Opinião

Rankings – o Einstein da Pampilhosa da Serra

Diz o professor Jorge Bento, e eu subscrevo: “Mais uma vez, a comunicação social, cumprindo o ritual inscrito no evangelho desta era insana, inunda-nos com a droga dos rankings das escolas. O que fazer? Fechar os olhos e sacudir os ombros ou denunciar a manobra opiácea?”

Desta vez, confesso, quase me apanhavam desprevenido. Habitualmente surgem em tempos mais precoces, perto do final do 1º período, início do 2º para ainda possibilitar às famílias com potencial económico a transferência dos filhos, de uma ETAR pública para uma Cambridge privada onde estes, como que por milagre, verão as suas notas atingir níveis estratosféricos, apoiadas, obviamente, num considerável esforço financeiro dos progenitores.

Mas, assim como alguma imprensa aproveita para vender páginas publicitando escolas privadas, denegrindo em simultâneo as públicas, apresentadas como uma espécie de esgoto a céu aberto ou como aceitáveis aterros sanitários, outra dá a conhecer o “Einstein da Pampilhosa da Serra”- Lucas Costa – único aluno da escola a realizar exame e que colocou a EB e Secundária de Escalada (como o próprio nome indica) no topo do Evereste dos rankings da disciplina de físico-química. Já a “melhor” escola pública, consta ter sido uma instituição dedicada ao ensino da música onde “o sucesso se deve ao esforço de professores e alunos, sendo que estes últimos precisam rotinas, métodos de organização e disciplina, para tocarem variados instrumentos”. Este “tocar variados instrumentos” fez-me lembrar, também a propósito dos rankings, uma parte de um texto do Marco Alves, que passo a citar:

Para muitos dos alunos da nossa região, o despertador toca às 5h30 e ainda ajudam nas lides domésticas, antes de mais um dia de aulas. Percorrem, a pé, consideráveis quilómetros até à paragem de autocarro que pode demorar ainda, 40 minutos (ou mais) a chegar à escola. Após o dia de aulas, chegam a casa às 19h (ou depois) e ainda ajudam nos trabalhos do campo e da casa. Amarram-se à vida, às responsabilidades familiares. Serão estes a dar maior produtividade e competitividade, pela sua humildade, pela consciência, pela sua essência e pelo próprio custo que a vida lhes ensinou a pagar.”

Alheios a tudo isto, os arautos dos tóxicos rankings apresentam-nos a melhor escola de português, de matemática, de físico-química, de biologia, etc. É como se no futebol eu procurasse o melhor pé esquerdo (ou direito) na finta, no passe, no remate, mas esquecesse que o que conta é o ser humano, no seu todo, que entenda a complexidade do jogo (e da vida) e suas variáveis, conseguindo comunicar com colegas (de equipa e de trabalho) e contra comunicar com adversários (ou concorrência).

Na maioria das profissões existentes (ou a criar9 a resiliência e o trabalho em equipa s(er)ão fundamentais. Por isso, acreditem, levam vantagem os que depois de superarem agruras e vicissitudes (por tocarem vários instrumentos) verão isso refletido no seu desempenho no mundo do trabalho e (também) no ensino superior, onde, surpresa das surpresas, há estudos que provam, serem os alunos oriundos das escolas públicas, os mais capazes.

 

Carlos Mangas [Professor de Educação Física]

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