Vila Verde

A tradição de rezar o terço às 15h00 há mais de 15 anos em Vila Verde

São três da tarde. Mais de 20 pessoas estão em silêncio dentro da Capela de Santo António em Vila Verde. Conceição Salgado levanta-se e começa a recitar o terço. Primeiro o da Misericórdia, depois o Rosário. A tradição tem 15 anos e é uma das maiores demonstrações de fé do concelho. De todas as idades, os participantes são vários: os de sempre, os que vão aparecendo de vez em quando e os emigrantes, que nas suas férias, não faltam um dia.

É Conceição que toma a dianteira da conversa, até porque é das mais antigas a participar na reza do terço. “A percursora da iniciativa já faleceu, mas a tradição foi crescendo depois do pároco ir avisando da reza do terço diária”. Hoje, reza-se primeiro o terço da Misericórdia, depois o Rosário, em 45 minutos que os participantes apelidam de “regeneradores”. Rosa Gomes é uma ex-emigrante, que “sempre que vinha a Vila Verde vinha cá todos os dias”, tradição que manteve depois de se mudar definitivamente para o concelho, há oito anos.

Fotos: Luís Ribeiro

Manuel José Silva é um dos ‘mais novos’ (em termos de participação) do grupo, mas é ele que, normalmente comanda a celebração. No dia da reportagem, uma consulta médica impediu-o de estar desde o início. Ainda assim, mal saiu do consultório, ‘correu’ para a Capela e ainda conseguiu rezar um mistério e meio. “Só neste bocadinho, parece logo que fico mais aliviado”.

Fátima Leitão admite que “para ela, esta tradição tem muito valor”, e ainda que os afazeres profissionais a possam impedir de todos os dias mantém, religiosamente, a reza do terço, às 15h00, no local onde estiver. “Sinto-me em comunhão com todos estes meus irmãos na fé e por isso, para mim, a oração tem mais valor”.

Sem terem uma explicação racional, os quatro são unânimes: “se há algum dia que não conseguimos vir, não se anda tão bem”. Os dois terços são sempre dedicados: “pelos mais necessitados, pelo Mundo, pelos doentes, por aqueles que não acreditam e por aqueles que não podem vir, por exemplo”. A promoção da paz assume, por estes dias, especial relevância.

Emigrantes
Nos meses de verão, a capela de Santo António recebe alguns emigrantes, que conhecendo a tradição, fazem questão de participar. “Há um jovem que vem da Suíça, que nessa altura, assume ele a condução do terço de uma forma diferente e muito própria”, acrescenta Conceição, que vai trazendo a neta com ela.

A tradição começou com a recitação do terço do Rosário, o mais comum, e depois, por sugestão de uma das participantes, foi introduzido o da Misericórdia, complementar ao outro (ver caixa). Há dias em que a capela não chega para albergar tanta gente. Inclusive, pessoas de concelhos vizinhos, de passagem por Vila Verde, e sabendo da reza do terço, se juntam para orarem.

Pandemia
A verdade é que, mesmo durante a pandemia, a traição manteve-se. A frequência foi menor, reconhecem, e até o local mudou. “Rezamos na igreja paroquial para cumprirmos as regras de segurança e sempre com máscara”. Os que optaram por não ir, era através da ‘Canção Nova’ que mantiveram o hábito diário de rezar: “não é a mesma coisa, mas para situações excecionais serve”.

Com a abertura social, a tradição regressou ao seu local de origem, com caras novas e alguns netinhos de mãos dadas com as avós. “Estamos a lançar sementes para que apareça mais gente nova”.

15h00
A hora a que se realiza o terço tem um significado especial. Segundo a tradição cristã, foi às 15h00 que Jesus Cristo deu o último suspiro, como celebrado na sexta-feira santa. Os quatro interlocutores, para além de relembrar o facto maior do Cristianismo, acreditam que “é uma hora de maior abertura para rezar pelos outros”.

A verdade é que a reza dos dois terços está para durar, pelo menos, na vontade de quem lá vai: “é um recarregar de baterias diário, que alimenta a alma e tem transformado como pessoas”, refere Fátima, reconhecendo ser “uma pessoa a ser melhor todos os dias”. Até porque oração sem prática não serve para muita coisa.

