Coronavírus: há 21 mil anos a causar pandemias

Os coronavírus só foram identificados como distintos dos vírus da gripe nos anos 60 do século passado, e neste houve apenas duas pandemias de coronavírus — MERS e SARS — registadas antes da atual, mas há uma razão para a covid se chamar 19. Já houve muitas mais do que as que conhecemos.

Os vírus são fiéis darwinistas. Evoluem e adaptam-se, deixando a cargo das adaptações marginais que sobrevivem ao contra-ataque dos hospedeiros o papel de assegurar a continuidade da espécie na geração seguinte.

Um novo estudo, publicado no dia 2 na Current Biology, apresenta agora uma conclusão (quase) inesperada: há mais de 21 mil anos que os sarbecovírus causam pandemias no nosso planeta.

Tal como todos os vírus, os sarbecovírus, conjunto de vírus relacionados com a Síndrome Respiratória Aguda Grave — de que o SARS-CoV1 e o nosso conhecido SARS-CoV2 são exemplos — precisam de evoluir para sobreviver, mas ao mesmo tempo manter-se altamente adaptados aos seus hospedeiros.

Esta dualidade impõe aos vírus enormes restrições à sua liberdade de acumular mutações sem reduzir o perfil que lhes permite sobreviver (e causar os seus estragos) nos seus hospedeiros.

O dilema dos vírus é simples: se os hospedeiros ganham anti-corpos eficazes contra a sua conformação óptima, mutações demasiado pequenas continuam a ser apanhadas pelos anti-corpos; mas mutações demasiado radicais podem alterar a sua letalidade — ou a sua transmissibilidade — e tendem a desaparecer.

O novo estudo, desenvolvido por cientistas da Universidade de Oxford, analisou e recriou com sucesso os padrões da taxa de decadência destes vírus — e permitiu identificar a sua origem remota.

“Desenvolvemos um novo método que nos permite estimar a idade destes vírus em escalas temporais mais longas, e corrigir essa estimativa com uma espécie de relatividade evolucionária, na qual a taxa aparente de evolução dos vírus depende da escala de tempo em que a medimos”, explica Mahan Ghafari, co-autor do estudo, citado pelo Science 20.

“A nossa estimativa, baseada na análise de dados da sequência da sua evolução, de que estes vírus existem há mais de 21 mil anos, tem uma concordância assinalável com dados recentes de análise do genoma humano que sugere ter havido infeções com um coronavírus ancestral mais ou menos na mesma altura“, diz o investigador.

O novo modelo desenvolvido permite à equipa de investigadores não apenas reconstruir a história evolucionária dos vírus relacionados com o SARS-CoV-2, “como também analisar um conjunto mais abrangente de vírus de ARN e ADN em períodos mais remotos do passado”, acrescenta Ghafari.

As estimativas do modelo, aplicado à análise do HCV, o vírus da Hepatite C — uma das principais causas de doenças hepáticas — são também consistentes com a ideia de que este vírus existe há mais de 500 mil anos. O HCV poderá assim ter-se espalhado pelo planeta através da “migração a partir de África” dos humanos modernos, há 150 mil anos.

O estudo parece assim indicar que o Homem e os vírus caminharam lado a lado ao longo da História, sem que deles tivéssemos dado conta — até Dmitri Ivanovsky, em 1892, ter descoberto que a seiva de uma planta de tabaco doente, mesmo depois de filtrada, infetava plantas saudáveis, e chamado ao misterioso agente responsável… vírus.

Armando Batista, ZAP //

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