A história começa por nos parecer banal. Há um personagem, Richard, que recentemente enviuvou e acaba de se reformar. Vemos Richard desfazendo o gabinete na Universidade, tentando dar início a uma vida que lhe é estranha, sem a ordem conferida pela mulher à rotina do lar, com uma imensidão de dias vazios pela frente a que não sabe ainda como dar sentido. Um dia, Richard repara numa imensidão de barracas numa praça da cidade, por onde circulam homens de tez escura e se destacam “faixas e cartazes com palavras de ordem pintadas à mão”.
Quem são estes homens, o que se passa nesta praça bem situada no centro de Berlim?
Os homens são migrantes, refugiados vindos de uma mão cheia de países africanos, chegados a Itália em precários barcos depois de viagens terríveis às quais muitos não sobreviveram, prosseguindo depois em direcção a um mítico el dorado mais a Norte, onde haverá trabalho, comida, dinheiro para guardar e mandar para as mães, as mulheres, os filhos deixados lá para trás, no caos da guerra, da miséria e da fome.
Curioso, Richard começa a aproximar-se dos refugiados, programando uma lista de patéticas perguntas académicas que, pensa, lhe trarão um esclarecimento sociológico do fenómeno. Consegue autorização para os entrevistar no edifício para onde entretanto são transferidos e, aos poucos, vai descobrindo as pessoas. Compreender passa agora a ser conhecer aqueles homens, os seus nomes, as suas personalidades, os seus anseios. Pessoas como todas as outras, mas pessoas precárias, em risco permanente: Rashid, Zair, Ithemba, Apolo, Kumasi. Osarobo, músico que descobre o piano em casa de Richard. Tão longe, tão perto. Tão parecidos, tão diferentes. Precisam de ficar, querem trabalhar, há trabalho, mas a burocracia não deixa. São movidos de um lado para o outro, a maior parte é enviada de volta para Itália, alguns poucos conseguem finalmente os seus papéis. São pessoas às voltas com uma vida de uma dureza inimaginável.
Com um estilo elegante e discreto, depurada e intensa, nunca melodramática, a história que a escritora alemã Jenny Erpenbeck nos conta em Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai (Relógio de Água, 2018) lê-se como um mergulho na condição humana – e dela emergimos, seguramente, mais humanos.
Manuela Barreto Nunes [Bibliotecária]