Terço do Rosário e Terço da Misericórdia
O Santo Rosário é uma prática religiosa de devoção mariana muito difundida entre os católicos romanos, que o rezam tanto pública quanto individualmente. Consiste na recitação seriada de orações com o auxílio de uma corrente com contas ou nós, que recebe o mesmo nome. O Rosário também compreende a contemplação de determinadas passagens da vida de Jesus Cristo e de sua mãe, a Virgem Maria, que segundo a doutrina da Igreja Católica são de especial relevância para a história da Salvação e que recebem o nome de “Mistérios”.
O Rosário é tradicionalmente dividido em três partes iguais, com cinquenta contas cada e que, por corresponderem à terça parte, foram chamadas de Terço. Cada Terço compreende um conjunto especial de três Mistérios: os Mistérios Gozosos, os Mistérios Dolorosos e os Mistérios Gloriosos. O Papa João Paulo II, por meio da carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, de 16 de outubro de 2002, sugeriu uma nova série de Mistérios, os chamados Mistérios Luminosos, que contemplam o ministério de Jesus, do seu batismo até a Última Ceia. Essa nova série de Mistérios disponíveis para contemplação alterou o formato do Rosário, que passou a contar com 200 Ave Marias, ou quatro Terços de 50 Ave Marias com os 4 Mistérios: Gozosos, Luminosos, Dolorosos e Gloriosos.
O Terço da Divina Misericórdia é uma devoção religiosa católica baseada nas aparições que Santa Faustina Kowalska (1905-1938) recebeu de Jesus Cristo. Esta devoção consiste na recitação de um conjunto de jaculatórias ditadas por Cristo e através do uso de um terço comum do Santo Rosário.
Santa Faustina Kowalska fez parte da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia e foi canonizada no ano 2000 pelo Papa João Paulo II. Ela relatou no seu diário que recebeu as orações através de visões e conversações que teve com Jesus Cristo. Faustina escreveu que o propósito das orações do terço é trino: obter misericórdia, confiar na misericórdia de Cristo, e mostrar misericórdia para com os outros.
O Terço da Divina Misericórdia reza-se, preferencialmente, às três horas da tarde (a chamada Hora da Misericórdia), meditando na Paixão de Jesus e apelando a Misericórdia de Deus para toda a Humanidade.
Orações iniciais:
Pai Nosso… Ave Maria… Credo dos Apóstolos…
Nas contas grandes:
Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Vosso muito amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e dos pecados de todo o Mundo.
Nas contas pequenas:
Pela Vossa dolorosa paixão, tende Misericórdia de nós e de todo o Mundo.
No final de cada dezena:
Ó Sangue e Água que jorrastes do Coração de Jesus como fonte de misericórdia para nós: eu confio em Vós!
Oração final (reza-se três vezes e na terceira diz-se Amém)
Deus Santo, Deus Forte, Deus imortal, tende piedade de nós e de todo o Mundo.

Conceição Salgado

“Venho cá quase desde o início e sinto-me muito bem. A minha neta quando está comigo também vem. Enche-me a alma e saio daqui revigorada. Não consigo explicar, mas sinto-me mais plena, com mais vontade de fazer as coisas”.

Rosa Gomes

“Estive emigrada e sempre que vinha de férias participava na reza do terço e fazia-me muito bem. Em França mantinha o hábito de rezar. Quando vim, há oito anos, em definitivo, comecei logo a vir à capela rezar o terço. É algo de que gosto muito”.

Manuel José da Silva

“A mim, rezar o terço abre-me a mente, pareço que acolho mais rapidamente as pessoas. Apesar de ser um dos mais novos neste grupo, costumo orientar a reza do terço e quando não posso, há sempre alguém que o faz. A verdade é que se não venho, sinto que não sou a mesma pessoa”.

Fátima Leitão

“Eu sempre rezei o terço. No entanto, vir aqui à Capela é especial, porque estou mais próximo de Deus, estou com outras pessoas e parece que a nossa oração tem mais força. Quando não posso vir, acompanho na televisão ou rezo no sítio onde estou, mas sempre às 15h00. Faço isto há muitos anos e como tenho o meu neto comigo, ele vem também”.

Deixe um comentário