João Ferreira, natural de Braga, de 34 anos, é fotógrafo de natureza e o Parque Nacional da Peneda-Gerês o seu local favorito para captar as melhores imagens da fauna e da flora.
São os seus retratos sobre as investidas dos abutres que se têm destacado entre a panóplia de amantes da vida selvagem que demandam o território que tem sempre algo para descobrir.
“Desde miúdo que sempre senti um fascínio pelo único parque nacional português, todos os passeios em família eram para mim um prazer enorme, o de poder visitar estas terras”, salientou João Ferreira ao ‘Terras do Homem’, mostrando os seus trabalhos mais recentes.

“Em 2014, após terminar a minha licenciatura em marketing, na Universidade do Minho, passei a ter mais tempo livre, decidindo então investir os tempos livres das minhas folgas laborais a conhecer estas serras de forma mais solitária e metódica”, explica João Ferreira.
“À medida que me aventurava trilhos adentro, fui vendo cada vez mais biodiversidade, assim comprei a minha primeira máquina fotográfica, em 2015, a partir daí a paixão pela vida selvagem e por poder retratá-la com imagens foi sempre em crescendo”, acrescenta.
Abutres maiores que em África
João Ferreira começou a reparar numa espécie nem sempre bem vista, por questões mais ligadas às tradições dos contos infantis, “só que entre a muita fauna que fui conseguindo observar, os abutres foram um destaque óbvio, só estamos habituados a ver aves assim em documentários sobre África, mas a verdade é que eles são autóctones e ainda são maiores que os africanos, imagine-se, são aves gigantes com mais de dois metros de envergadura”.

“Ver um bando destas aves, numa coluna térmica a sobrevoar-nos a cabeça, é uma visão que não se esquece, é audível o som deles a cortar o vento, eu já tive oportunidade de ver abutres em praticamente todas as zonas do parque nacional, atualmente não se conhece nenhum ninho no parque, embora até estejam presentes na toponímia, mesmo sob o nome de ‘Bruites’, num local da Serra Amarela”, recorda o fotógrafo de natureza João Ferreira.
Acerca das origens dos abutres, conta “acreditar-se que vêm até estas paragens em busca de alimento, sobretudo oriundos de Espanha, embora se saiba existir colónias nidificantes no Douro Internacional por exemplo”, salientando que “nos últimos anos é comum contar bandos de 30, 40, 50 até de 100 aves, normalmente a grande maioria grifos (Gyps fulvus), mas não é raro encontrarmos um outro abutre preto (Aegypius monachus), entre o bando”.
As vantagens para o parque nacional
Por isso João Ferreira “acalenta a esperança que num futuro próximo possamos ter estas aves como residentes de pleno direito do parque nacional, pois apesar de terem um pouco de má fama, com o nome abutre a ter uma conotação negativa, a verdade é que estes animais têm um papel fulcral no bom funcionamento dos ecossistemas, ainda para mais em zonas com tantos ungulados selvagens e domésticos como o Gerês, onde uma doença contagiosa pode rapidamente alastrar a partir de um cadáver infetado, daí a sua grande importância”.

“Eu próprio vi um garrano morto, provavelmente com doença, desaparecer em menos de 24 horas. Um bando com mais de 50 abutres fez o trabalho, sem custos monetários, sem trabalho a enterrar e totalmente ecológico, enquanto a vaca que aparece morta nas minhas mais recentes fotos, estava em cima de um pequeno regato, a poluir todo o curso de água até às aldeias mais abaixo. Eles ‘limparam’ a carcaça, e em pouco tempo só restaram alguma pele e ossos”.
“A verdade é que com um campo de alimentação destas aves a funcionar dentro do parque incrementaria o regresso e a fixação de várias aves necrófagas, como os abutres e outras com hábitos necrófagos como são o caso da águia real (Aquila chrysaetos) ou o milhafre preto (Milvus migrans), aumentando a biodiversidade, melhorando o ecossistema e tendo reflexos imediatos na atração de turistas de natureza, o que constituiria ainda um beneficio importante para os criadores de gado da região, que assim teriam a oportunidade de se livrarem de cadáveres e subprodutos sem custos e sem correrem riscos”, diz João Ferreira.
