. Há um pormenor importante, que foi a criação de um regulamento de regalias para benefício ao voluntariado, seja para os bombeiros seja para a Cruz Vermelha e as pessoas já estão a usufruir dele e a pandemia não deixou ir mais além. E dar ainda esta nota: a pandemia atrofiou um pouco os nossos planos e nós desde a primeira hora estivemos ao lado de todas as instituições e da população.
Portanto, resumindo, o emprego, a habitação, a qualidade de vida são as grandes prioridades e por fim, um concelho do interior como o nosso que não tenha umas boas acessibilidades, é um concelho que está sempre mais distante. Sabemos que o que podemos fazer é o que temos feito: colocar na ordem do dia as nossas necessidades, mas é uma decisão do Governo e iremos continuar a chamar os governantes, independentemente do partido, a Terras de Bouro para terem mais contacto com esta realidade.

Os Censos não foram, particularmente, simpáticos para Terras de Bouro. Como se pode inverter essa tendência, até porque é uma das principais críticas da oposição?
Estamos a rever o PDM e podemos criar áreas de construção, seja empresarial seja habitacional, para que as pessoas não saiam de Terras de Bouro como saíram nos anos 80. Percebemos que num concelho em rede Natura, em RAN é um problema.
Em relação aos Censos, o país perdeu todo população e concelhos como o nosso perderam população. Onde é que aumentou? Nas grandes cidades onde há quase todas as grandes condições. Acho que Terras de Bouro está criar, paulatinamente, as condições para que as pessoas possam regressar.
Recordo que há mais de 30 anos que a perda de população foi muito maior. E dar nota que os casais têm menos filhos do que tinham antigamente. Hoje em dia, a questão de ter filhos é muito cara porque criamos uma sociedade consumista e o dinheiro não chega para tudo e quando há falha de emprego maior o problema se torna. Estou convencido que Terras de Bouro pode vir a perder população, mas posso prometer o meu empenho para que nos próximos Censos a realidade seja diferente e eu acredito que será.

Como encara os seus adversários à corrida municipal?
Encaro, precisamente, como adversários. A verdade é que cada um tem a sua visão estratégica para o concelho e eu isso respeito, nada mais do que isso.

Fala-se nas redes sociais de um ‘forte’ incremento do número de funcionários municipais. Qual é a atual situação do Município nesta matéria e como responde a estas críticas?
As críticas não fazem sentido nenhum porque honestamente são críticas feitas por quem nunca geriu coisa nenhuma. Tenho ao longo da minha vida alguma experiência em gerir recursos humanos e atividades económicas, seja através da presidência da Associação Humanitária dos Bombeiros de Terras de Bouro seja através da minha vida particular. Sei que os recursos humanos são a parte mais importante de qualquer atividade e na Câmara Municipal não é diferente. No meu entender, a pirâmide dos funcionários estava invertida, isto é, a parte operacional para resolver muitas das situações dos terrabourenses estava descurada por força de gestão, de condições, por falta de recursos.
A verdade é que, para além da regularização que estamos a fazer dos precários, também era necessário reforçar os operacionais para prestarmos um serviço. Passados quatro anos, alguém coloca em questão o trabalho que a Câmara tem feito? As pessoas dizem, o orçamento é o mesmo, conseguimos manter os funcionários, metemos mais e regularizamos os precários, isto é o quê? É gestão. Por exemplo, a Câmara tinha uma máquina retroescavadora, mas não tinha maquinista, a Câmara teve em tempos um carpinteiro e deixou de ter, a Câmara tem canalizadores com uma determinada idade e que é preciso substituí-los, mas não na hora em que vão para a aposentação para que a máquina seja dinâmica e oleada.
Em termos políticos, até entendo que se pegue na questão dos contratos de emprego-inserção, que muitas outras instituições também os fazem, mas aquilo não são todos funcionários da Câmara. O que nos comprometemos nestes anos foi indo reforçar de operacionais os quadros municipais para resolver os problemas que temos em mão.
Recordo que nós renovamos o parque de viaturas do Município de Terras de Bouro. Quem é que se lembra que há quatro anos as carrinhas e os veículos estavam todos obsoletos? Isto é preciso ser dito. Fizemos um esforço, através de um empréstimo, para equipar a Câmara de condições e se hoje tem é fruto do trabalho e da gestão. Nós estamos de consciência tranquila do trabalho que fizemos e superamos muitas dessas dificuldades com que nos fomos deparando, com coragem. Correu tudo bem? Provavelmente não, mas o saldo é extremamente positivo e eu sinto-me muito honrado por ocupar esta cadeira e pelo trabalho que fiz.

Também se comenta a questão financeira do Município. Como estão as contas?
Ainda bem que me faz esta pergunta. A Câmara Municipal a 31 de dezembro de 2020 tem uma divida menor do que quando cá cheguei em 2017, com este trabalho todo feito. O que pode vir a acontecer é que, provavelmente, em dois anos a dívida pode aumentar, mas é um aumento muito ténue. A Câmara Municipal é auditada. E há um esclarecimento a fazer: a Câmara Municipal não contraiu nenhum empréstimo para pagar dívida, e se há quem diga isso não percebe nada de nada. A Câmara contrata um empréstimo para fazer obra e só pode gastar o dinheiro nessa obra em concreto, isto tem a chancela do Tribunal de Contas, isto não é conversa de café, é transparente, tem o crivo de várias instituições públicas, da Câmara Municipal e da Assembleia Municipal. Portanto, em termos de endividamento, a dívida é menor do que quando cá cheguei.

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