Descobertas novas pistas sobre a história da domesticação da videira na Europa Ocidental

Num estudo publicado agora na prestigiada revista Science Advances, uma equipa de investigadores portugueses utilizou a sequenciação de genomas de videira para ajudar a clarificar importantes aspetos sobre a história da domesticação desta espécie.

O estudo aponta para a existência de hibridação pós-domesticação entre videiras domesticadas da Europa Ocidental e videiras silvestres locais, e sugere que este evento tenha tido impacto ao nível da adaptação ambiental.

A conjugação de investigação histórica com estudos genéticos tem vindo a suportar a hipótese do centro de domesticação da videira se situar na região do Transcáucaso, região que inclui países como a Geórgia e a Arménia. A partir desta região, a utilização doméstica da videira ter-se-á expandido ao longo do Mediterrâneo.

No entanto, vários estudos moleculares têm apontado fortemente no sentido de castas modernas da Europa Ocidental, e em particular da Península Ibérica, estarem geneticamente relacionadas com videiras selvagens locais, sugerindo desta forma uma história de domesticação mais complexa, e que no limite poderá incluir centros de domesticação independentes para esta espécie.

O trabalho agora publicado foi conduzido por uma equipa de investigadores do BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, InBIO Laboratório Associado da Universidade do Porto), LEAF/ISA e PORVID (Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, e Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira), e UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), apontando no sentido de múltiplas castas da Europa Ocidental conterem, em maior ou menor grau, DNA que é proveniente de videiras selvagens locais.

“Um dos aspetos mais interessantes recai sobre a questão da existência de um ou múltiplos centros de domesticação. A nossa investigação ajuda à clarificação desta questão, suportando um cenário em que ocorreu apenas uma domesticação original, seguida de hibridação pós-domesticação com videiras selvagens locais da Europa Ocidental. Existe uma boa probabilidade de pelo menos um grande evento de hibridação ter acontecido na Península Ibérica”, explica Herlander Azevedo, investigador do BIOPOLIS/CIBIO-InBIO e coordenador do estudo.

De entre os genomas analisados foi identificado um subconjunto de castas Ibéricas que apresentou maior evidência da presença de DNA de videiras selvagens locais.

“Este subconjunto é enriquecido em castas tradicionalmente associadas aos Vinhos Verdes, e foi alvo de um estudo mais aprofundado”, esclarece Sara Freitas, estudante de doutoramento no CIBIO-InBIO e primeira autora do estudo.

Neste subconjunto de castas foi possível procurar regiões do genoma com maior evidência de associação a videiras selvagens locais, bem como detetar a presença de assinaturas de seleção. Do cruzamento desta informação surgiu um conjunto de genes com maior probabilidade de terem impacto nas características destas castas por via da hibridação com videira selvagem.

“Curiosamente, muito dos genes estão associados à adaptação ambiental, suportando um cenário em que este evento foi importante para a adaptação ao clima Atlântico de castas nacionais relevantes como o Alvarinho” refere a investigadora.

Herlander Azevedo salienta que “a viticultura deverá ser fortemente afetada pelas alterações climáticas, tornando extremamente relevante a identificação dos genes e mecanismos envolvidos na adaptação ambiental em videira”.

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